Livro traz entrevista do papa Francisco concedida ao vaticanista Andrea Tornielli

Pontífice explica o sentido do Ano da Miséricórdia, iniciado em 8 de dezembro de 2015

por Pablo Pires Fernandes 10/01/2016 06:00

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TIZIANA FABI/afp
(foto: TIZIANA FABI/afp)
A Praça de São Pedro, no Vaticano, estava lotada em 13 de março de 2013, quando, às 19h05 (15h05 em Brasília), a fumaça branca saiu pela chaminé da Capela Sistina anunciando que um novo papa havia sido eleito pelo colégio de 115 cardeais.  O anúncio que se seguiu levou a multidão ao êxtase: não apenas o 266º papa era um latino-americano, mas era o primeiro a adotar o nome de Francisco e o primeiro jesuíta. Desde aquele dia, o argentino Jorge Mario Bergoglio tem feito história na condução da Igreja Católica.


Com quase dois anos de pontificado, o papa Francisco vem mostrando carisma e ideias progressistas que têm reconquistado a admiração de fiéis em todo o mundo. O nome de Deus é Misericórdia, livro que está sendo lançado na terça-feira simultaneamente em 86 países, é mais uma oportunidade de conhecer o que pensa o líder de 1,2 bilhão de católicos. Trata-se de uma longa entrevista concedida ao vaticanista Andrea Tornielli, jornalista do diário La Stampa e responsável pelo site Vatican Insider.

No texto, o papa explica por que decretou o Ano da Misericórdia – de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016. “A Igreja não está no mundo para condenar, mas para promover o encontro com aquele amor visceral que é a misericórdia de Deus. Para que isso aconteça, é necessário sair. Sair das igrejas e das paróquias, sair e ir à procura das pessoas onde elas se encontram, onde sofrem, onde esperam.”

Desde o início de sua vida dedicada à Igreja, Jorge Bergoglio se voltou aos mais pobres e, aos 36 anos, tornou-se líder da ordem jesuíta argentina. Durante o período em que foi arcebispo de Buenos Aires, andava de ônibus, se dedicava a reuniões com os fiéis e fazia constantes visitas aos bairros mais miseráveis da capital e arredores. Seu papel como líder da Igreja na Argentina durante a ditadura militar é ambíguo, com detratores o denunciando como cúmplice de militares, mas defensores afirmam que, na verdade, ele tentou proteger dois jesuítas que, posteriormente, foram mortos pelo regime dos generais.

Jesuíta, com fortes raízes franciscanas e envolvido com temas políticos e sociais, o pontífice tem buscado renovar a Santa Sé e melhorar a imagem da instituição, maculada pelos escândalos de pedofilia e pelas fraudes do Banco do Vaticano. A postura espontânea e franca de Francisco, no entanto, tem incomodado setores mais conservadores da Igreja. O papa argentino trocou a cúpula do Banco do Vaticano e vem tentando implementar maior transparência na gestão da instituição. Criticou a vaidade e o oportunismo dentro da Cúria Romana e tem pregado que a Igreja desempenhe um papel mais presente na sociedade a partir do contato direto entre sacerdotes e fiéis.

Forte crítico do sistema consumista da sociedade contemporânea, escreveu a encíclica Laudato si, sobre o meio ambiente, e sempre discursa contra a obsessão pelo lucro e a falta de cuidado com a natureza, reafirmando o princípio franciscano de “amor aos seres criados por Deus”. Por ocasião do Natal, dia em que é celebrado o nascimento de Jesus, Francisco resumiu em uma frase boa parte de seu pensamento: “Em uma sociedade frequentemente embriagada pelo consumo e os prazeres, de abundância e luxo, de aparência e narcisismo, esta criança nos chama a ter um comportamento sóbrio, simples, equilibrado, linear, capaz de entender e viver o que é realmente importante”.

O lançamento de O nome de Deus é Misericórdia traz, mais uma vez, as palavras de Francisco a respeito dos princípios do catolicismo, que é a misericórdia, a compaixão e o amor ao próximo, buscando maior aproximação aos ensinamentos de Jesus Cristo.

 

Leia, abaixo, um trecho exclusivo do novo livro:

O papa é um homem que precisa da misericórdia de Deus. Falei isso sinceramente, inclusive perante os prisioneiros de Palmasola, na Bolívia, perante aqueles homens e aquelas mulheres que me receberam com tanto afeto.

Relembrei-os de que também São Pedro e São Paulo estiveram presos. Tenho um especial carinho pelos que vivem na prisão, privados da liberdade. Fiquei muito ligado a eles, por esta consciência do meu ser pecador. De cada vez que entro numa prisão para celebrar uma missa ou para uma visita, tenho sempre este pensamento: por que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que os que tenho perante mim. Por isso, repito e rezo: por que ele e não eu? Poderá impressionar, mas consolo-me com Pedro: renegara Jesus e apesar disso foi escolhido.

Li na documentação do processo de beatificação de Paulo VI o testemunho de um dos seus secretários, ao qual o papa confiara: “Para mim, sempre foi um grande mistério de Deus que me encontro na minha miséria e perante a misericórdia de Deus. Não sou nada, sou miserável. Deus Pai gosta muito de mim, quer salvar-me, quer tirar-me desta miséria em que me encontro, mas sou incapaz de sair dela.

Então manda o seu Filho, um Filho que tem a misericórdia de Deus traduzida num ato de amor por mim… Mas é necessária uma graça especial, a graça de uma conversão. Tenho de reconhecer a ação de Deus Pai no seu Filho em relação a mim. Após reconhecer isso, Deus atua em mim através do seu Filho”. É uma síntese lindíssima da mensagem cristã.

E o que dizer da homilia com que Albino Luciani iniciou o seu episcopado em Vittorio Veneto, explicando que a escolha recaíra nele porque determinadas coisas, em vez de escrever no bronze ou no mármore, o Senhor preferia escrevê-las no pó. Assim, se a escrita permanecesse, seria claro que o mérito era todo de Deus. Ele, o bispo, o futuro papa João Paulo I, definia-se como “o pó”. Tenho de dizer que, quando falo sobre isso, penso sempre no que Pedro disse a Jesus no domingo da sua ressurreição, quando o encontrou sozinho. Um encontro a que se refere o apóstolo São Lucas (24, 34). Que terá dito ao Messias assim que Ele ressuscitou do sepulcro? Ter-lhe-á dito que se sentia um pecador? Terá pensado na renegação, no que acontecera poucos dias antes, quando por três vezes fingira não conhecê-lo no pátio da casa do sumo sacerdote? Terá pensado no seu pranto amargo e público? Se Pedro fez isso, e se os Evangelhos nos descrevem o seu pecado, a sua renegação, e se apesar de tudo Jesus lhe disse “Apascenta as minhas ovelhas” (Evangelho segundo São João 21, 16), não acho que devamos ficar surpreendidos, pois os seus sucessores descrevem-se a si mesmos como “pecadores”.

Não é uma novidade.

 

O nome de Deus é misericórdia
Andrea Tornielli entrevista o papa
>>  Editora Planeta
>>  112 páginas
>>  R$ 29,90

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