Revista mineira Piseagrama estará na Bienal de Veneza

Curador do pavilhão do Brasil no evento, Washington Fajardo, selecionou a publicação entre representantes de projetos que interagem com as cidades com o intuito de dar solução aos seus dilemas

por Walter Sebastião 02/04/2016 08:00

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REPRODUÇÃO PISEAGRAMA
(foto: REPRODUÇÃO PISEAGRAMA)
A revista mineira Piseagrama, editada por Fernanda Regaldo, Renata Marquez, Roberto Andrés e Wellington Cançado, foi selecionada para estar no pavilhão brasileiro da 15ª Bienal Internacional de Arquitetura – Bienal de Veneza 2016, que será realizada de 28 de maio a 27 de novembro, na cidade italiana. O material a ser apresentado deve ser os últimos dois números da publicação (7 e 8), que tiveram como tema Passeio e Extinção. Também deve ser enviada para a mostra uma campanha, desenvolvida em bolsas e camisetas, com textos como “Carros fora do centro”, “Uma praça em cada bairro”, “Ônibus sem catraca”, entre outros.

A consideração com o trabalho dos mineiros é um exemplo do que Washington Fajardo, o curador da representação oficial do Brasil na Bienal, vai mostrar em exposição que leva o nome de Juntos e aborda exemplos de ativismo a favor da melhoria da qualidade de vida nas cidades. “Vamos apresentar união de esforços entre arquitetos e protagonistas da sociedade com o objetivo de reedificar a esfera pública”, diz Fajardo. “Projetos que mostram o arquiteto dentro da sociedade, trabalhando junto com a sociedade e não como grande esteta dando respostas aos problemas”, explica. Trata-se de histórias e projetos que conquistaram melhorias do espaço urbano, conforme ele ressalta.

A proposta de Washington Fajardo é resposta à provocação do arquiteto chileno Alejandro Aravena, diretor-geral da Bienal, cujo tema é Reporting from the front. A ideia é evidenciar trabalhos voltados para a qualidade de vida, criados atuando nas margens, em circunstâncias difíceis, enfrentando desafios prementes. “O arquiteto é agente fundamental no desafio de termos cidades melhores. Assim como identificamos o advogado com justiça, o médico com saúde, precisamos identificar o arquiteto com a cidade”, afirma o curador, que é “um paulista radicado no Rio de Janeiro de família mineira”. Fajardo preside atualmente o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.

RABISCO GENIAL

A mostra Juntos, de acordo com Fajardo, coloca foco sobre “o interesse público” em três dimensões: cultura negra e população negra no território urbano; centralidades históricas; patrimônio cultural. “O edifício público é o mais generoso que existe. Abriga qualquer tipo de pessoa e tem função simbólica de falar sobre nossa cultura. Construímos edifícios públicos maravilhosos. Mas deixamos de fazê-los ao entender o projeto como rabisco genial”, critica. Atuar na esfera pública, argumenta, cobra não só consideração estética ou produção e reprodução em massa. “Esse caminho organizou o mundo no século 20, mas hoje vai mostrando seus limites”, avalia.

A Bienal de Veneza tem tido o papel de organizar conceitual e teoricamente as práticas em curso no mundo, na opinião do arquiteto. “É uma grande confluência de pensamentos e práticas.” Ele julga que a mostra, desde os anos 1970, vem ganhando relevância cada vez maior ao trabalhar temas expressivos, como a permanência do modernismo, a questão das desigualdades, a ocupação dos territórios etc. Neste ano, a Bienal coincide com a Habitat 3, conferência de cúpula da Organização das Nações Unidas, prevista para junho, em Quito (Equador) e também voltada às respostas que arquitetos e urbanistas vêm dando aos dilemas das cidades.

Juntos é a primeira curadoria de Washington Fajardo. “Fazê-la está iluminando minha experiência como arquiteto e urbanista que atua no serviço público”, diz. “Estamos carentes tanto de profissionais atuando no setor quanto de mais consideração com metodologia de como trabalhar nesse contexto. Se tivéssemos participação, teríamos mais sustentabilidade econômica, social e ambiental. Quem tem projetado o espaço público é o arquiteto dedicado exclusivamente a edificações, e o problema é que o espaço público tem especificidades. Até temos pessoas atuando, mas aos soluços, sem continuidade, sujeitas aos altos e baixos econômicos. Como arquitetura é prática, sem exercitar, ficamos com pouca experiência na área”, observa.



O PENSAMENTO DE FAJARDO

Confira opiniões do arquiteto sobre aspectos relacionados à arquitetura e à cidadania

DILEMAS
Achei muito interessante o tema da Bienal pelo que estamos passando no Brasil hoje. Vivemos o fim de um longo ciclo que começou com a construção de Brasília e a união de empreiteiros e governo cujos limites a Lava-Jato vem mostrando. Podemos, neste momento, olhar para outras práticas, de menor escala, que falam de cultura arquitetônica mais ancestral e relevante. Quero mostrar na Bienal a resposta aos dilemas urbanos vindos através da artesania, do saber fazer arquitetura, da cultura do projeto sob o ponto de vista da sustentabilidade e da cultura. E como estamos respondendo localmente aos desafios do planeta e da sociedade.

NEGRITUDE
Quando olhamos a gênese do espaço urbano no Brasil, vemos que eram os escravos que ocupavam o espaço público. Essa gênese está plena de sentido e valor cultural de matriz africana. Não é à toa que sentimos, nas cidades, tanto a força de nossa musicalidade, uma relação com o corpo. Mas as políticas urbanas repetem modernidade equivocada – o Minha Casa Minha Vida nas periferias, centros urbanos vazios. O Sambódromo, do Rio de Janeiro, é um equipamento cultural fantástico, mas desarticulou qualidades urbanísticas e ambientais onde foi implementado. A comunidade pagou um preço alto por ele. E isso é um problema.

FUTURO  
Nosso futuro tem que ser mais Ouro Preto do que Pampulha. Ouro Preto abriga famílias, comércio, patrimônio, sustentabilidade, tem vida. As formas tradicionais do ambiente construído vão mostrando que resistem mais aos problemas. A Pampulha é um momento estético de grande intensidade e força e contém respostas importantes de tecnologia construtiva. Mas temos oportunidades mais variadas e interessantes de arquitetura no Brasil. Não há como ficar edificando como há 50 anos. Ao fazer isso, estamos deixando de enxergar outras belezas, nossa diversidade étnica, os centros históricos, o patrimônio ambiental.

AGENDA URBANA
A redemocratização foi um processo muito importante, mas não assegurou melhoria urbana. O Brasil estabilizou a economia, enfrentou e venceu a agenda social e de inclusão social, mas a experiência do brasileiro na cidade é terrível. Precisamos agora encarar a agenda urbana. Nossa experiência cidadã não pode ser só comprar carro e geladeira. Precisamos exigir mais plenitude de vida nas nossas cidades, melhor transporte coletivo, o problema da moradia mais bem resolvido. Não é utopia, pelo contrário. Estarão na Bienal realizações que mostram que a realidade é mais rica e generosa do que a utopia.

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