Dirceu Maués mistura práticas artesanais com novas tecnologias

Paraense radicado em BH conquistou bolsa que vai ajudar a expandir as fronteiras

por Walter Sebastião 13/02/2016 08:00

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Dirceu Maués/Divulgação
(foto: Dirceu Maués/Divulgação)

Uma bolsa para desenvolvimento de projetos, concedida pelo Prêmio Brasil de Fotografia, revelou o paraense que vive e trabalha em Belo Horizonte desde 2014: Dirceu Maués, de 47 anos. Ele começou a fotografar em 1990 e, de 1997 até 2004 , atuou em jornal. Em seguida, troca atividades de repórter por curso de artes visuais, em Brasília, formando-se em 2012. O mestrado, concluído em 2015, levou o título de Caixas de ver – (des)construção do dispositivo: construção da paisagem. Cruzando esse percurso estiveram criações com máquinas artesanais e intervenções urbanas com câmaras escuras, cuja singularidade valeu atenção de importantes programas de arte nacionais, como Rumos Visuais, Vídeo Brasil e, por três vezes, Funarte.

 

O projeto premiado chama-se (In)certa paisagem – imaginários de luz e prata. É dedicado ao que Dirceu Maués chama de pinturas químicas: trabalhos criados com líquidos químicos aplicados com pincéis direto sobre papel fotográfico. “São paisagens, momentos em que você para, olha para o que tem ao seu redor e vê o mundo”, conta, valorizando o que existe de divagação nessas imagens, que rompem com a opacidade do cotidiano. O artista pretende dar continuidade a esses trabalhos, desenvolvendo formatos maiores. “Bolsa dá tranquilidade para pensar, realizar e experimentar mais”, observa. O prêmio, além de R$ 20 mil, prevê acompanhamento do fotógrafo e professor Ronaldo Entler.

QUESTIONAMENTO Os trabalhos, como explica Maués, são diálogo entre pintura, desenho e a fotografia. Ao levantar dúvidas sobre o que é, de fato, a imagem, interpela as visões convencionais da fotografia. “Discuto a ideia generalizada que coloca o aparato, a tecnologia, na frente da poética. Meu trabalho é contraponto a essa argumentação”, explica. Para ele, tal entendimento cria um problema que vem aprisionando a fotografia. Para acentuar tal mirada, ele tem se valido, por exemplo, do uso de câmaras artesanais para criar panoramas. Neles, ruídos e irregularidades tensionam sonhos de precisão absoluta e representação exata que muitas vezes rege a fotografia.


Daniel Maués vê com simpatia a valorização, entre os mais jovens, de técnicas artesanais ou analógicas em tempos de oferta irrestrita do digital. “É vontade de pensar a fotografia. Não que o digital não o faça, mas o analógico induz a pensar o processo fotográfico inteiro e mais conceitualmente”, observa. “Uma nova tecnologia não substitui as anteriores. Elas se somam. São mais ferramentas que você tem para dar maior potência ao que é a sua poética”, argumenta. Seus grandes panoramas urbanos, por exemplo, foram realizados com máquinas artesanais, mas com a ajuda de scanners e outras ferramentas digitais.

INSTANTE Falando dos artistas que admira, Daniel Maués vai logo avisando que, desde os tempos de estudante, não é de “ajoelhar e rezar” para ninguém. “Hoje, existem muitos artistas de qualidade e não só na área de fotografia que influenciam o trabalho de alguma forma”, pondera. Destaca o filósofo Vilém Flusser, cujo livro A filosofia da caixa-preta foi importante para ele. Gosta do trabalho do alemão Michael Wesely, cujas imagens são resultado de longuíssima exposição (algumas delas, por meses). Para Maués, o trabalho de Wesely abre “outro tempo na fotografia que não o do instante decisivo”, revelando aspectos invisíveis ao olho, assim como os tempos brevíssimos.


“Como todo mundo, quando comecei a fotografar queria ser Cartier-Bresson”, brinca Daniel Maués, com declarada admiração pelo criador do conceito instante decisivo. “O grande jogo que o instante decisivo traz para a fotografia é colocá-lo numa situação de espera do momento em que o universo entra em ressonância com você. E isso ocorre”, analisa. Com relação à fotografia brasileira, considera que há produção boa e extensa, que abarca desde pioneiros até contemporâneos, além de grande diversidade de abordagem. Vê com interesse trabalhos que valorizam interação do fotógrafo com o contexto ou personagens, como o de Alexandre Serqueira, ou reflexões sobre a imagem e a memória, como Alice Micelli.

 

NOVOS OLHARES

Prêmio Brasil de Fotografia é o nome, adotado a partir de 2012, pelo Prêmio Porto Seguro Fotografia, criado em 2000, e considerado um dos mais importantes certames da área no Brasil. A proposta é apresentar a produção fotográfica autoral brasileira, valorizando jovens artistas nacionais preocupados com a pesquisa de linguagem.
Os vencedores da edição de 2015 foram anunciados em 5 de fevereiro. São eles: Evandro Teixeira, homenageado com o Prêmio Brasil Fotografia Especial; Luiz Baltar na categoria ensaio impresso, e Marlos Bakker na categoria ensaio multimeios. Foram concedidas seis menções honrosas: Thelma Vilas Boas, Ricardo de Abreu Neves, Bárbara Wagner, Diego Lajst, Edu Simões e Ligia Jardim. E duas bolsas para desenvolvimento de projetos: Leo Caobelli (RS) e Dirceu Maués (MG). O prêmio Revelação foi para a paulista Letícia Ranzani. O evento recebeu 796 propostas e a comissão de seleção foi formada por Ana Maria Belluzzo, Cildo Oliveira, Cristiano Mascaro, Lucia Py e Ronaldo Entler.

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