Museu Mineiro abre retrospectiva 'Acontecimentos', de Décio Noviello

Ele é um dos grandes artistas vivos de Minas e que, aos 86 anos, continua referência da arte contemporânea

por Walter Sebastião 02/03/2016 08:41

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Museu Mineiro/Divulgação
Presente na mostra, Dia de festa, de 2001, explora cores e estampas (foto: Museu Mineiro/Divulgação)
“Faço umas coisas que as pessoas dizem que é arte”, brinca Décio Noviello, de 86 anos, no momento em que abre retrospectiva no Museu Mineiro. Ele é referência quando o assunto é arte pop em Belo Horizonte. Estética que vale a ele, ao longo de mais de quatro décadas, participação em quatro bienais e, nos últimos anos, celebração da obra realizada. Uma performance dos anos 1970 faz parte atualmente da coleção do Centro de Arte Contemporânea Inhotim. O artista mostra desenhos e pinturas, pontuando todos os momentos da carreira, além de material que fez para decorar as ruas de Belo Horizonte durante o carnaval e figurinos para peças e escola de samba.

Noviello conta que, para a mostra do Museu Mineiro, escolheu com a filha Maria o que acha representativo da carreira. O material vem de acervo de família e abarca diversas séries. “E, por isso, é mostra que traz meu olhar pessoal sobre o que fiz”, acrescenta. Vai estar na mostra material inédito, dos primeiros tempos de artista. “É muito bom também você ter o seu trabalho reconhecido em vida, gratifica o ego”, afirma, feliz com a retrospectiva. As serigrafias, parte importante do trabalho, não vão ser mostradas, porque o artista vai apresentá-las em mostra no Espaço Cultural da Vallourec & Mannesmann.

Décio Noviello é autodidata. “Comecei desenhando em canto de caderno de escola, o que meu pai censurava, porque achava que eu tinha de estudar e não ficar desenhando”, recorda. Aos 20 anos, encantou-se com a pintura a óleo, tanto que uma tia lhe deu de presente uma caixa de tintas, “de boa qualidade”. Os primeiros trabalhos, segundo definição do artista, são obras acadêmicas, clássicas. “Queria ser o Edgar Walter, fazer retratos perfeitos como a Mona Lisa, mas não consegui”, explica. Vê, então, em salão da prefeitura, obras com linguagens pop. “E pensei: isso eu consigo fazer. E ganhei um prêmio com uma mulher verde entre sinais de trânsito, que está na exposição”, observa.

“Na verdade, fiz o que estava dentro de mim. E aconteceu de ser época em que a linguagem era de pinceladas coloridas. Simplifiquei o que estava por aí e disseram que eu era pop. Mas nem sabia o que era isso. Continuei com essa linguagem porque era o meu jeito, não por escolha”, conta Noviello. As gravuras nasceram, segundo o pintor, do fato de “que era moda” fazer gravura entre os artistas. “Todos faziam e eu também. Mas é arte difícil. Dá um trabalho insano, a técnica é complicada e não vale nada porque é sobre papel”, justifica, criticando preconceitos.

O mineiro foi um dos participantes da exposição Do corpo a terra, curadoria de Frederico Moraes, de 1970, concebida para a inauguração do Palácio das Artes e, atualmente, um marco histórico da vanguarda brasileira. “Sem saber o que fazer, em momento em que só se ouvia falar em vanguarda, abri granadas de sinalização coloridas no parque municipal. Não era bem protesto, mas mais uma intervenção na paisagem. Cansado de ver árvores verdes, as pessoas viram, de repente, uma vermelha”, narra. “Sou de temperamento atrevido. Em todos os momentos da arte, meti o bedelho. Só agora vejo que fiz trabalhos que marcaram época”, observa, contando que nada foi feito com essa intenção.

O artista, falando dos desenhos, explica que vão ser mostrados croquis dos trabalhos, sejam pinturas ou feitos para teatro. “Penso minhas obras”, afirma, contando que precisa de planejamento para realizá-las. As decorações de rua vêm a partir dos anos 1980, tempos em que a animação do carnaval de Belo Horizonte trouxe o interior para a capital e “o carnaval da cidade começou a palpitar”. Noviello aprova o crescimento da folia nos últimos anos. “Me deixa satisfeito. É festa espontânea que está em fase diferente. Antes se fazia decoração para chamar as pessoas, animar. Hoje, a animação vem dos foliões, dos meios de comunicação, da televisão, então, nem precisa de decoração”, analisa.

Noviello conta que o andamento da produção foi no sentido de ir “sintetizando, purificando, deixando de lado, cada vez mais, o desnecessário. Acho, inclusive, que tal caminho é natural em qualquer artista”. Está sempre fazendo “algum servicinho”, no momento algumas aquarelas. “É um prazer que não me recuso”, observa. “Quem quer fazer arte, deve procurar fazer com o coração. Se ficar acompanhando modismo não acontece nada. Arte é algo que vem do íntimo da pessoa, feito com sensibilidade e que consegue transmitir emoções pessoais. Se quem faz poesia usa as palavras, quem faz arte usa cores, formas”, defende Décio Noviello, avisando que se considera pintor mais do que artista.

Décio Noviello: Acontecimentos
Exposição com desenhos, pinturas e objetos. No Museu Mineiro, Av. João Pinheiro, 342, Funcionários, (31) 3269-1103. Terça, quarta e sexta-feira, das 10h às 19h; quinta, das 12 às 21h; sábado e domingo, das 12h às 19h. Até 3 de abril. Entrada franca.

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