Grupos de teatro de bonecos apostam na criação de seus próprios espaços

Com sedes próprias as companhias esperam ganhar maior autonomia financeira, ampliar o número de espectadores e abrir ateliês ao público

por Walter Sebastião 16/02/2016 08:39

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Alexandre Guzanshe E.M/D.APress
Beatriz Apocalypse diz realizar o sonho do pai, Álvaro, com a inauguração do Teatro Giramundo, no sábado, com a remontagem de Um baú de fundo fundo, de 1975 (foto: Alexandre Guzanshe E.M/D.APress)
Quem começa a abrir a casa para receber o público é o pessoal do teatro de bonecos – ou de formas animadas, como querem os contemporâneos. Aos poucos, grupos e artistas vão criando pequenos teatros junto de ateliês e oficinas, dedicados a revelar toda a magia dessa arte milenar. Eles não exibem apenas montagens, mas exposições de bonecos. Promovem também seminários e cursos de formação. Ainda são poucos os endereços voltados para esses projetos. Mas a turma avisa: eles vão se multiplicar, até porque o sonho, cultivado com carinho, é viver de bilheteria, sem depender das leis de incentivo. O objetivo é tornar público que Belo Horizonte é uma referência nacional no setor.

Em 1987, Álvaro Apocalypse (1937-2003), criador do Giramundo, comprou um terreno para dar vazão à ideia de criar um museu para o acervo do grupo integrado a um pequeno teatro. Em 2001, o museu ficou pronto, mas o teatrinho de 50 lugares, no Bairro Floresta, vai ser inaugurado sábado, com a exibição de Um baú de fundo fundo (1975). A remontagem do primeiro espetáculo da companhia ficará em cartaz seis fins de semana. A programação, que prossegue até o fim do ano, inclui preciosidades. A próxima atração, prevista para abril, é A bela adormecida (1976), trabalho que consagrou nacionalmente o grupo mineiro.

“Abrir o teatro é realização de um sonho”, afirma Beatriz Apocalypse, diretora artística do Giramundo. Ela explica que a demora para concretizar o projeto se deveu à falta de patrocínio, problema agora resolvido. No local, vai ser possível ver exposições e montagens que mostram os primeiros tempos do grupo. As novidades também incluem bonecos restaurados e nova equipe de manipuladores. “Queremos compartilhar uma história que já tem mais de 40 anos de existência”, avisa, acrescentando que, dessa forma toda essa bagagem “fica mais protegida no palco, viva”. “Bonecos, na estante, não ficam à vontade”, conta, explicando que as articulações ressecam, cabelos amassam etc. O espaço tem projeto do arquiteto Flávio Carsalade e, até 2020, ganha melhorias.

 

Quem também recebe o público em casa, em um teatrinho no Bairro Caiçara, nesta sexta-feira (19/02) e sábado (20/02), é a Companhia Catibrum. Eles vão mostrar Três rosas, encenação de três contos de Guimarães Rosa, com 10 minutos. Cada sessão é assistida por apenas duas pessoas, através de abertura em caixa de madeira. O grupo foi criado em 1991 e o teatro, para 60 pessoas, em dezembro de 2015. O espaço não vai ser dedicado exclusivamente a “teatro de formas animadas” e prevê programação com grupos convidados: em junho, chegam os goianos da Cia. Teatro Nu Escuro, com o espetáculo Pitoresca.

Ramon Lisboa / E.M/D.APress
Lelo Silva e Adriana Focas, da Companhia Catibrum, apresentam espetáculo nesta sexta (19) e sábado (20) (foto: Ramon Lisboa / E.M/D.APress)


“Nosso teatro foi feito na raça, sem patrocínio. Nós mesmos cuidamos de cada detalhe, o que nos dá muito orgulho”, comemora Lelo Silva, diretor do grupo. A proposta é ser centro de convivência voltado para estímulo da inovação. Para o diretor, o crescimento de locais que marcam uma presença pública de arte milenar é boa notícia. “Conquistamos público, mas ainda é preciso ampliá-lo”, defende. E para tanto, observa, está posto um desafio: aumentar a produção de espetáculos, ainda pequena. O que, acredita, pode ser anemizado com intercâmbio. “Teatro de bonecos é um setor das artes cênicas forte, antigo e em expansão. E não só para crianças”, recorda.

O grupo Família Silva de Bonecos, de Belo Horizonte, participa em junho de congresso da Union Internationale de la Marionnette (Unima), com sede na França, compartilhando pesquisa voltada tanto para a formação quanto para trabalho com crianças especiais. “Se não tivéssemos o Teatro Origens, talvez isso não ocorresse”, observa Roberto Silva, o diretor do grupo. Ele se refere ao fato de que foi a criação da sede que possibilitou aprofundar a empreitada, indo além dos limites de atuação nas escolas ou no caminhão-teatro deles. “O fomento à cultura do boneco tem de ser ação contínua, não pode ficar dependente de aprovação em leis de incentivo”, explica, sonhando, como todos, em viver da bilheteria das produções.

“Sensibiliza e tem muito impacto sobre o espectador ver algo a princípio inanimado que, a partir de intervenção do bonequeiro, ganha vida”, observa Silva. O bonequeiro defende que o fato de as casas estarem em regiões distintas de em Belo Horizonte, elas têm potencial de promover uma real descentralização das atividades culturais. Até porque, além de bonecos, vários endereços se tornam centros de convivência e pesquisa artística.

Renata Franca / Divulgação
Nado Rohrmann e Renata Franca mantêm espaço em Tiradentes (foto: Renata Franca / Divulgação)


INTERIOR “Estamos viajando menos e vivendo de bilheteria”, comemora Nado Rohrmann, que, junto com Renata Franca, integra a Cia. de Inventos, radicada há 25 anos em Tiradentes (MG). “É bom viajar levando espetáculos, mas também é bom as pessoas viajarem para nos visitar”, brinca. No final de 2015, decidiram trocar o salão de café de pousada, onde apresentavam seus espetáculos, pela criação da Casa de Bonecos. Um teatro de 60 lugares na Rua Direita, Centro Histórico de Tiradentes, que toda sexta e sábado, às 19h, apresenta uma peça. “Lugar bonito, com conforto, bonecos expostos, programação, mexe com o sonho das pessoas”, observa o diretor, contando que o local tem atraído muita gente.

“A sala fixa deu visibilidade ao nosso trabalho da Cia. de Inventos e fez o público crescer. O trabalho triplicou, mas é isso mesmo que a gente quer”, avisa Nado. “E estamos contribuindo para difusão e consolidação de manifestação artística que tem história em Minas Gerais”, recorda, lembrando-se de ação pioneira de Álvaro Apocalypse. Nado comemora poder trabalhar em casa, sem a pressão do monta e desmonta cenários. “Boneco está sempre com vontade de entrar em cena. O que não gosta é de ficar num canto com fio arrebentado ou quebrado”, garante.

Belo Horizonte:
• Museu Giramundo (Rua Varginha, 245,
Floresta, (31) 3446-0686);
• Teatro de Bonecos Origens (Rua Triunfo, 200,
Miramar, (31) 3381-1145);
• Espaço Catibrum (Rua Francisco Bicalho, 1.912, Caiçara, (31) 3411-2103).

Poços de Caldas:
• Casa de Boneco (Rua Assis Figueiredo, 1.292,
Centro, (35) 9969-7222 ou 3064.0027).

Tiradentes:
• Cia de Inventos (Rua Direita, 288, Centro,
(32) 3355-1337).

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