Artesanato religioso é expressão de fé passada por gerações em Minas

Artesãos mineiros criam objetos de cunho religioso como forma de externar sua devoção. Tradições religiosas são mantidas por gerações e projetos ganham apoio de órgãos públicos

por Ana Clara Brant 25/03/2016 08:00

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Jair Amaral / EM / D.A press
Devota de Santa Luzia, que dá nome à sua cidade, Júnia Carvalho tece almofadas, estandartes e escapulários (foto: Jair Amaral / EM / D.A press)
Quando criança, a programadora visual Júnia Carvalho, de 47 anos, já demonstrava talento como artesã. Começou produzindo roupinhas para suas bonecas e copiando os bordados da mãe. Até que, certo dia, por um descuido, quase perdeu a vista. “Adorava picotar, colar, e a tesoura escapuliu da minha mão e quase fiquei cega. Desde então, tenho uma gratidão enorme por Santa Luzia, que é a protetora dos olhos”, revela. A devoção se intensificou ao longo dos anos, sobretudo pelo fato de Júnia ser nascida e criada na cidade da região metropolitana que leva o nome da santa. Para mostrar toda a sua fé, decidiu inovar e criou um objeto de arte e religiosidade: o coração de Santa Luzia. “Ele é todo de feltro e leva uma medalhinha dela. Procuro sempre presentear alguém que percebo ter algum problema na vista”, diz.

Não é só o coração que faz sucesso no ateliê da artista. Almofadas, resplendores de tecido, Divino Espírito Santo de madeira, ímãs, escapulários para os devotos e até para casa e o seu carro-chefe, o estandarte, estão entre os artigos mais demandados. “Ao mesmo tempo estou criando uma obra de arte, tem o lado do sagrado. Sinto uma energia muito grande quando estou aqui envolvida nos meus tecidos, linhas, fuxicos e outros materiais. Tudo que faço é com o coração e a devoção”, frisa.

Também luziense, a artesã e historiadora Bete de Almeida Teixeira, de 68, expõe boa parte do seu dom na sede do Centro de Referência do Artesanato de Santa Luzia, no Solar da Baronesa. Oratórios, presépios e os suntuosos porta-joias são os objetos mais procurados. “Nessas épocas mais religiosas, como a semana santa e a Páscoa, a demanda aumenta demais, mas o campeão é realmente o Natal. Minha família é toda de artistas, sobretudo de pintores, e isso acabou me influenciando. Mas, pelo fato de Santa Luzia ser um lugar bem religioso, o artesanato da fé acabou prevalecendo no meu caso”, comenta.

O professor de história e mestre em patrimônio cultural, Marco Aurélio Fonseca ressalta que o trabalho desses artistas é meticuloso e deve ser preservado por carregar uma prática tradicional. “Para mim, o mais interessante desse artesanato de Santa Luzia, e acredito que de outras cidades mineiras, é a junção das técnicas modernas com a tradição que é passada de geração em geração, e a fé que, claro, não pode faltar. É isso que o torna tão especial”, defende.

O recém-inaugurado Museu de Congonhas, na cidade histórica, tem como uma de suas principais ações o projeto Ofícios da fé, idealizado pelo presidente da Fundação Municipal de Cultura, Lazer e Turismo de Congonhas (Fumcult), Sérgio Rodrigo Reis. A inciativa visa expandir a atuação do museu nas comunidades da região, incentivando tradições culturais, produção de suvenires, oficinas, debates, palestras e livros. “Vários artistas locais estão participando das atividades, assim como artesãos e produtores que foram envolvidos nessa empreitada. Trata-se de um programa desenvolvido pelo museu que busca preservar e divulgar o patrimônio imaterial de Congonhas, simbolizado pelos antigos fazeres ligados à tentativa de representação do universo sagrado. A exposição Artechão, do artista Quim Cordeiro, durante a semana santa, por exemplo, é uma das atrações, assim como a mostra dos estandartes religiosos feitos pela população nas janelas históricas”, informa Reis.

A artista plástica Juliana Freitas, de 38, é uma das envolvidas no Ofícios da fé. É de sua autoria o tapete de serragem que está na entrada do Museu de Congonhas desde a semana passada e que vai permanecer até o domingo de Páscoa. Ainda menina, aos 3 anos, ela já se via desenhando e, ao longo do tempo, foi aperfeiçoando sua habilidade. “Esse gosto pela religiosidade surgiu justamente pela atmosfera em que a cidade está inserida. Já fiz alguns Divinos, tenho uma série de telas em óleo chamada Sete Cristos, e gosto bastante dos tapetes de serragem, que são bem típicos neste período do ano”, salienta.

Jair Amaral/EM/D.A Press
Bete Almeida Teixeira vende seus oratórios no Centro de Referência do Artesanato de Santa Luzia (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
A produção dos tapetes de serragem é bem detalhista e, dependendo do tamanho, sua feitura pode levar semanas. “Tem que fazer o molde, escolher o tamanho, separar os grãos bem fininhos da serragem, tingi-la e secar. Mesmo com essa ‘trabalheira’, dá um prazer enorme vê-lo pronto e constatar como as pessoas ficam emocionadas”, observa.
Uma das tradições mais fortes de Congonhas, principalmente da comunidade rural de Barnabé, é a santa cruz, objeto adornado de tecidos ou papéis coloridos com grande carga simbólica. Tradicionalmente, é colocada nas portas das casas todo dia 3 de maio para proteger contra mau-olhado.

Segundo a tradição, a origem da prática remonta aos tempos bíblicos. A lenda conta que a Sagrada Família, na fuga para o Egito, foi pernoitar em uma aldeia. Herodes, que queria matar o Menino Jesus por temer ser desafiado em seu reinado, estava disposto a matá-lo. Um morador local avisou ao rei que colocaria um ramo de giesta (tipo de arbusto) na casa onde a criança estava como sinal para os soldados. Na manhã seguinte, porém, os legionários se depararam com um raminho de giesta florida em todas as casas.

“Toda casa que tem esse arbusto simboliza a presença de Deus. Essa tradição se perpetuou, mas foi se modificando ao longo dos séculos. Os portugueses, por exemplo, a substituíram pela cruz feita de papel crepom, flores, fuxicos, algodão. Em 3 de maio, elas são benzidas e colocadas nas portas, onde permanecem durante um ano para proteger seus moradores”, explica a artesã Graça Reis, de 62.

Há quase uma década, ela desenvolve um projeto de confecção das cruzes em Barnabé e acredita que o empreendimento é uma maneira de estimular a economia criativa. “Temos pessoas supertalentosas e é um estímulo para elas. Agora, então, que alguns desses trabalhos da comunidade estão sendo expostos e vendidos no museu, os artistas estão mais empolgados. É uma forma de unir o útil ao agradável”, resume.


TERÇOS

No fim do ano passado, a Mitra Arquidiocesana de Belo Horizonte, instituição que representa o bispado como pessoa jurídica, desenvolve ação social com deficientes: oficinas de produção de artigos religiosos. Uma das coordenadoras do projeto, Wanessa Lima, afirma que a iniciativa promove a inclusão no mercado de trabalho e contribui para a capacitação e o aumento da renda. “No momento, cerca de 20 desses novos artesãos estão fabricando terços em Pedro Leopoldo que serão distribuídos em breve em várias paróquias da arquidiocese. Todos estão bem empolgados e se sentindo úteis também. A ideia é ampliar a oficina e eles começarem a fazer velas e até imagens”, revela Wanessa.

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