Projeto fotográfico evidencia tragédia no Rio Doce

Leonardo Merçon é o responsável pelo trabalho que virou o projeto fotográfico 'Lágrimas do Rio Doce', que em breve será disponibilizado também em formato de documentário

por Rebeca Oliveira 07/12/2015 10:10

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Instituto Últimos Refúgios / Divulgação
(foto: Instituto Últimos Refúgios / Divulgação)
“As pessoas só protegem o que sabem que existe.” Com a sentença em mente, o fotógrafo de natureza e conservação Leonardo Merçon deixou de pagar as contas pessoais, alugou um barco e saiu de Vitória com destino a 10 cidades em Minas Gerais e Espírito Santo. Merçon, que também é presidente do Instituto Últimos Refúgios, partiu de casa com um grupo composto por ele e mais duas pessoas. Ao longo de três semanas, registrou o antes e o depois da maior tragédia ambiental que abalou o país nos últimos meses: o rompimento das barragens da mineradora Samarco (Vale e BHP Billiton) em 5 de novembro, levando uma onda de caos por onde passaram as 62 milhões de toneladas de lama, que deixou pelo menos 13 mortos, uma dezena de desaparecidos e milhares de desabrigados. As viagens feitas por ele viraram o projeto fotográfico Lágrimas do Rio Doce, que em breve será disponibilizado também em formato de documentário.

Até agora, Merçon fez duas expedições fotográficas. A primeira aconteceu quatro dias após o rompimento das barragens, destruindo o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). A priori, a previsão do grupo era acompanhar a chegada da lama no Espírito Santo, onde vivem. Diante da demora inicial, o fotógrafo e equipe decidiram subir o Rio Doce de barco. Por um momento, chegaram a pensar que a lama tinha se dissipado. Até chegarem a Governador Valadares, um dos municípios mineiros mais atingidos pelos restos do acidente na mineradora. A bordo de uma embarcação simples, Merçon e os colegas registravam tudo que podiam. Ele recorda: foi difícil fotografar com os olhos mareados diante da situação de desespero da população.
 
Instituto Últimos Refúgios / Divulgação
(foto: Instituto Últimos Refúgios / Divulgação)
 

Expedição

O fotógrafo viu a cor da água do Rio Doce mudar de verde-esmeralda para um marrom sem vida. Peixes pulavam para fora da água, desesperados. Alguns pescadores colhiam os animais mortos e tentavam vender por míseros R$ 5 por quilo, para garantir o sustento da família. As primeiras imagens foram visualizadas por mais de cinco milhões de pessoas, o que ajudou o Instituto Últimos Refúgios a realizar a segunda expedição, quando acompanharam a chegada da lama tóxica no mar. A morte não se restringia a peixes. Capivaras, lontras, jacarés, cavalos e até aves também morreram. Pessoas também ficaram doentes por beber a água proveniente do rio. A lama segue o curso do mar, e continua, diariamente, matando mais histórias. “Passei a prestar atenção nas comunidades. Quis mostrar o crime que estava sendo cometido, e não consegui dissociar os lados pessoal e emocional”, afirma o fotógrafo.


Uma das imagens mais icônicas tem nas lágrimas de um pescador uma síntese que viveram os ribeirinhos ao ver seu sustento se perder em litros de água avermelhada e cheia de poluentes. Em Aimorés, em Minas Gerais, Benilde Madeira foi flagrado em uma das fotografias mais tocantes. Os olhos cheios d’água carregavam um misto de lamento e desespero. “Naquele momento, ele falava sobre o filho dele, que havia perguntado sobre quando ele pescaria um dourado de novo no rio, e ele não sabia a resposta”, recorda Merçon. “Em todos os pescadores, percebi que não havia só tristeza, mas raiva. Esse não é o primeiro problema que estão enfrentando. Eles já tinham dificuldades com os empreendimentos que usam os rios, como as hidrelétricas e outras empresas que o polui. E com o próprio governo e o defeso, que não havia sido pago”, acrescenta.

 

Instituto Últimos Refúgios / Divulgação
(foto: Instituto Últimos Refúgios / Divulgação)

 

Instituto Últimos Refúgios / Divulgação
(foto: Instituto Últimos Refúgios / Divulgação)

 

Instituto Últimos Refúgios / Divulgação
(foto: Instituto Últimos Refúgios / Divulgação)

 

Instituto Últimos Refúgios / Divulgação
(foto: Instituto Últimos Refúgios / Divulgação)

 

Instituto Últimos Refúgios / Divulgação
(foto: Instituto Últimos Refúgios / Divulgação)

 

Duas perguntas Leonardo Merçon 
A Organização das Nações Unidas classificou as medidas tomadas pelo governo federal para conter o desastre inaceitáveis. Como testemunha ocular da tragédia, acredita que houve negligência? 
É inaceitável a postura defensiva das empresas responsáveis e do governo. A primeira coisa que eles deveriam ter feito, independentemente de quem fosse a culpa, era mitigar aquilo, conter os estragos. Gastou-se muito tempo tentando achar culpados em vez de resolver. A barragem e a responsabilidade era deles. Em algumas cidades, pessoas ficaram em situações desumanas. Teve uma cidade chamada Galileia, em Minas, onde fomos fazer doação de água. Eles estavam há uma semana sem água. Muita gente estava doente, com diarreia, porque as pessoas tentaram filtrar a água do Rio, de chuva, e de outras fontes duvidosas.

A instabilidade política em que vive o país atrapalha na contenção e resolução das consequências do desastre em Mariana? 
O país vive uma crise econômica, ambiental e política desde antes da catástrofe. Muitos crimes ambientais têm sido cometidos, principalmente na Amazônia, na Mata Atlântica e no Cerrado, que têm sido devastados. Essa dificuldade de lidar com a tragédia do Rio Doce é só um reflexo do que tem sido feito nos últimos anos em nosso país. Isso é evidenciado por inúmeros atitudes, como desmantelamento do Código Florestal. A população também está distante do meio ambiente e se blindando dentro da bolha da cidade. É como se a natureza não fizesse mais parte da vida delas. Quem vai querer proteger o que não faz parte da vida delas? Elas acham que essas consequências ambientais estão distantes, só percebem quando está mais quente e gastam mais dinheiro por causa do ar-condicionado.

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