Congadeira, benzedeira e capoeirista mineiros recebem título de mestres da cultura popular

Reconhecimento celebra a manutenção de conhecimentos para novas gerações

por Ana Clara Brant 25/01/2016 08:30

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Fotos: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Dona Zilda, capitã da Guarda de Congo Feminina de Nossa Senhora do Rosário, do Bairro Aparecida (foto: Fotos: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Mestre é aquele que ensina; que é perito ou versado numa ciência ou arte, homem de saber e que serve de guia ou guru. No caso da cultura popular tradicional, passada de geração em geração sem formalidades acadêmicas, o mestre é a figura que transmite seu conhecimento a outra pessoa e esta começa a colocar em prática seus ensinamentos, e assim por diante. Dona Zilda Pereira Lisboa, de 64 anos, a Tia Zilda, fundadora e 1ª capitã da Guarda de Congo Feminina de Nossa Senhora do Rosário do Bairro Aparecida. Serafina Terezinha Pereira, de 77, a dona Fininha, benzedeira do Novo Glória. E Antônio Maria Cavalieri, o Mestre Cavalieri, também de 77 anos, uma lenda da capoeira na cidade e morador do Sagrada Família, são alguns exemplos desses patrimônios vivos que mantêm acesas essas manifestações. Os três foram os agraciados da segunda edição do Prêmio Mestres da Cultura Popular, promovido pela Fundação Municipal de Cultura, entregue em cerimônia no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Além da valorização e do reconhecimento de suas tradições (congado, benzeção e capoeira), cada um deles – indicado por suas comunidades – recebeu R$ 15 mil e certificado alusivo ao título de mestre da cultura popular de Belo Horizonte.

 

 


Desde menina, dona Zilda Pereira, nascida e criada na capital mineira, se encantava pelas cores, sons e, sobretudo, pela fé da Guarda de Congo de Nossa Senhora do Rosário, criada pelos avós há mais de sete décadas. Como a presença das mulheres não era bem-vista no início da década de 1970, ela acabou ajudando a fundar a versão feminina dessa expressão cultural e religiosa. “Acho que lá de casa, fui a que mais herdou esse gosto pelo congado, pelas festas religiosas. Eu era bem pequenina e já gostava de tocar tambor e carregar o estandarte. É um legado de que tenho muito orgulho”, destaca dona Zilda. A 1ª capitã, cargo que ocupa desde a criação da guarda, tem a missão de comandar e organizar os festejos e demais eventos.

Há outros títulos como as rainhas perpétua, a de Nossa Senhora do Rosário, a rainha e o rei congo, por exemplo, cada um com missão específica. “Não é fácil levar adiante uma tradição que não tem mais tanta adesão entre os jovens e não é tão valorizada como antigamente. Até para se manter financeiramente é complicado. A gente vive de doações de amigos, fazemos eventos beneficentes. Mas, apesar dos pesares, tenho uma alegria enorme em divulgar essa manifestação cultural tão rica e essa fé que meus pais e avós me ensinaram. E espero que essa raiz se perpetue”, anseia.

A sede da Guarda Feminina funciona na casa onde dona Zilda Pereira viveu dos 3 aos 20 anos, quando se casou pela primeira vez. O local fica enfeitado o ano todo, sendo que espaço que mais chama a atenção é a capelinha de Nossa Senhora do Rosário, que, inclusive, foi abençoada pelo cardeal e arcebispo emérito de BH, dom Serafim Fernandes de Araújo. O auge das comemorações ocorre em outubro, quando, durante três dias, se celebra a santa que norteia e dá nome ao grupo. “Mas, ao longo do ano, a gente é convidado pras festas de outros santos e levamos nossa crença e nossa alegria”, ressalta.

 Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
A benzedeira Dona Fininha acredita que recebeu um chamado de Deus e de Nossa Senhora (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
VOCAÇÃO


A fé também guia Serafina Terezinha Pereira, a sempre otimista dona Fininha, benzedeira que descobriu seu dom quando era adolescente e ainda morava em São João Evangelista, no Vale do Rio Doce, onde nasceu. A prima também benzia e percebeu essa vocação em dona Fininha, que, no início, relutou bastante. “Não entendia o que era, tinha medo. Até minha família não gostava. Foi só quando meu irmão quebrou a perna e eu, com minhas rezas, o ajudei a se recuperar que minha mãe passou a gostar. Benzeção é uma coisa que a gente tem e não sabe explicar”, diz. A mestra se mudou para a capital quando tinha 16 anos. Veio para o casamento de uma das irmãs, gostou da cidade e por aqui ficou. “Era muito diferente do interior. Mas eu precisava ajudar meus pais, que ficaram lá. Trabalhei em casa de família, ajudei a tomar conta de menino. Foi muito bom eu ter mudado pra cá. De São João, só sinto falta do santo”, brinca.

No Novo Glória, Região Noroeste da capital, fixou moradia e criou sua família “sem dinheiro, mas com muita luta”, como gosta de frisar. No quintal da casa onde ainda vive e teve seis filhos – entre eles, o músico Sérgio Pererê, um dos fundadores da Associação Cultural Tambolelê, de percussão –, dona Fininha planta algumas das ervas que ajudam na benzeção, como manjericão, arruda e rabo de foguete. “Cada pessoa tem um tipo de benzeção e um tipo de ramo sagrado. E o povo vem aqui pra proteger e afastar o mal e também pra se curar, tratar. Já curei muita gente. Mas a pessoa tem que acreditar. É uma coisa muito séria, mas isso não significa que tenha que deixar de ir no médico”, aconselha.

 

 

 

Entre os seus abençoados, gente comum, como os vizinhos que variam de crianças a idosos, até famosos como o diretor Luiz Fernando Carvalho e a atriz Inês Peixoto. Os artistas descobriram esse talento de dona Fininha quando ela foi uma das convidadas a atuar no seriado global Subúrbia (2012), em que interpretou a mãe da protagonista, papel da mineira de Contagem Erika Januza. “Fui na Globo, lá no Rio, e foi tudo um sonho. Até benzi os lugares onde a gente gravou. A Inês Peixoto, que me ajudou na preparação, foi um amor comigo e até o diretor Luiz Fernando, que era meio brabo (risos) e exigente, eu benzi”, relembra.

Devota de Nossa Senhora do Rosário, assim como sua colega de prêmio, Zilda Pereira Lisboa, dona Serafina acredita que se tornou benzedeira pela vontade de sua “santinha” e de Deus e agradece diariamente tudo que ocorreu com ela ao longo dos seus 77 anos de vida. “Deus dá o que a gente merece. Benzer é um chamado e, se ele me escolheu, é porque achou que eu tinha capacidade pra isso. Sabe que, de vez em quando, eu mesmo me benzo? Na hora que a coisa aperta, até xingo: ‘Tá amarrado em nome de Jesus’”, comenta, rindo.

 Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Omestre de capoeira Cavalieri é considerado um dos pioneiros no ensino da manifestação brasileira (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
APERFEIÇOAMENTO


Um dos precursores da capoeira em Minas, o investigador de polícia aposentado Antônio Maria Cavalieri deu, literalmente, os primeiros passos nessa arte genuinamente brasileira quando ainda residia em sua cidade, Juiz de Fora, na Zona da Mata. O trabalho do pai ficava próximo à região de meretrício. Vira e mexe, ele ficava observando os malandros, com seus ternos brancos, camisas engomadas e lencinhos, darem seus golpes para proteger aquelas damas que ninguém respeitava. “Era a pernada carioca, nem se chamava capoeira ainda. Tinha uns 10 anos e ficava encantado”, recorda. Certa vez, Cavalieri tomou uma surra da meninada na rua. Quando um dos empregados do pai, que era praticante dessa arte, o viu, deu-lhe um recado que ele nunca mais esqueceu: “Você nunca mais vai apanhar na vida. Vou te ensinar uma maneira de se proteger”. E aquilo se concretizou.

 

 

 

Antônio tornou-se o Mestre Cavalieri. Ao longo dos anos, sua relação com a capoeira foi se aperfeiçoando. Aprendeu com várias pessoas em Juiz de Fora, mas também no Rio de Janeiro. Há quase 50 anos, após passar em concurso da Polícia Civil, o capoeirista se mudou para a capital mineira, onde trabalhou no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Como já estava casado e formando família, precisava ter mais opções para se sustentar. Foi então que teve a ideia de colocar um anúncio no jornal para dar curso de capoeira, algo que nem existia na cidade. “O primeiro que viu sobre o curso foi um dos fundadores da Banda Mole, o Luiz Mário Jacaré. E aí foi aparecendo tudo que é tipo de gente. Tinha estudante, advogado. Só que eles começaram a praticar o que aprendiam comigo na rua e me deram um trabalho danado. Até polícia chegou a aparecer certa vez. Aí, tive que acudir”, lembra Cavalieri às gargalhadas.

No decorrer do tempo, o mestre foi formando vários seguidores pela capital e pelo interior. Ele revela que, nos seus áureos tempos, chegou a cansar 16 de uma só vez. “Na verdade, quem espalhou a capoeira pela cidade foram meus alunos. Eu só plantei, mas me considero o mestre de capoeira mais antigo de Minas Gerais”, garante. Cavalieri não dá mais aulas, porém, é frequentemente convidado para eventos no Brasil e no exterior e enche a boca para falar do orgulho de ter se tornado um exímio capoeirista. “Depois do meu pai e da minha mãe, a capoeira me deu tudo na vida. Saúde, porque eu tinha uma bronquite grave e melhorou demais; um preparo físico ótimo até hoje, mesmo com quase 80 anos; deu-me personalidade e me transformou numa pessoa mais pró-ativa”, resume.

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