Contato com tecnologias 'retrô' produz experiência emotiva

Câmeras fotográficas analógicas e tocadores de vinil transportam usuários a épocas passadas

por Correio Braziliense 17/01/2016 11:23

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Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press
Severino Santos tem uma relação especial com o vinil: ''É como sentar para ler um livro com calma. Você desacelera e escuta um álbum na vitrola'' (foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Na opinião do produtor de discos Severino Santos, o som do vinil não é melhor do que o de um arquivo digital. Mas o bolachão oferece algo especial: “É o fato de ser analógico, de ter o chiadinho”, enfatiza Santos, que vê no formato a possibilidade de experimentar a música de outra maneira. “É como sentar para ler um livro com calma. Você desacelera e escuta um álbum na vitrola.” A arquiteta e fotógrafa Isabela Gomes tem uma relação semelhante com o analógico na hora de capturar imagens. “Quando você tem o número limitado de 36 fotos (número de exposições possíveis em um rolo de filme fotográfico), acaba valorizando isso de um jeito incrível. Você para, pensa no que está fotografando, fotometra e, por fim, clica.”

Em meio à produção cada vez mais acelerada e sedutora de produtos digitais, compactos e com as mais diversas funções, Santos e Isabela compartilham o gosto por tecnologias de outras eras. Sejam toca-discos ou máquinas fotográficas, o que esses equipamentos proporcionam é a experiência de uma época passada, que, muitas vezes, nem chegou a ser vivida pelos atuais apreciadores desses objetos. Trata-se, portanto, de uma relação emotiva com os aparelhos. “Existe uma área chamada design emoção, que usa o simbólico, o resgate de um produto que nossos avós usavam e que está intimamente ligado ao emocional”, analisa a coordenadora do curso de design da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Gabriela Zubaran de Azevedo Pizzato. “É o prazer em usar um produto que lembre ou remeta ao passado. O diferencial retrô puxa isso, ele dá esse prazer”, completa.

Enquanto puxa da estante discos compactos da sua infância, como um azul com a trilha sonora do primeiro filme de Branca de Neve, da década de 1950, Severino Santos, 40 anos, fica saudoso: “Escutava na vitrola da casa da minha avó e, às vezes, corria assustado, com medo da história”, conta. Mesmo com as coleções herdadas, o produtor buscou aumentar o acervo para descobrir artistas mais antigos. “Na transição para o CD, nem todos eram lançados. Era caro. Tinha muita coisa para conhecer e que só estava no vinil”, diz Santos, que não descarta escutar álbuns pela internet quando está entre os amigos. O produtor, no entanto, admite: “Os meus preferidos, coloco na vitrola”.

A e B Os bolachões de resina plástica — chamada de policloreto de vinila, ou PVC — foram febre de meados da década de 1970 à de 1980, acompanhados pelos toca-discos. As músicas são gravadas nas bolachas por meio de uma prensa contendo um disco de metal, no qual as faixas de música foram riscadas por impulsos elétricos e se encontram em alto-relevo. Essas faixas criam ranhuras no vinil que, por sua vez, geram na agulha uma vibração que é amplificada nas caixas de som. Também conhecidos por long-plays (LPs), por terem maior tempo de reprodução de áudio do que os discos menores, são gravados dos dois lados, dividindo o álbum em A e B.

A chegada do CD, nos anos 1990, parecia condenar o vinil ao esquecimento. O formato digital prometia mais tempo de música ininterrupta, menos chiados e nenhuma preocupação com a qualidade da agulha, que podia quebrar ou danificar o disco (hoje, o preço de uma varia de R$ 100 a R$ 500). O vinil, porém, nunca deixou de ter seus admiradores, e, a partir dos anos 2000, voltou a ser bastante procurado pelos apreciadores de música. Primeiro, os fãs foram atrás das coleções antigas, vendidas em sebos, mas logo o mercado percebeu o interesse e se mexeu. Hoje, não há um artista grande que não lance os novos trabalhos no formato.

Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press
Isabela Gomes descobriu a fotografia analógica aos 16 anos: ''Você nunca sabe muito bem o que pode sair dali'' (foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Sem imediatismo
Saindo do mundo dos sons e entrando no das imagens, as máquinas fotográficas analógicas também parecem resistir. O que cativou Isabela Gomes, de 25 anos, nesses equipamentos foi a expectativa para descobrir o que seria revelado no filme plástico, embebido numa emulsão de sais de prata sensíveis à luz. “É outro tempo de fotografia. Você nunca sabe muito bem o que pode sair dali. Depende de muitos fatores: a câmera que você usa, o filme, a lente. São coisas que cortam o imediatismo que nós temos com tudo na vida”, avalia.

Aos 16 anos, ela começou a experimentar o universo das antigas máquinas com uma Lomo, câmera analógica de baixo custo que virou febre após ser relançada em 2010. A paixão pelos instantâneos fez Isabela trancar a graduação em arquitetura e urbanismo na Universidade de Brasília (UnB) e se transferir para o Rio de Janeiro, onde aprimorou a técnica atrás das lentes. “No Rio, fiz um curso de fotografia no Senac e trabalhei com a digital e a analógica. Eles tinham um laboratório incrível, eu passava a maior parte do meu tempo ali, revelando. Lá, tinha também a única loja da Lomo no Brasil até então, que era em Ipanema. Eu ia direto lá, pois eles faziam muitos workshops”, conta.

Em Brasília, Isabela ajudou a criar o grupo Lomo-Rolê, iniciativa que juntava pessoas para fotografar a cidade com câmeras que eram emprestadas a quem se interessasse por fotografia analógica. “Lomo é muito isso: de você estar em grupo, trocar experiências, experimentar”, diz a fotógrafa, que participou do projeto por três anos. Para quem se interessou por esse olhar das antigas, a lomógrafa, como são chamados os fãs da marca, dá alguns conselhos: “Uma dica para quem está começando é: pegue uma câmera simples, como a Lomo. Ela é muito fácil de entender e de se habituar. Fotografia é exercício, é necessário que você pratique. É bom também que você leia bastante para entender os ISOs das câmeras, como cada luz se comporta com cada filme.”


Teclados antigos ainda resistem

Ter o diploma de datilografia era um diferencial no currículo até a década de 1990. Nas repartições, escritórios e redações dos jornais, o teque-teque das máquinas de escrever prevalecia como som ambiente. Todos os documentos, cartas e relatórios passavam pela geringonça, que imprimia instantaneamente qualquer mensagem necessária.

Com a chegada do computador, o equipamento caiu em desuso, mas recentemente tem sido resgatado por jovens de grandes cidades mundo afora. Mais uma tendência lançada pelo movimento hipster — formado por pessoas que apostam em um jeito irônico de se comportar, resgatando objetos e modas antigas e os incorporando em seu cotidiano —, a máquina de escrever voltou a ser vista em cafés de metrópoles como Nova York e São Paulo, sendo usada por jovens escritores.

Para quem não quer chegar a tanto, mas sente saudade ou gostaria de experimentar a sensação de usar máquinas de escrever, um acessório moderno dá uma força. O Qwertywriter se conecta sem fio, via bluetooth, com iPhones, iPads, iMacs, Macpros, Macbooks e tablets Android e Windows e fornece o gostinho de “bater” textos em uma peça que reproduz os antigos teclados. Se você se interessou pela experiência e quer adquirir o invento, terá que desembolsar R$ 1,4 mil.



PALAVRA DE ESPECIALISTA
Gabriela Zubaran de Azevedo Pizzato,
coordenadora do curso de design da UFRGS

Forma de comunicação
“Nós chegamos a um aperfeiçoamento tecnológico muito grande e geral. Hoje, todos os produtos são tecnologicamente muito avançados, muito eficientes, funcionam todos muito bem. Cada vez mais, os celulares são melhores, os carros são melhores. Então, para competir no mercado e encontrar um nicho, as marcas começam a resgatar a função simbólica do produto, que é diferente de para o que ele serve. A função estética e simbólica serve para a pessoa comunicar algo com aquele produto. É como nos carros. Ninguém compra um veículo só pela questão funcional, pois grande parte dos carros é de excelente qualidade. As pessoas adquirem um pela marca, para poder se diferenciar de outras pessoas. Ter um aparelho toca-discos de vinil comunica às demais pessoas que eu tenho uma boa exigência em relação à música, por exemplo. Eu posso ter uma máquina que remeta ao antigo, mas que tenha toda a tecnologia atual, apenas pelo gosto estético. As empresas buscam isso para diferenciar os produtos no mercado.”

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