'Elefante branco' discute o teatro e a conjuntura do país

Drama marca a primeira vez em que todos os integrantes do grupo Mamãe Tá na Plateia sobem juntos ao palco

por Ana Clara Brant 29/03/2016 08:00

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Pela primeira vez desde que surgiu, em 2012, todos os integrantes do grupo teatral Mamãe Tá na Plateia estarão reunidos no palco. Até 3 de abril, a trupe vai estar em cartaz no Teatro Espanca! com seu mais novo espetáculo, Elefante branco. Com direção de Gustavo Bones e Mariana Maioline, a montagem tem como pano de fundo as relações pessoais.

Encerradas em uma pequena sala, cinco pessoas vivem afundadas em mesmice e desempenham seus papéis de um corriqueiro cotidiano. Uma novidade, porém, rompe o cotidiano tomado pela inércia e coloca em xeque a lógica dessas relações. Unindo banalidades cotidianas a elementos surrealistas e fabulares, Elefante branco faz emergir reflexões sobre o fazer artístico nos tempos atuais.
Nancy Mora/Divulgação
(foto: Nancy Mora/Divulgação)

Ator e autor da produção, Raysner de Paula conta que, para os artistas, tem sido experiência muito significativa estar todos em cena e que é uma possibilidade de se identificar enquanto grupo. “É uma coisa muito forte estarmos nós cinco juntos. A gente se reconhece também como ator e criador. Em todos os espetáculos anteriores, sempre era um de nós que dirigia. E agora convidamos a Mariana e o Gustavo justamente porque achávamos importante ter esse olhar externo”, observa.

O elenco conta também com Charles Valadares, Fabrício Trindade, Helaine Freitas e Vânia Silvério. Raysner de Paula acrescenta que já há um bom tempo  o Mamãe Tá na Plateia tinha a intenção de fazer algo com uma certa “pegada”. Analisando o rebuliço das eleições de 2014 e o caos político que se instaurou no país depois disso, os atores decidiram que era a hora de dar resposta aos acontecimentos do presente através do teatro. Inicialmente, eles começaram a estudar e a ler sobre diversos assuntos. Um dos livros que passaram pela mão do elenco foi Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago. “Até que um dia, eu estava em São Paulo, no Bairro Liberdade, e vi a alegoria imensa de um elefante branco. Era para um ritual de celebração do budismo. Nessa filosofia, o elefante tem uma significação toda sagrada, além de ser um símbolo da boa sorte, da sabedoria, da persistência e da determinação”, revela.

Outro simbolismo do elefante branco refere-se a algo de posse valiosa, da qual seu proprietário não pode se livrar e cujo custo (em especial o de manutenção) é desproporcional à sua utilidade ou valor. O termo é bastante utilizado na política para se referir a obras públicas sem utilidade. “A representação do elefante branco transita em vários lugares e por isso é possível fazermos leituras bem distintas sobre ele. O sagrado, o precioso, o oneroso que não sabemos para que serve. No fim das contas, a gente percebe que está falando do próprio teatro porque é uma arte que envolve todos essas significações”, ressalta Raysner.

ORIGEM Criado dentro da graduação em teatro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Mamãe Tá na Plateia busca produzir trabalhos teatrais que materializem esteticamente questões contemporâneas e que atravessem as relações de seus artistas com o outro e com o mundo. O nome da companhia expressa o desejo dos  integrantes de conceber um teatro que se implica com a democratização do acesso à arte, direcionando seu foco a um público que não é frequente nas casas de espetáculo. Por isso, aos poucos, o Mamãe Tá na Plateia vem desenvolvendo ações de formação de público e criando diferentes formas de acesso às suas atividades artísticas. “O nome é uma brincadeira, porque temos toda uma ação voltada para pessoas que não costumam frequentar teatro. E, geralmente, essa figura é a mãe da gente, que passa a ir justamente em virtude dos filhos que estão encenando”, complementa.

O grupo já apresentou duas montagens – O menino que sonhava demais (2012) e João-de-barros (2014) – e quatro cenas curtas – Antes do fim (2012), Aurora (2013), Café das três (2014) e o próprio João-de-barros, concebido como uma cena antes de se desdobrar em uma peça. Depois da temporada em Belo Horizonte, Elefante branco irá circular pelo interior de Minas Gerais.

AJUDA

O público vai poder escolher, a partir de R$ 10, quanto quer desembolsar pelo ingresso de Elefante branco. Quem quiser, pode pagar mais e ajudar o grupo a cobrir os custos da criação do espetáculo, que não contou com apoio de patrocinadores ou de leis de incentivo à cultura.

Elefante branco
Espetáculo com o grupo Mamãe Tá na Plateia Até domingo, às 20h, no Teatro Espanca! (Rua Aarão Reis, 542, Centro): Ingresso: a partir de R$ 10. Duração: 60 minutos. Classificação: livre.

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