Corra para ver 'Urgente'

Cia Luna Lunera estreia novo espetáculo em BH

por Silvana Arantes 01/04/2016 08:00

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CAROL THUSEK/DIVULGAÇÃO
(foto: CAROL THUSEK/DIVULGAÇÃO)
Quanto tempo leva para que uma plateia repleta de espectadores abandone sua ansiedade e pare para ouvir o tique-taque de corações alheios? 15 minutos foram necessários até que os convidados da sessão de pré-estreia de Urgente, da Cia Luna Lunera, sossegassem os dedos – que se moviam frenéticos nas telas e câmeras de celulares – e interrompessem as conversas sobre cheques pré-datados e outras preocupações cotidianas, na noite de quarta-feira, 30, em Belo Horizonte, para finalmente se concentrar nos atores, que já estavam em cena, quando o público foi autorizado a se acomodar nos assentos do teatro, no CCBB.

Dispensar os três sinais sonoros que usualmente antecedem o início dos espetáculos teatrais é a primeira “quebra de protocolo” nessa montagem, dirigida por Maria Silvia Siqueira Campos e Miwa Yanagizawa, em que o Luna Lunera, mais uma vez, entrega-se ao exercício de exploração de um território insondável – os desvãos da alma.

Frustração, sonhos irrealizados, culpa, solidão, ressentimentos, crueldade, traição e dificuldade de autoaceitação habitam o universo íntimo dos personagens, que, por sua vez, vivem em apartamentos sem entrada de ar ou, literalmente, sufocantes. O cenário (de Yumi Sakate e Areas Coletivo de Arte) dispõe os apartamentos numa fileira que os faz parecer estanques, sendo porém comunicáveis, no que se configura como uma inteligente solução dramatúrgica para a ideia de que os dramas singulares têm ressonância coletiva.

Os “acontecimentos” que dão corpo aos conflitos são enumerados no prólogo: “dois atropelamentos, um reencontro, quatro retrospectivas, um beijo, um teste de audiometria, duas desilusões, um desabamento”, entre outros.

As “retrospectivas” consistem em solos nos quais os personagens devem resumir suas vidas num tempo determinado – 2 minutos (ou 40 segundos, para aquela que se atrasa). Eis aqui o ponto alto de invenção nessa peça. Nenhuma das histórias se deixa ver por inteiro, a nos lembrar que nas narrativas, assim como na vida, algo sempre falta. É dessa forma que os monólogos do Luna Lunera ecoam a fabulosa Passagem das horas de Álvaro de Campos: “Não sei se a vida é pouco ou demais para mim. Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei se me falta escrúpulo espiritual, ponto de apoio na inteligência, consanguinidade com o mistério das coisas, choque aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos, ou se há outra significação para isso mais cômoda e feliz”.

Em Urgente, luz (Felipe Cosse e Juliano Coelho), trilha (Constantina), figurino (Yumi Sakate) repetem o padrão de elegância e simplicidade a que o Luna Lunera acostumou seu público. O elenco se mostra mais uma vez coeso e homogêneo em suas qualidades, a despeito de dividir o palco com esse ator intrigante que é Odilon Esteves, dono de um tempo particularíssimo de interpretação.

Ao escolher realizar uma reflexão sobre o tempo em sua sétima montagem, que demarca os primeiros 15 anos de sua existência, o Luna Lunera teve maturidade suficiente para ser “urgente sem pressa”. Corra para ver.

Urgente
De quinta a segunda, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil. Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

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