BH integra projeto de grafiteiros que reformula e embeleza carroças

Objetivo do ' Pimp My Carroça' é dar visibilidade ao trabalho dos carroceiros e valorizar a reciclagem

por Shirley Pacelli 20/12/2015 09:30

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João Vitor Teófilo/Divulgação
A professora Luciana Duarte, organizadora da iniciativa em BH, e as voluntárias Marcella Dutra e Livia Maria Cunha, em carroça conduzida por Gustavo Henrique, membro da equipe de São Paulo, na Avenida Afonso Pena (foto: João Vitor Teófilo/Divulgação)
Ciro Marques da Silva tem 70 anos e há 10 circula pelas ruas de São José da Lapa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com sua carroça. Em tempos de crise, ele consegue recolher de 10 a 15 quilos de garrafas PET por dia. José Maria dos Santos, o Zezão, de 54, é catador há 20 anos na cidade de Santa Luzia. Com o peso do carrinho mais os materiais recolhidos, ele carrega em torno de 150 quilos diariamente.

Os dois trabalhadores fazem parte do grupo de 14 pessoas que tiveram seus carrinhos reformados pelo Pimp My Carroça – Pimpex BH. Desde 2012, esse projeto do artista paulista Mundano dá visibilidade aos profissionais da reciclagem por meio do grafite.

O catador Zezão, que já trabalhou na Ceasa-MG como carregador de caminhão, criou duas filhas com o dinheiro que arrecada recolhendo sucata, papelão e latinhas nas ruas. A carroça, agora mais leve, foi aprovada por ele – só ficou meio larga, brinca. Ele ressalta que seu trabalho contribui para a cidade: “Estou trabalhando para limpar, né?”.

Já Ciro conta que se aposentou como servente de pedreiro e colocou na cabeça a ideia de fazer reciclagem. “A gente não aguenta trabalhar com serviço pesado, pela idade.” Em 90 dias, ele recolhe 400 quilos de PET. Sua companheira, Yara, usa o mesmo carrinho e recolhe materiais recicláveis três vezes por semana.

Com a ajuda de seus alunos, Luciana Duarte, professora da disciplina de planejamento de produtos em uma faculdade de BH, foi a responsável por promover na capital mineira a miniedição do Pimp My Carroça. A professora está também à frente da primeira edição belo-horizontina do Street Store, ação que promove distribuição de roupas para moradores de rua.

Uma das exigências de Luciana aos estudantes era que escolhessem catadores que viviam por perto deles, especialmente porque muitos não têm telefone, e o contato seria prejudicado pela distância. Assim, o grupo selecionado reuniu participantes de Caeté, Santa Luzia, Vespasiano e São José da Lapa. Cada aluno conversou com o catador para conhecer sua história e saber das suas reais necessidades com a reforma.

Por meio das entrevistas, a professora percebeu uma tendência entre os catadores: eles eram mais velhos, arrecadavam entre R$ 500 e R$ 600 por mês e boa parte trabalhava como pedreiro antes. “Eles não tinham mais força física e não conseguiam trabalho”, explica Luciana. Alguns eram ainda moradores de rua e chegavam a carregar até 300 quilos de material por dia. Como conseguiam? O hábito, respondiam.

O orçamento da ação chegou a R$ 16 mil. O valor foi obtido por meio de uma campanha de financiamento coletivo. O dinheiro foi usado para adquirir kits de segurança, como faixas e camisetas refletoras, buzinas, luvas e corda. Rodas de bicicleta ou de carrinhos de mão substituíram as tradicionalmente utilizadas, feitas com placa de madeira emborrachada.

“Os catadores prestam um serviço ambiental fantástico. Eles são conscientes. Dizem que ‘não catam lixo, mas material reciclável’”, destaca Luciana. Ela diz que os exaustivos meses de trabalho valeram a pena: “Fazer o bem é uma sensação maravilhosa. E o principal é tirá-los da invisibilidade.”

CONVIDADOS Entre os artistas convidados para o projeto está Binho Barreto, artista plástico, ilustrador e grafiteiro. Ele é o autor da arte na carroça de Ciro. Depois de uma conversa entre eles, a carroça foi pintada de azul, a cor favorita do catador de São José da Lapa. Ciro, ao lado de sua companheira Yara, que divide o carrinho com ele, também virou desenho estilizado. “Coloquei ainda o nome deles. Há pessoas que se esquecem do ser humano por trás do catador. Eles têm história e família”, diz o grafiteiro.

Binho, que já conhecia a iniciativa do grafiteiro Mundano, ressalta que, mais do que o resultado material, é importante a mensagem que esse tipo de atividade traz. “É a iniciativa do cuidado com o outro que você não conhece. As pessoas estão cada vez mais individualistas, com desesperança no governo e nas instituições.”

Jefferson dos Santos Patrício, o Jefi, do coletivo artístico Na Tora, é outro artista participante do Pimpex. O catador Hudson pediu a ele para escrever Jesus na carroça, porque “Deus o abençoou naquele momento”. “É uma ação importante. Minha arte passa por toda a cidade e posso ajudar a sociedade a ver o catador de outra forma. Sei que a arte tem visibilidade, ajuda bastante”, afirma Jefi.

Os artistas DNF, Krol e Viber, do coletivo Minas de Minas, Criola, Lelis, Athaíde Miranda, Luna Siqueira, Kwany Souza e Biga também fizeram parte da ação.

 

João Vitor Teófilo/Divulgação
A pedido do carroceiro Hudson, que se sentiu abençoado, o grafiteiro Jefi Santos, do Coletivo Na Tora, pinta a palavra Jesus no veículo do trabalhador (foto: João Vitor Teófilo/Divulgação)

 

16 cidades aderem ao 'tapa' no visual 

 

O projeto Pimp My Carroça foi criado em 2012, com a ideia de tornar coletiva a ação do grafiteiro paulista Mundano para tirar os catadores de materiais recicláveis da invisibilidade por meio da reforma estrutural e estilização das carroças. Cerca de 355 catadores já foram atendidos em 16 cidades do Brasil.

Neste ano, Mundano recebeu em Lima (Peru) o Prêmio de Água e Saneamento BID-FEMSA para a América Latina e o Caribe, categoria de resíduos sólidos, do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Ele e a fotógrafa Martha Cooper, que há 35 anos registra a arte de rua pelo mundo, realizam atualmente em São Paulo (até 30 de janeiro) a exposição #VivaOsCatadores.

Em Contagem, exposição do coletivo Na Tora pode ser visitada gratuitamente no Centro Cultural de Contagem (Rua Dr. Cassiano, 130, Centro), das 9h às 17h. A página pimpmycarroca.com tem mais informações sobre o projeto.

 

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