Ator Matheus Soriedem propõe uma reflexão sobre privações da liberdade

A proposta do espetáculo EuCaio, em cartaz na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, é fazer um retrato atual da repressão

por Carolina Braga 13/12/2015 11:27

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Kiu Meireles/Divulgação
Espetáculo EuCaio está em cartaz na sala Juvenal Dias, do Palácio das Artes (foto: Kiu Meireles/Divulgação)
Há 47 anos, o Brasil entrava em um dos períodos mais sombrios de sua história. Foi em 13 de dezembro de 1968 que o general Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5. Quatro décadas depois, em momento particularmente conturbado da democracia brasileira, a ditadura volta à cena. A proposta do espetáculo EuCaio, em cartaz na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, é fazer um retrato atual da repressão.

A peça é um monólogo de Matheus Soriedem, com direção de Juarez Guimarães Dias. Durante as manifestações populares de junho de 2013, o ator se viu em meio aos protestos em dúvida sobre as próprias reivindicações. Nessa época, ele recebeu um convite para visitar a Casa do Sol, onde viveu a escritora Hilda Hilst (1930-2004). Lá, conheceu o livro O inventário do ir-remediável, de Caio Fernando Abreu (1948-1996), hóspede da casa quando fugia da perseguição do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

“Vi que a história dele era muito parecida com a minha. Também ia às manifestações como eu”, diz Soriedem. Assim, as experiências de vida e literária do escritor gaúcho serviram de impulso para que o ator, de 24 anos, propusesse a criação de um espetáculo solo a Guimarães Dias.

EuCaio tem a dramaturgia composta por fragmentos de contos de Caio Fernando Abreu, cartas, textos de artistas perseguidos pela ditadura e também do decreto do AI-5. “É uma dramaturgia inédita. Um texto que foi construído a partir de muitas referências”, explica o diretor. Segundo ele, foi um processo criativo de muita entrega. “Não precisa ter hierarquia quando você tem um ator que está pensando com você”, diz.

O espetáculo começou a ser delineado em abril de 2014, quando o golpe militar completou 50 anos. Desde então, em versão cena curta, passou por eventos como Amostra.lab e Encontro Sesi de Artes Cênicas de Araxá. Em julho deste ano, EuCaio fez pré-estreia no Teatro de Cama, no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.

O objetivo da montagem é, por meio de um percurso poético, refletir sobre as privações de liberdade presentes na democracia. “É um retrato atual da ditadura”, diz Guimarães Dias. “Hoje em dia, vivemos ditaduras veladas – contra os homossexuais, os negros, os travestis, as mulheres. Temos uma ditadura atual”, afirma o ator.

Ao longo dos 50 minutos de espetáculo, Soriedem afirma o desejo de compartilhar um ponto de vista sobre a realidade. “Como cidadãos, queremos que a diversidade seja aceita; que o amor seja apenas amor, que haja igualdade. Sinto-me representado por este espetáculo”, resume.

 

 

Do papel ao palco 

 

Em EuCaio, Juarez Guimarães Dias experimenta de maneira mais ampla procedimentos que estudou para a elaboração de sua tese de doutorado, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais. Boa parte do que está na cena protagonizada pelo ator Matheus Soriedem é resultado prático das reflexões acadêmicas, agora lançadas em livro.

Narrativas em cena: Aderbal Freire-Filho (Brasil) e João Brites (Portugal) é uma obra que confirma a elasticidade daquilo que podemos chamar teatro. “Não é o texto que define. É a cena que dá a teatralidade a ele”, explica o pesquisador. Guimarães Dias, que já se interessava pela maneira como o diretor brasileiro Aderbal Freire-Filho apresenta romances em cena, tomou conhecimento do trabalho do encenador português João Brites em Lisboa. Resolveu analisá-los em paralelo.

Narrativas em cena mergulha em três trabalhos cênicos de cada um dos diretores analisados, que têm em comum o fato de serem baseados em literatura. No caso de Aderbal, foram estudadas as peças A mulher carioca aos 22 anos (1990), O que diz Molero (2003) e O púcaro búlgaro (2006), encenações de livros homônimos de João de Minas, Dinis Machado e Campos de Carvalho, respectivamente. São espetáculos que levaram os romances literalmente para o palco, sem qualquer adaptação.

De João Brites, Guimarães Dias selecionou Gente feliz com lágrimas (2002), de João de Melo, Ensaio sobre a cegueira (2004), de José Saramago, e Jerusalém (2008), de Gonçalo M. Tavares.

Foram quatro anos de pesquisa e, como parte da metodologia, Juarez decupou cada uma das peças estudadas. “Fui marcando as cenas no livro. O Aderbal fez literalmente. Praticamente tirou 0,5%. Já o Brites tem um trabalho de dramaturgia”, compara.

Ao longo desse processo, a tríade formada pelo texto, a encenação e o ator ganhou ainda mais importância para o pesquisador. Na obra, ele afirma que “ao levar para o palco textos literários, romanescos neste caso, esses materiais inevitavelmente colocarão impasses, questões e equações para a cena que, por sua vez, deve recorrer aos seus próprios recursos para construir com eles espetáculos de teatro”.

 

EuCaio
Solo de Matheus Soriedem. De hoje a quarta, na Sala Juvenal Dias. Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). R$ 20 e R$ 10 (meia)

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