Colecionadores de selos desvendam curiosidades do passado brasileiro

Até percurso de cartas é revelado por estudiosos, ajudando a compreender aspectos do cotidiano. Correspondência entre cidades próximas em Minas podia demorar mais de um mês para chegar

por Mariana Peixoto 28/12/2015 08:47

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Editoria de Artes/EM
(foto: Editoria de Artes/EM)
Em 22 de dezembro de 1906, um cartão-postal saiu dos Correios de Abbadia do Pitangui (atual Martinho Campos, Região Central do estado) com direção a Cláudio, Oeste de Minas. A distância entre os dois municípios é de aproximados 180km – percorrê-la hoje levaria não mais do que duas horas de carro.

Pois 110 anos atrás, a correspondência seguiu pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, passou por Espírito Santo de Itapecerica (atual Divinópolis), de lá, por Carmo do Cajuru, Cidade do Pará (hoje Pará de Minas), chegando a Belo Horizonte em 12 de janeiro de 1907. Da capital, ainda rodou muito, também por trem, passando por General Carneiro, Miguel Burnier e Ouro Preto. O postal consumiu exatos 36 dias para chegar a seu destino, alcançado em 28 de janeiro do ano seguinte.

O percurso foi reconstituído pelo médico Márcio Hamilton Protzner de Oliveira, de 60 anos. O clínico geral reserva em casa um quarto para a filatelia, prática diletante que descobriu quando não tinha mais do que dez anos. Depois de se dedicar às coleções tradicionais – como os selos brasileiros –, alçou voos mais altos.

Há pelo menos uma década, Oliveira trabalha na coleção História postal de Minas Gerais – 1890 a 1910, que já lhe rendeu alguns prêmios e a participação em exposições no exterior – em abril, ele expõe em Portugal, pela quinta vez, sua coleção de quatro álbuns. O interesse de Oliveira é pela parte da filatelia que estuda os trajetos que as cartas faziam. Tanto que sua coleção é de cartas, em que os selos e carimbos relatam a trajetória de cada correspondência.

“O período que escolhi corresponde à época em que um selo apelidado de Madrugada Republicana circulou. Quando você monta uma coleção para expor, tem que ter um período delimitado ou não consegue terminá-la”, explica ele.

Para Oliveira, a filatelia abre outras portas. “Em função desta coleção, acabei estudando Minas Gerais. Hoje, tento percorrer fotografando o caminho que as cartas fizeram. Já tinha, por exemplo, passado duas vezes por Bento Rodrigues, porque cartas que saíam de Ouro Preto para Itabira passavam por lá”, comenta.

JANELA PARA O MUNDO Objetivamente, a filatelia trata do estudo e do colecionismo de selos postais e materiais relacionados. “É uma pequena janela para o mundo”, define Francisco Carlos de Moraes Salles, 64 anos, presidente do Clube Filatélico e Numismático de Uberlândia, fundado há 48 anos. Colecionador desde a adolescência, ele acredita que se possa aprender tudo – “matemática, ciência, história, geografia” – através daquele pedaço de papel.

“Acho que existem três tipos de colecionadores. O ajuntador, que é onde se começa; o colecionador, que tem mais noção do tema; e por fim o filatelista, que estuda a fundo seu tema”, afirma Salles, que, mesmo tendo dedicado boa parte da vida à coleção, ainda se considera no segundo grupo.

O Brasil é um mercado importante para a filatelia, principalmente por seu histórico. Foi o segundo país a emitir selo no mundo (o famoso Olho-de-boi, hoje vendido na casa dos quatro dígitos, em média, foi lançado em 1º de agosto de 1843), perdendo apenas para a Inglaterra (que criou o selo três anos antes). São diversas áreas da filatelia – juvenil, moderna, temática, tradicional, entre outras – que se abrem para outros segmentos.

Os Correios realizam, anualmente, 21 emissões de selos – uma emissão pode ter somente um selo, dependendo do tema, chegando até a 20. Entre as séries atualmente em produção, estão relações diplomáticas e Mercosul.

É um mundo muito livre, em que qualquer tema pode gerar uma coleção. “Mas tem que haver método, estudo, paciência e lógica”, explica Salles. A coleção dele é de selos comemorativos do Brasil em quadras. Ou seja, só valem para o colecionador quatro selos iguais e juntos.

É uma coleção bem diferente da de Roberto Leone. Morador de Catalão, no Sul de Goiás, ele costuma pegar estrada para Uberlândia sempre que vai a um encontro do clube presidido por Salles. Depois de trabalhar na chamada coleção clássica – com todos os selos emitidos no Brasil – ele passou a se dedicar à produção italiana. Cada país acaba desenvolvendo seu próprio estilo.

“O brasileiro é festivo, colorido. Já o selo italiano é mais rococó, e os temas envolvem principalmente guerra e religião. Mesmo um exemplar novo parece um selo clássico”, diz Leone. Com o conhecimento adquirido ao longo dos anos, ele só de olho reconhece a procedência de um selo.

Ainda que existam feiras e encontros de filatelistas, a atividade é, de uma maneira geral, bastante solitária. “É um hobby muito introspectivo e de interesse absolutamente pessoal”, comenta Márcio de Oliveira. Seu acervo, que reúne dezenas de pastas das coleções, livros e caixas com selos, geralmente fica restrito à sua casa. Os filhos nunca se interessaram pelo material.

Com Francisco Salles, a história não é diferente. Sua coleção valorizou-se bastante depois que ele adquiriu a de um tio – os herdeiros dele nunca se interessaram pelo hobby do pai. “Aqui no clube, não há adolescentes. Os mais jovens têm 25, 30 anos. Infelizmente, os jovens são bem raros (na filatelia)”, diz.


DRUMMOND Aos seis anos, Eduardo Cicarelli, de Lavras, descobriu a filatelia. Seu achado mais relevante, no entanto, não tem qualquer valor filatélico. Nos anos 1990, estava numa edição da Lubrapex (Exposição Filatélica Luso-Brasileira), no Rio de Janeiro, quando soube da história de uma senhora que queria vender um material que havia pertencido a Carlos Drummond de Andrade.

Como a maior parte era de cartas sem selos, ninguém havia se interessado. Cicarelli, um apaixonado por selos e por Drummond, comprou o material completo – cartas, bilhetes, fotografias, telegramas, algo em torno de 500 documentos, datados de 1915 a 1986 – e o manteve guardado por 20 anos.

A correspondência só veio a público em 2013, depois que Cicarelli vendeu o acervo para a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira. A primeira exposição, QuasePoema, ocorreu em 2014, na Casa Fiat, em BH.

“Antes disso, apareceu uma proposta muito boa de compra, só que as cartas seriam levadas para um leilão na Inglaterra. Minha preferência era que ficassem no Brasil”, comenta ele. De acordo com Cicarelli, o lote foi vendido por R$ 21 mil, valor corrigido do que ele havia pago quando adquiriu o material.

De volta ao seu hobby, Cicarelli passou, há alguns anos, a se interessar pela filatelia costarriquenha. “Como já tenho a coleção completa, o que faço agora é conseguir variedade.” Explicando: a impressão de um selo pode trazer alguma falha. Isso já é considerado variedade.

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