Especialista em desastres se debruça sobre naufrágio com mais de 140 pessoas no Rio em 1988

Autor de livros sobre desastres aéreos, Ivan Sant'Anna narra tragédia do Bateau Mouche, que afundou no réveillon de 1988, no Rio de Janeiro

por Ana Clara Brant 02/01/2016 07:00

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Acervo pessoal
Ivan Sant'Anna trabalhou por 40 anos no mercado financeiro e trocou os números pelas palavras (foto: Acervo pessoal )

Faltavam apenas 10 minutos para o novo ano. Enquanto grande parte dos brasileiros já estava na contagem regressiva para 1989, cerca de 142 pessoas – nunca se chegou a uma conclusão sobre o número exato porque não havia lista de passageiros – iriam passar pelos piores e, no caso de algumas, os últimos momentos de suas vidas. Quando se aproximava da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para ver a famosa queima de fogos do réveillon, o barco Bateau Mouche 4 naufragou, fazendo 55 mortos, entre eles a atriz Yara Amaral e a mineira Maria José Andrade Teixeira, mulher do ex-ministro Aníbal Teixeira, que sobreviveu ao acidente, mas morreu ano passado, de pneumonia, em Belo Horizonte.


Pela primeira vez, esse desastre náutico, que entrou para a história da nossa navegação, foi parar nas páginas de um livro. 'Bateau Mouche – Uma tragédia brasileira' é a 15ª publicação do escritor carioca Ivan Sant’Anna, de 75 anos. O autor já se debruçou sobre outras catástrofes em 'Caixa preta' e 'Perda total', sobre desastres aéreos; 'Plano de ataque', que relata o atentado terrorista de 11 de setembro, e 'Os mercadores da noite', thriller que tem como pano de fundo os meandros do sistema financeiro internacional.

MÁFIA ESPANHOLA
De maneira ágil, objetiva e informativa, sem ser sensacionalista, Sant’Anna esmiuça toda a história do naufrágio. Além de dar um panorama do ano de 1988, ele relata a origem do barco, construído em Fortaleza com o nome de Kamaloka e que tinha capacidade inicial de 20 passageiros. Anos depois, quando foi adquirida pela chamada “máfia espanhola” – como foram chamados seus proprietários, Álvaro Pereira da Costa, Avelino Rivera, Faustino Puertas Vidal, Ramon Rodriguez Crespo e Mário Rodriguez Triller pela opinião pública após o ocorrido –, a embarcação foi reformada, aumentando sua capacidade para 150 pessoas.

O autor relata todos os detalhes do acidente, o resgate, descreve como as pessoas conseguiram sobreviver e analisa os diversos fatores que levaram à catástrofe: superlotação, negligência e fiscalização ineficaz. E consegue construir uma narrativa sobre a tragédia, com final conhecido por todos, em algo atraente e surpreendente. “Tenho que criar todo um suspense e dar informações que os leitores desconhecem, já que é uma coisa que todo mundo sabe o que vai acontecer. Sabe que nos meus livros sobre aviões as pessoas até torcem para que a aeronave não caia, mesmo sabendo que não foi isso que aconteceu? É interessante”, comenta Ivan.

A ideia do livro surgiu há cerca de 15 anos. Naquela época, Ivan era um dos roteiristas do programa Linha direta, da Rede Globo, que chegou a fazer um episódio reconstituindo a tragédia do Bateau Mouche. “Já havia começado minhas pesquisas na Biblioteca Nacional, mas, como a Globo fez aquele especial, numa atração em que eu trabalhava, achei que não era hora para publicar. Há pouco tempo, retomei e dei uma atualizada, porque muita coisa aconteceu, como a evolução dos processos, condenações e novas entrevistas”, destaca.

ACERVO-2/1/89
Equipes de resgate retiram das águas da Baía de Guanabara os corpos de vítimas do Bateau Mouche (foto: ACERVO-2/1/89)

HEROÍSMO
Vários foram os motivos apontados para o naufrágio. O primeiro deles foi o posicionamento da caixa d’água no teto da embarcação, o que deslocou o centro de gravidade para cima e ajudou o barco a adernar. As ondas de dois metros agravaram a instabilidade. Outro fator apontado por Sant’Anna foi o deslocamento, simultâneo, dos passageiros para boreste (lado direito) do Bateau Mouche.

O autor aponta ainda que as escotilhas e vigias não eram estanques e, com o excesso de peso, ficaram abaixo do nível do mar, alagando os compartimentos inferiores, e as bombas de esgotamento (que jogam a água para fora da embarcação em caso de alagamento) não funcionavam perfeitamente.

“A superlotação, a meu ver, não pode ser apontada como uma das causas, porque três dias antes a Capitania dos Portos fez uma vistoria e liberou o Bateau Mouche para navegar com 150 pessoas, apesar de ele ter sido projetado para transportar 20. Nem inspeção antes de navegar houve. A relação marinheiro/passageiro praticamente não existiu nesse episódio”, observa.

A tragédia teria sido muito maior se não fosse pelo heroísmo e solidariedade de outros barcos. A traineira de pesca Evelyn & Maurício, comandada pelo seu dono e mestre de embarcação Jorge Viana, e o iate Casablanca, de Oscar Gabriel Júnior, estavam próximos ao local do acidente e resgataram vários sobreviventes.

IMPUNIDADE Passados 27 anos, praticamente ninguém foi indenizado ou punido. Para Ivan Sant’Anna, a impunidade se deve ao fato de não ter só um culpado, mas vários. “A Marinha teve culpa, os proprietários do barco, a empresa que o contratou para fazer a festa em alto-mar e o mestre-arrais do Bateau Mouche, Camilo Faro, que acabou afundando com o barco”, aponta o pesquisador. Sant’Anna acrescenta que “a embarcação não estava com tanque cheio, o que deu menos estabilidade ao barco, já cheio de água e de defeitos”, analisa.

 

TESTEMUNHO

O advogado Boris Lerner sobreviveu ao naufrágio, mas perdeu a mulher e um filho. O depoimento, dado ao Jornal do Brasil e reproduzido no livro, resume bem o sentimento dos que viveram a tragédia. E, pelo que relata, pouco mudou desde aquele fatídico 31 de dezembro de 1988: “Tantas alegações de isenção de culpa me fazem pensar que não tenha sido apenas vítima, mas que tenha contribuído para a tragédia, quando, inocentemente, comprei as passagens para o passeio da morte. Fomos todos muito ingênuos, entrando no mar em um barco impróprio, com nossos familiares e amigos. Infelizmente, no país em que vivemos, mais vale desconfiar de tudo e de todos até que se prove o contrário. Não há exagero quando se diz que estamos em terra de corrupção e suborno generalizados, impunidade e falta de respeito para com o próximo”.



BATEAU MOUCHE – UMA TRAGÉDIA RASILEIRA
De Ivan Sant’Anna
Editora Objetiva
168 páginas,
R$ 34,90/R$ 23,90
(e-book)


VEM POR AÍ

Em 2016, Ivan Sant’Anna vai lançar dois livros. Um deles é Eros, em parceria com a jovem escritora paulista Analu Andrigueti, um “livro fantasioso”, na definição do escritor. Conta a história de um homem e uma mulher em épocas diferentes que se encontram no juízo final. O outro título é mais um sobre aviação, Voo cego, escrito com o comandante gaúcho Luciano Mangoni.

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