''Arte feita do encontro'': mineira foi destaque no teatro do eixo Rio-São Paulo em 2015

Vencedora do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte com 'Mantenha fora do alcance do bebê', a dramaturga Silvia Gomez aposta na contradição

por Shirley Pacelli 27/12/2015 07:00

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Enquanto uma mulher é entrevistada para o processo de adoção de um bebê, o mundo lá fora é tomado por uma superpopulação de lobos. Um deles, em cena, serve cafezinho e dança. Afinal, o que a dramaturga mineira Silvia Gomez quis dizer com esse animal no espetáculo Mantenha fora do alcance do bebê, sucesso de crítica e público no eixo Rio-São Paulo?

Na opinião de Silvia, mais do que oferecer respostas, o teatro é um lugar para se fazer perguntas. “Se der sorte, consigo entender um pouco sobre o mundo à nossa volta. Se der ainda mais sorte, entender sobre mim mesma”, afirma.

Radicada em São Paulo, onde atua também como jornalista, ela se lançou oficialmente no universo das artes cênicas em 2008, com O céu cinco minutos antes da tempestade. Em 2015, Silvia tornou-se a dramaturga do momento. Com Mantenha fora do alcance do bebê, que havia sido premiado em concurso do Centro Cultural São Paulo, onde foi encenado, ela ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria autor/dramaturgo e foi indicada ao Prêmio Shell de Teatro.
Alan McCredie/Divulgação
''É preciso permitir a contradição. A gente é contraditório. Nunca somos maniqueístas'', diz dramaturga mineira (foto: Alan McCredie/Divulgação)
Seu processo de escrita não segue nenhum ritual. “Claro que existe uma pesquisa. Mas o texto vai chegando, os personagens aparecendo… É preciso permitir a contradição. A gente é contraditório. Nunca somos maniqueístas”, ressalva. Silvia é a favor do retorno do texto literário de forma mais crua ao teatro, sem adaptações.

 

“Os atores de teatro que mais gosto são os que trabalham o texto de forma quase hipnótica. Ele acontece quase como ação”, diz. Para ela, o teatro viveu uma ditadura do coletivo. “Chamavam o dramaturgo só para colaborar, construir colchas de retalhos. Ele só costurava. E o autor que tinha a ideia de um texto ficava malvisto”, descreve.

Ela ressalta o trabalho de grupos de estudos de dramaturgia como o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, e do Grupo Galpão, em Minas. “Existem vários jeitos de escrever dramaturgia. Em colaboração ou sozinho. Sou mais de gabinete. É o meu jeito. Com minha vida tomada por essas coisas, meus horários não permitem trabalho colaborativo”, diz Silvia.

A mineira conta que sempre conciliou o jornalismo com cursos de formação em teatro. Os dois lhe permitiam escrever, uma de suas paixões. O gosto pelas coxias veio da tia e madrinha, a atriz e diretora Yara de Novaes. “Foi ela quem me apresentou ao teatro. Meu pai morava no Sul de Minas e, nos fins de semana, eu via ensaios com ela. Quando eu ia, pensava: ‘que mundo legal esse que você pode inventar essas coisas’. Sempre me pareceu um bom lugar para estar”, conta.

Teatro para Silvia é, sobretudo, lugar de buscar experiência espiritual, não no sentido religioso, mas no da experiência humana. “Encontrar esse lugar raro, da arte feita do encontro”, diz. Este encontro ela teve com o diretor Eric Lenate e a atriz Débora Falabella, parceiros em outros trabalhos, além da peça Mantenha fora do alcance do bebê, seu projeto mais recente.

Lenate dirigiu a primeira peça de Silvia em São Paulo e estudou com ela no CPT, do diretor Antunes Filho. Foi dele a ideia de colocar o lobo em cena, que aparecia apenas como uma sugestão no texto original. “Ele transformou isso em uma coisa absurda e explosiva”, diz Silvia.

 

Segundo ela, o personagem é uma figura muito aberta para o espectador. “Para alguns, são os refugiados. Cada olhar revela um pouco da pessoa que fala”, reflete a dramaturga.

Silvia admira em Lenate, especialmente, a forma com que ele trata o texto original, recriando uma obra própria e autoral. “Ele é um diretor profundo. A palavra, para ele, é muito importante. Ele respeita e tenta encontrar o significado mais amplo dela”, ressalta a mineira.

Sobre Débora Falabella, Silvia se diz assombrada diante do que a atriz fez com a personagem. “A beleza do teatro é isso. Obras somando para criar outra. Explosão de várias pessoas e humanidades”, diz. Um prêmio de teatro, para Silvia, é sempre de muitas mãos. “Assim como o encontro com o espectador: só se faz ao vivo, se tiver gente. É um encontro efêmero, que resume o que é a vida – cheia de som e fúria. Isso me comove”, ressalta.
Divulgação
Autora admira desempenho de Débora Falabella em 'Mantenha fora do alcance do bebê' (foto: Divulgação)
CONSUMISMO

Apesar de ponderar que um texto nasce sempre de variados elementos, Silvia conta que Mantenha fora do alcance do bebê surgiu de um incômodo grande da forma como a sociedade tem tratado como consumo mesmo as coisas mais preciosas. “Até a paternidade (não só a maternidade) entrou para esse lugar de obrigações a se cumprir e consumir. ‘Ele já vem com roupinha? Não tem uma mala?’”, critica.

O mais sintomático, para ela, foi encontrar um livro à venda com o título Bebê, manual do proprietário. “Estamos lidando com isso como mais um produto a adquirir ou tarefa que se tem. A única razão que deve levar a ter um filho é querê-lo muito”, reflete.

O prêmio do APCA e a indicação para o Shell, para ela, foram uma grata surpresa. “Não imaginava. Tinha medo. Era difícil mostrar a minha peça. Achava que não era boa”, revela. A dramaturga relembra que o espetáculo só “aconteceu” porque ganhou o prêmio do Centro Cultural São Paulo, que viabilizou a encenação na mostra de junho de 2014. “É um edital raro, só para o autor do teatro”, explica.

A premissa da dramaturgia, para Silvia, é falar com o público do seu tempo. “Estou feliz em saber que meu texto comunicou com as pessoas de algum jeito. Temos que olhar ao redor e falar do que está incomodando”, resume.

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