'Nessa rua tem um rio' promove ação artística em calçada de BH

Atores, músicos, bailarinos e transeuntes são convidados para se apropriarem do espaço público

por Shirley Pacelli 05/12/2015 08:00

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Kely Aguiar/Divulgação
'Café de rua com chuveiro de lata', um dos destaques do projeto (foto: Kely Aguiar/Divulgação)
“Está vendo ali, por onde os carroceiros estão passando? É, a Padre Belchior! Nessa rua tem um rio. Na década de 1970 ele foi coberto.” Em 2009, a artista plástica Thereza Portes voltou para a casa onde nasceu, no Centro de Belo Horizonte, e sentiu falta do Córrego do Leitão, o rio da sua memória. A moradia virou sede da organização não governamental Instituto Undió, fundada por sua mãe, e que atende cerca de 140 adolescentes desenvolvendo atividades artísticas. Os alunos ficaram curiosos: “Como tinha rio se a gente não está vendo?”.

Assim, ela resolveu retomar as antigas histórias da localidade por meio do projeto “Nessa rua tem um rio”. O trabalho se dá, especialmente, por meio de performances que dialogam com o ambiente. “A gente pensa a rua não mais com apego ao passado, mas como uma rua mais humana, afetiva”, explica Thereza. Hoje, como parte das atividades da 19ª temporada do projeto, será realizada mais uma intervenção artística na Padre Belchior. A ação é aberta à participação, mas vai contar com convidados ilustres, como Dudude, Marta Neves e Marco Paulo Rolla.

A via, segundo Thereza, abraça a diversidade. “Tem bazar, cinema pornô, paneleiro antigo, carroceiros filhos de carroceiros, que abasteciam o Mercado Central. Tem tráfico de drogas, pessoas transitando, famílias morando”, descreve. O horário das performances, que ocorrem a partir das 10h, convidam as pessoas a viverem essa rua.

O sábado começa com o já tradicional Café de Rua. Na mesa, com 10 metros, tem café coado na hora, pães e bolos. Todas as xícaras foram doadas por moradores. “Ela é colocada como se tivesse dentro de casa. Estou reeditando as histórias que vivi”, explica Thereza. Um chuveiro de lata ainda garante refresco a quem estiver disposto ao banho nostálgico.

Em seguida, os artistas Dudude e Marco Paulo Rolla convidam os transeuntes para a Academia da vassoura, um ritual de leveza. Com piaçavas em mãos, cerca de 50 pessoas vão varrer a rua. “A Dudude tem uma peça musical com a vassoura. Ela tem atração pelo ato de varrer, uma questão de limpeza, mas também simbólica, de ‘entrar no lugar e dar uma varrida’”, explica Marco Paulo.

A ideia, segundo ele, é criar uma ação comunitária, trazer pensamento por meio do ato que limpa as coisas: “Enquanto se varre, há a sensação de organização”. Marco Paulo vai levar um instrumento musical e improvisar um coletivo sonoro com a ação. “Tem essa coisa de levantar poeira”, brinca.

O artista ressalta que o trabalho da ONG tem uma ideia comunitária bonita, que aglutina de moradores de rua a gente da universidade. “Todo mundo é igual lá. É um lugar da bondade, do respeito próprio e da ética humana”, conta.

A programação contará ainda com a ação do Xepa, coletivo artístico formado por Viviane Gandra, Marcelino Peixoto e Luis Arnaldo. O trio vai caminhar por cerca de duas horas no entorno das calçadas, “defumando” a rua. Nas mãos, levarão um balde de água e uma lata de 18 litros com carvão em brasa. Em pequenos intervalos, silenciosamente, eles vão se abastecer de ervas, lavanda, incenso – elementos muito vendidos no comércio ao redor. A violeta genciana vai acalentar o ardor da pele.

A programação se encerra com o Pessoa muito importante, de Marta Neves. “É a tradução do que a gente usa em inglês – VIP – very important person”, diz. Um tapete vermelho é estendido na calçada e as pessoas são convidadas a passar por ele. “É uma homenagem a todo mundo que está na rua. Qualquer pessoa é, obviamente, muito importante”, diz Marta.

A artista participa do projeto Nessa rua tem um rio desde 2011. “É uma ONG maravilhosa, que propõe uma série de projetos diversificados, envolvendo um público amplo. Muitas vezes contando com adolescentes e crianças em situação de risco”, diz. Ela destaca que as oficinas oferecem aos alunos a possibilidade de abraçar a vida, enxergá-la de outra forma e até a chance de profissionalização. “A interação dos artistas com os alunos do Undió é extremamente rica, tanto para os jovens quanto para nós, artistas. Nos alimenta, nos enriquece. Você desce do salto da vaidade e tem esse encontro com o outro”, explica.

Dentro da sede da Undió, na Padre Belchior, 280, o público pode conferir ainda a exposição de pinturas à óleo de Guilherme Bita, artista recém-formado na Escola Guignard.

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