'Pas de deux para 2 mulheres' explora o feminino sob olhar de Virginia Woolf

Obras da escritora britânica guiam peça que versa sobre fracasso, rotina e dependência pela ótica de personagens diametralmente opostas

por Bossuet Alvim 26/02/2016 06:00

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Valentina vive confinada na rotina detalhada de um só dia, enquanto Gilda existe desdobrando-se por séculos e mergulhada em diversas transformações – inclusive de gênero. O contraste entre as vidas das personagens é um dos guias de Pas de deux para 2 mulheres, mas o feminino é similaridade de ambas e condição inegável da peça.


Para quem dá vida a elas, as duas mulheres em cena representam um desafio ao público, à sociedade e ao patriarcado. “Agora eu volto para a cena mais segura, com mais clareza do papel deste espetáculo. O próprio nome é quase uma afronta. Duas mulheres num título? Quem elas pensam que são?”, reflete Andréia Gomes, que divide o palco com Luciana Veloso.

Vito Moreira e Gustavo Neves/Divulgação
''O teatro é como uma arapuca que criamos para nós mesmos'', diz Andréia Gomes, que vive Gilda (foto: Vito Moreira e Gustavo Neves/Divulgação)
Com texto e direção de Henrique Vertchenko, o espetáculo foi desenhado a partir de vivência das atrizes com o universo feminino em temas como fracasso, violência, dependência e rotina. Experiências pessoais com o machismo são tão inerentes ao texto quanto ao cotidiano das artistas.

 

“Um torcer de nariz para o título que anuncia duas mulheres, ou ouvir de um colega ator como única critica ao espetáculo um comentário sobre seus peitos, são situações que têm que mudar. Não se pode falar sério quando te desacreditam a priori”, relata Gomes.

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Luciana Veloso dá vida a Valentina, personagem inspirada em 'Mrs Dalloway' (1925) (foto: Vito Moreira e Gustavo Neves/Divulgação)
VIRGINIA A obra de Virginia Woolf (1882-1941) chegou em etapa posterior do desenvolvimento, para dar liga aos argumentos. “Podemos falar de uma mudança no empoderamento feminino recente, mas a Virginia se matou em 1941. Ainda hoje nos reconhecemos na voz dessa mulher”, observa a atriz. “O feminino é um trabalho para os séculos e, como o tempo é relativo, agora é a hora de fazer a evolução de séculos correr em meses”, acrescenta.


A peça se ergue sobre três textos da britânica, cada um com ritmo distinto na evolução do espetáculo. Em Orlando (1928), a escritora cria uma versão fictícia da amiga e amante Vita Sackville-West, que nasce como um jovem inglês e subitamente se descobre transformado em mulher. A jornada da personagem, descrita ao longo de 350 anos, inspirou a florista vivida por Andréia.


Mrs. Dalloway (1925), crônica de um dia na vida da anfitriã socialite do título, rendeu as bases da amargurada Valentina interpretada por Luciana Veloso. O elo é completo por Flush (1933), biografia ficcional de um cão que empresta seu olhar distanciado à contemplação das mazelas humanas. Na peça, as impressões do cachorro Théo formam ponte entre as mulheres.

Vito Moreira e Gustavo Neves/Divulgação
''Um torcer de nariz para o título que anuncia duas mulheres, ou ouvir de um colega ator como única critica ao espetáculo um comentário sobre seus peitos, são situações que têm que mudar'' (foto: Vito Moreira e Gustavo Neves/Divulgação)
PROCESSO CONSTANTE Desde a estreia, há dois anos, Pas de deux para 2 mulheres leva sempre a mesma dupla de artistas ao palco. Com o tempo, a soma de performances passionais ao texto denso renderam transformações pessoais nas intérpretes.

 

“Às vezes, pensamos que estamos evoluindo, mas estamos apenas adquirindo novos vícios, caindo em novos lugares fáceis. Você encontra um jeito bonito de dizer uma coisa, um jeito que assenta bem no ouvido do público e até comove, mas que é falso, raso e distante da realidade. A minha tara sempre será com a realidade”, assume Andréia Gomes.

 

A peça também se torna um desafio para a equipe, prestes a embarcar na terceira temporada, porque abandona a fase da criação coletiva e chega à etapa de reimaginar-se ao vivo, em frente à audiência, todas as noites. “Na temporada, o espetáculo já existe, não como uma coisa fechada, pronta, mas como um organismo vivo. Um organismo vivo e complexo, um bichão que não se pode domar”, diz a atriz. “E o que pode o ator? Servir. Agir dentro disso. O teatro é como uma arapuca que criamos para nós mesmos”, completa.

Pas de deux para 2 mulheres

Temporada na Campanha de Popularização. De sexta-feira, 26 devereiro, até 6 de março, de quinta a domingo, sempre às 20h. Funarte (Rua Januária, 68 - Floresta). Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia) na bilheteria e a R$ 10 nos postos Sinparc. Informações: (31) 3272-7487. Classificação: 16 anos.



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