'Cravo na carne - Fama e fome' apresenta personagens importantes do faquirismo

Há 60 anos, estrelas do faquirismo passavam dias sem comer, trancadas em urnas expostas ao público. A antiga exibição de "emoções baratas" se compara às performances contemporâneas

por Ângela Faria 09/01/2016 08:00

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Editora Veneta/Reprodução
(foto: Editora Veneta/Reprodução)
Foi um show. Em 28 de janeiro de 1955, a gaúcha Rossana entrou na urna de cristal instalada numa sala de um edifício na Rua dos Carijós, no Centro de Belo Horizonte. A garota, de 24 anos, ficou trancada ali por 20 dias – sem comer, sob cacos de vidros, rodeada de serpentes e vestida de odalisca. Os mineiros pagaram para ver a estrela feminina do faquirismo no Brasil. “Enfrentando a morte para ganhar a vida” – esse era o slogan da moça. Em 2016, Rossana bem poderia estar fazendo performance em galerias de arte contemporânea.

Na primeira metade do século 20, jejum não era moda como nestes nossos tempos de esquálidas top models. Porém, a fome garantia o show. Em clima circense e dizendo-se inspirados em práticas ascetas orientais, faquires ganhavam fama e algum dinheiro ao se trancar em urnas transparentes, cobrando ingresso do respeitável público. Muita gente se comprazia em espiar, in loco, o martírio de homens e mulheres dispostos a passar semanas à base de água, limonada e laranjada, cercados por cobras.

Sensação da provinciana BH, Rossana é apenas uma das 11 personagens do livro Cravo na carne – Fama e fome (Editora Veneta), fruto da pesquisa realizada pelos paulistas Alberto Camarero e Alberto de Oliveira. Em 2013, o projeto ganhou o Prêmio Funarte Caixa Estímulo ao Circo. Histórias dramáticas, momentos divertidos, algumas doses de charlatanice e muita ousadia eram parte dos chamados espetáculos de “emoções baratas” em cartaz, dos anos 1920 a 1960, em saguões de teatro, foyers de cinema ou pavilhões de compensado erguidos nas praças e terrenos baldios.

ODALISCA
 
Tudo começou com a ideia fixa do cenógrafo Camarero. Garoto, ele se impressionara com Verinha: vestida de odalisca, a moça aguentou dias trancada na urna transparente colocada dentro de um pavilhão, em Campinas. Durante anos, buscou notícias dela, sem sucesso. Em 2012, com ajuda da internet, achou a pista daquela figura fascinante. Em parceria com o historiador Alberto de Oliveira, Camarero resgatou não só a trajetória de Verinha – de quem acabou ficando amigo –, mas de outras faquiresas que fizeram sucesso no Brasil.

Minas Gerais deu sua contribuição ao show. Rossana, que teve seu momento “star” na Rua dos Carijós, ganhou reportagens no Diário da Tarde e Rádio Itatiaia. Equipe da TV Tupi veio do Rio de Janeiro especialmente para filmá-la. Até então comandado por homens – Silki, Urbano e Lookan eram astros do ofício –, o espetáculo passava a ser estrelado por mulheres.

Em 1958, a mineira Yone foi campeã de jejum feminino. Ao lado do marido, Lookan, a moça de Paracatu provocou comoção na capital paulista. Prato cheio para a imprensa sensacionalista, os dois permaneceram semanas em urnas instaladas lado a lado em uma sala na Praça do Correio. Até o famoso craque de futebol Mazzola foi conferir a performance do casal. Yone e Lookan passaram o Natal de 1957 devidamente encaixotados. O recorde de fome dela – 76 dias – só foi batido no fim de 1958.

Faquires e faquiresas armavam seus caixões também no interior. Em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, o povo pagou para assistir ao sacrifício de Suzy King e Dzy Tzú, respectivamente, em 1956 e 1957. Dançarina, atriz, cantora e compositora, Suzy é a garota da capa de Cravo na carne – com pinta de vedete, posa com uma das serpentes que criava. Trabalhava em dancings, circos e no teatro. Chegou a compor marchinhas com o conhecido músico Guará.

As cobras de Suzy – batizadas de Perón, Cleópatra e Jânio Quadros – fugiam do apartamento da dona, na Zona Sul carioca, para se abrigar nas varandas dos apavorados vizinhos, que acionavam a polícia. No fim dos anos 1950, ela jejuava em urnas instaladas em galerias de Copacabana. Acusada de fraude, metia-se em confusões que lhe rendiam manchetes. Alta madrugada, jovens rapazes chegaram a invadir o local do “sacrifício” para jogar filé mignon dentro do caixão da faquiresa. Até o célebre Antônio Maria dedicou crônicas à “bela impostora”. Divertiu os leitores com histórias das sucuris de Suzy – uma delas, “cobra suicida”, atirara-se do 10º andar.

FEMINISMO Não menos tumultuada foi a carreira da francesa Rose Rogé. O Paiz, em 1922, convidava o público para vê-la “enterrada viva” num teatro carioca. “O sexo fraco caminha”, registrou a nota do jornal. “É esta a maior e mais interessante novidade da época. Com sua primeira jejuadora, o feminismo marcará mais um tento aos seus ideais de liberdade”, saudava A Noite, respeitado diário carioca.

Alberto Camarero e Alberto de Oliveira mostram que essas mulheres, à sua maneira, desafiaram a sociedade moralista. Se algumas eram insultadas e assediadas, outras ganhavam presentinhos, alimentando o imaginário de gente de todas as idades – Camarero está aí para provar.

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