Ruy Castro passeia pelos sebos do Maletta e se mostra um bibliófilo apaixonado

O Estado de Minas acompanhou o jornalista e escritor mineiro, radicado no Rio de Janeiro, em seu giro pelo Edifício Maletta

por Eduardo Tristão Girão 03/04/2016 09:30

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Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)

“Você acha que eu vim aqui para comer macarrão?”, pergunta o escritor mineiro Ruy Castro, enfiado num dos sebos do Edifício Arcângelo Maletta, em Belo Horizonte. Ele passou pela cidade recentemente para participar do projeto Sempre umPapo, lançar o livro A noite do meu bem (Companhia das Letras) e combinou passeio com o Estado de Minas pelo local. Marcou apenas o horário, sem dizer exatamente onde estaria. Pouco antes, comeu tutu com costelinha na Cantina do Lucas e lá deixou recado com o garçom: já flanava pelo segundo andar.

Radicado no Rio de Janeiro há décadas, ele não gosta de perder tempo quando está em BH: o garimpo de livros usados no Maletta é sagrado. Aliás, discos e objetos também. Por R$ 160, arremata LPs e discos de 10 polegadas, entre Angela Maria e cantos de aves do Brasil. “Só não pode fotografar minha careca. Fora isso, pode fazer o que quiser”, pede Castro ao fotógrafo, já batendo em retirada, rumo ao próximo sebo. “Este, por exemplo, é dos anos 1980 para cá. Mas não discrimino, porque já achei coisas incríveis nos sebos mais vulgares.”

O escritor revela estar à procura do livro de poesia A construção, de Theotônio dos Santos, que, calcula, não deve valer mais que R$ 5. “Ele fez parte de movimento cultural daqui de BH nos anos 1950 chamado Geração Complemento. Ele é meu primo, mora no Rio e também não tem esse livro. Perdi o meu, que ganhei dele quando tinha 9 anos, com o seguinte autógrafo: ‘Ao futuro intelectual, para sua futura estante, à espera do seu futuro livro’”, conta.

Castro conseguiu reconstituir 90% da biblioteca que teve até os 15 anos. Houve “reencontros” memoráveis, a exemplo do que teve com a edição de Alice no país das maravilhas traduzida por Monteiro Lobato, depois de 20 anos procurando – foi o primeiro livro que ganhou, aos 5 anos. Pouco depois, deu a sorte de arrematar Tarzan, o filho das selvas, o primeiro livro que comprou, escolhido ao lado do pai.

De repente, dispara: “Você não sabe, mas este livro é meu”. Saca da estante, então, A arte do encontro, com legendas dele para fotos de personalidades brasileiras feitas por Paulo Garcez, além de textos de Millôr Fernandes e Sérgio Augusto. É o primeiro livro com o nome dele que encontra no passeio. “Lamento, pois certamente este livro está aqui porque alguém morreu”, diz.

Não demora a ficar clara sua atração por livros de bolso. Ao manusear um exemplar da editora francesa Le Livre de Poche, revela: “Tenho uns 200 dela. Eles mudaram a direção de arte nos anos 1960 e o desenho da lombada ficou diferente. Só compro os dessa época para trás. É uma questão só estética. O livro tem isso, não é só o conteúdo. O objeto interessa. Compro livros em péssimas condições e restauro se achar que não encontrarei outro. Se estiver em estado ruim, embrulho direitinho com a Heloísa, minha mulher, que é boa de embrulho”.

O que ele faz quando encontra outro? “Dou para alguém que sei que vai valorizar”, responde. Manter dois exemplares em sua biblioteca, composta por 20 mil livros, é comum. “Se for um sebo bacaninha e organizado, sei que o livro será encontrado. Mas se for daqueles vira-latas, levo e dou para alguém, evitando que seja destruído”, justifica. Sem achar um título de Kafka para completar sua coleção, sai de mais um sebo.

Ao entrar no seguinte, critica a organização do local. “O sebo arrumadinho demais não é bom, pois nitidamente o dono se preocupou em colocar à venda só os livros em melhor estado. Ou seja, os mais novos. Coisas importantes do passado podem acabar ignoradas porque estão feias, velhas, estragadas. O sebo bem bagunçado é ótimo de ser visitado porque a gente encontra coisas que não está esperando.”

Castro demonstra também ser exímio adivinhador de datas. “Pelo design do texto na lombada, dá para saber de que época é. Este, por exemplo, é dos anos 1970 ou 1980”, diz. Pinça, então, O tocador de tuba, de Chico Anysio, e localiza 1977 nas primeiras páginas. A cena se repete várias outras vezes ao longo do passeio e, numa delas, gargalha ao ler “1936” ao abrir Perfis, de Humberto de Campos, pois havia acabado de antecipar essa informação com a frase “aqui estamos no máximo nos anos 1940”.

Percorrer sebos é algo que lhe agrada à semelhança de uma caça ao tesouro. Quando contou a Lêdo Ivo que levou 15 anos para encontrar Uma temporada no inferno – obra de Rimbaud que Ivo traduziu –, ouviu dele que bastaria ter falado disso que lhe conseguiria um exemplar. Castro respondeu: “A graça está em achar”. Em toda cidade que visita, tenta arranjar tempo para visitar essas lojas e chegou a cunhar a seguinte frase: “Quando morrer, não quero ir para o céu, quero ir pro sebo”.

“Olha que chuchu! Quem gosta disso é a Heloísa”, elogia o escritor ao pegar dois volumes de poemas de Castro Alves que cabem na palma da mão. Enquanto Wesley Safadão canta no rádio do sebo, ele teoriza: “É o objeto, não é o poema. Alguém caprichou, se deu ao trabalho de fazer isso e você passa a valorizar mais o que lê”. Castro não tem celular, diz que MP3 é algo que “já ouviu falar” e que nunca pegou um tablet. “E pretendo continuar não pegando”, decreta.

Biografias

Com um livro sobre Getúlio Vargas na mão, diz que não se arrependerá de comprá-lo mesmo se dele aproveitar apenas duas linhas para suas pesquisas. “Faz parte”, completa. Para se ter ideia, ele leu de cabo a rabo toda a bibliografia do seu livro recém-lançado, que tem nada menos que 15 páginas. Detalhe: isso inclui vários títulos que já havia lido antes.

Escrever um livro como esse é um trabalho que lhe custa entre três e cinco anos. Foi assim nas biografias de Carmen Miranda (Carmen), Garrincha (Estrela solitária) e Nelson Rodrigues (O anjo pornográfico). Foi assim nas reconstituições históricas da Bossa Nova (Chega de saudade), do Bairro Ipanema (Ela é carioca) e do samba-canção (A noite do meu bem).

Muitas vezes, relata, a ideia para escrevê-los surge durante o banho e, ainda ensaboado, consegue rascunhar o básico do projeto. Esse “modo de fazer”, embora longo e minucioso, é rápido de descrever: “Você lê tudo o que saiu sobre o assunto no passado e aproveita para fazer uma enorme listagem de pessoas a serem procuradas pessoalmente. Umas 300 que acabam reduzidas a 200, porque muitas já morreram e outras a gente não vai achar. Depois que você aprende o que tudo mundo sabe, vai à rua para descobrir o que ninguém sabe”.

Sobre ter se negado a biografar Dercy Gonçalves, ele revela ter dito não a outras 50 personalidades brasileiras que o procuraram. “Não sou de pegar encomenda. Fico satisfeito de ser procurado, mas recuso educadamente, pois não faço esse tipo de coisa. Por isso fiz poucos livros do tipo. As ideias são sempre minhas”, conta. “Está chata esta reportagem? Porque eu estou adorando”, pontua Castro.

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