Ganhadora do Jabuti fala sobre "coisas invisíveis" em suas obras

"Fiquei absolutamente surpresa, fiquei surpresa até de estar na final", comenta a escritora Maria Valéria Rezende sobre o prêmio

por Nahima Maciel 30/11/2015 10:55

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Monica Camara/Divulgação
(foto: Monica Camara/Divulgação)
Maria Valéria Rezende nem imaginava ganhar o Prêmio Jabuti. Imersa em afazeres doméstico, em meio a uma reforma de banheiros e os cuidados com duas irmãs octagenárias, ela ficou baratinada quando o telefone começou a tocar incessantemente com pedidos de entrevistas. “Minha vida está uma bagunça, não imaginava esse prêmio, tinha mil tarefas domésticas e nem consigo saber que dia é hoje”, explicou, no primeiro e-mail com o pedido de entrevista. Maria Valéria está mais ou menos como Alice, a personagem que criou para o romance Quarenta dias, eleito o melhor de 2015 pelo júri do Jabuti.

Bem no início, quando começa a narrar a experiência de passar 40 dias incógnita a vagar pelas ruas de Porto Alegre em busca de Cícero, Alice conta que mal sabia quantos dias haviam se passado quando resolveu voltar para casa. Mas a semelhança entre autora e personagem para na desorientação quanto ao tempo. E também aí começam as diferenças. Alice tem tempo de sobra, Maria Valéria tem tempo de menos. Aos 73 anos, a freira da congregação Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho, cuja criação remonta ao século 16, mora em João Pessoa em uma casa com mais três irmãs. Duas necessitam de cuidados especiais, enquanto a outra roda o mundo para tocar a parte administrativa do trabalho.

Maria Valéria abraçou a vida religiosa em 1965 e escolheu uma congregação cuja característica é trabalhar diretamente inserida em comunidades carentes. Formada em pedagogia e letras, em literatura francesa, especializada em educação popular (trabalhou com Paulo Freire) e com mestrado em sociologia, ela lembra bem quando decidiu não ser escritora. Menina, passava em frente à janela da casa da avó, um reduto de intelectuais em Santos (SP), quando percebeu uma reunião cheia de escritores. Ficou com a impressão de estar observando um aquário e decidiu que não ficaria presa àquela situação. Iria correr o mundo. Podia até escrever, e isso era inevitável, mas antes queria ver.

Nascida em família de escritores e artistas, na qual era comum as pessoas escreverem e publicarem livros, Maria Valéria cresceu junto a bibliotecas e máquinas de escrever. “Só quando fui para a escola descobri que todo mundo não escrevia livros. E escrever livros era uma coisa que ia acontecer um dia, assim, nessa vida, assim como com 7 anos eu iria fazer primeira comunhão, com 15 o baile de debutante (que eu não quis)”, conta. Hoje, escrever é coisa que Maria Valéria faz nas horas vagas, quando tem tempo. “Acho engraçado quando ouço entrevistas de escritores, principalmente homens, que têm rotina, acordam às 8h, vão dar uma volta no calçadão de Ipanema, depois se trancam no seu escritório, leem ou escrevem até uma hora, almoçam, descansam, depois se trancam de novo no escritório. Também acho graça quando ouço falar da angústia da página em branco. Para mim, é a angústia da cabeça cheia e de não ter tempo para me concentrar e escrever”, conta a autora.

Entrevista Maria Valéria Rezende

Ficou surpresa com o Jabuti?

Fiquei absolutamente surpresa, fiquei surpresa até de estar na final. Li tudo que estava na final e muita gente que estava inscrita e não entrou nem na final. Não entendo como o Por escrito, da Elvira Vigna, não estava na final. Fiquei meio constrangida, queria dar meu lugar para a Elvira. Li o livro dela em looping, não sei quantas vezes. Ela é uma escritora absolutamente única e genial que o mundo ainda não percebeu o bastante. Como falo pelos cotovelos e ela não fala, levo vantagem, e na camada mais superficial. Poderia citar um monte de escritores maravilhosos que li ao longo da vida e que nunca saíram em lista de prêmio nenhum, então tenho brincado por aí dizendo: “Etelvina, joguei no milhar e deu Jabuti!”. Já estive em júris de prêmios literários e sei que, no final, é por um triz. Chegar à final foi por um triz, e ganhar o primeiro lugar foi por três triz. Não queria estar no juri porque tem tanta coisa bacana. Houve um momento em que todo mundo estava escrevendo a mesma coisa. Eu brincava que estava cheia de ler uma história sobre as lamentações de um jovem jornalista que sonhava ser escritor e estava frustrado porque não conseguia terminar um romance sobre um jovem jornalista que queria ser escritor e estava frustrado. Estou exagerando, evidentemente, mas havia muitas coisas muito parecidas. Agora a gente saiu disso, saiu da prisão, saiu do trilho, desencarrilhou e cada um está escrevendo as coisas mais variadas e diferentes do mundo. Fico feliz com isso. Fico doente quando começam a me perguntar sobre o cânone. Meu deus, quem canoniza é cardeal. Que é isso? Vamos abrir os olhos. Eu ganhei o Jabuti, mas isso significa que meu livro é o melhor? Não. Ele é bom. Ponto. Como tantos outros. Eu não quero que todo mundo pare de ler os outros para ler o meu. Lê os outros, gente! A literatura é para abrir os olhos. Assim como fico feliz ter feito a opção de vida que me permitiu ver o mundo, acho que a literratura tem esse papel, ela está nos nossos olhos e ouvidos e é para isso que ela serve. Se não servir, paro na hora e vou fazer outra coisa.


Por que era importante fazer o percurso de Alice?

Alice é uma pessoa que não é eu de jeito nenhum, uma biografia completamente diferente da minha. E não gosto de escrever a partir de outras literaturas. Eu estou tão cheia, habitada por outras literaturas que eu prefiro fazer um esforço de não me enclausurar dentro do que já li. Eu precisava testar a possibilidade da história que tinha inventado, precisava conhecer essa sensação de se perder em uma cidade desconhecida, eu tive uma chance de fazer isso e fiz isso.

A literatura e a escrita são vistas com bons olhos na congregação? Como eles recebem essa coisa de passar a noite na rua para escrever um livro?


Sim! Nós todas temos essa experiência, eu mesma já passei várias noites na rua porque trabalhava com morador de rua. Fiz a mesma coisa que minhas irmãs fazem, só que para escrever um livro. Um dia um amigo me falou que faltava erotismo nos meus livros. Eu falei: escuta, não tem nada a ver com minha vida, com minha experiência. Além do mais, está sobrando. Por que eu, que nada tenho a ver com esse peixe, teria que escrever sobre isso? Escreve quem conhece isso. Eu escrevo sobre outras coisas que os outros não entendem e entendo eu.

Quais?


Escritor intelectual nunca viveu em favela, em meio rural. Quando nasceu no meio rural ou na favela, fez de tudo para fugir de lá. Essa vida de invisível no meio dos invisíveis foi a que sempre vivi e por isso a imprensa está surpresa se perguntando “de onde saiu essa criatura?”. Do meu canto, eu aprecio o mundo e ninguém me vê. Eu vivi a vida de uma formiguinha que vai nas festas dos grandes e aprecia tudo sem ninguém vê-la. Eu poderia escrever uma falsa autobiografia documentada porque tenho fotos de braços dados com o professor Antonio Cândido, com vários intelectuais brasileiros porque uma vez caí num encontro de intelectuais em Cuba porque estava em intercâmbio lá. Tenho fotografia batendo papo no sofá com Fidel Castro ou numa sala onde está o Gabriel Garcia Marques. E eu não era nada nem ninguém. Estava ali de gaiato. E tenho um monte dessas coisas incríveis. Tem foto minha criança sentada no joelho de JK porque meu avô era fotógrafo do Palácio. Uma das lembranças mais vivas da minha infância é o Cyro dos Anjos. Ele era vizinho do meu avô e ele tinha um filho da minha idade que brincava muito comigo. Fui amiga da Pagú e só descobri quem era ela na adolescência, porque antes era minha amiga, a Patrícia, que sentava na frisa ao lado da minha família nos espetáculos do teatro Coliseu, em Santos.

Hoje, em que momento você escreve, como é tua rotina?


Quando dá. Tenho um romance que vai sair em janeiro. Quando tenho uma ideia, um personagem que se encaixa na minha cabeça e que vem a voz narrativa, aí passo meses no computador até fixar aquele texto, aquela voz, o personagem. Mas aí não tenho tempo de continuar. Eu tinha quatro romances nessas condições. Em 2012, teve uma seleção de patrocínio da Petrobras, eu estava fazendo tradução para fechar as contas em casa porque direito autoral é nada, só 10% do livro que vender. Só JorgaeAmado e Luis Fernando Veríssimo, gente que é bestseller antes de escrever, é que pode viver de direito autoral. Muitos escritores, hoje, vivem de cachê em feiras, bienais e festivais. Mas como sou idosa, moro muito longe, fica mais cara minha participação e pelas mesmas razões pelas quais não posso escrever o tempo todo, não posso mais viajar o tempo todo, então tenho que me virar de outra maneira.

Como assim?

Se a gente não está sempre aí no centro de onde emanam as notícias, a gente fica desconhecida. Depois de escrever esses livros, estimulada por alguns amigos que escreviam infanto-juvenis, escrevi algumas coisas infanto-juvenis porque o trabalho de imaginação, posso fazer em qualquer lugar e o trabalho braçal de passar para o papel é menos custoso porque são mais curtos. O romance é uma coisa que prende você, você tem que zelar pela continuidade e coerência, é custoso.

Você lê muito também…Tem, inclusive, citações de autores brasileiros muito contemporâneos em Quarenta dias...

Leio tudo. As citações dos outros autores que estão dentro do livro não são epígrafes. A protagonista se alimenta disso. E, de vez em quando, tem fraude, porque supostamente ela copiou dos livros nos sebos por onde andava. Tem textos que não são de livro nenhum, foram postagens dos autores na internet.

Por que era importante fazer o percurso de Alice?


Alice é uma pessoa que não é eu de jeito nenhum, uma biografia completamente diferente da minha. E não gosto de escrever a partir de outras literaturas. Eu estou tão cheia, habitada por outras literaturas que eu prefiro fazer um esforço de não me enclausurar dentro do que já li. Eu precisava testar a possibilidade da história que tinha inventado, precisava conhecer essa sensação de se perder em uma cidade desconhecida, eu tive uma chance de fazer isso e fiz.

A literatura e a escrita são vistas com bons olhos na congregação? Como eles recebem essa coisa de passar a noite na rua para escrever um livro?


Sim! Nós todas temos essa experiência, eu mesma já passei várias noites na rua porque trabalhava com morador de rua. Fiz a mesma coisa que minhas irmãs fazem, só que para escrever um livro. Um dia um amigo me falou que faltava erotismo nos meus livros. Eu falei: escuta, não tem nada a ver com minha vida, com minha experiência. Além do mais, está sobrando. Por que eu, que nada tenho a ver com esse peixe, teria que escrever sobre isso? Escreve quem conhece isso. Eu escrevo sobre outras coisas que os outros não entendem e entendo eu.

Quais?

Escritor intelectual nunca viveu em favela, em meio rural. Quando nasceu no meio rural ou na favela, fez de tudo para fugir de lá. Essa vida de invisível no meio dos invisíveis foi a que sempre vivi e por isso a imprensa está surpresa se perguntando “de onde saiu essa criatura?”. Do meu canto, eu aprecio o mundo e ninguém me vê. Eu vivi a vida de uma formiguinha que vai nas festas dos grandes e aprecia tudo sem ninguém vê-la. Eu poderia escrever uma falsa autobiografia documentada porque tenho fotos de braços dados com o professor Antonio Cândido, com vários intelectuais brasileiros porque uma vez caí num encontro de intelectuais em Cuba porque estava em intercâmbio lá. Tenho fotografia batendo papo no sofá com Fidel Castro ou numa sala onde está o Gabriel Garcia Marques. E eu não era nada nem ninguém. Estava ali de gaiato. E tenho um monte dessas coisas incríveis. Tem foto minha criança sentada no joelho de JK porque meu avô era fotógrafo do Palácio. Uma das lembranças mais vivas da minha infância é o Cyro dos Anjos. Ele era vizinho do meu avô e ele tinha um filho da minha idade que brincava muito comigo. Fui amiga da Pagú e só descobri quem era ela na adolescência, porque antes era minha amiga, a Patrícia, que sentava na frisa ao lado da minha família nos espetáculos do teatro Coliseu, em Santos.

Por que escolheu a vida religiosa?


Eu tinha e tenho fé. Sou uma pessoa de temperamento ativo, não posso ver uma coisa mal feita que quero meter a mão para ajudar a endireitar. Vivi o final da minha adolescência num momento de grandes esperanças, vivi a efervescência da igreja, a teologia da libertação surgiu das nossas discussões, o Gustavo Gutierrez, que primeiro forjou esse nome, ele mesmo diz que é resultado das discussões com a juventude católica da América Latina. Eram coisas que entusiasmavam a gente, eram tempos de esperança. Da bossa nova a Paulo Freire, tudo apareceu na segunda metade dos anos 1950 até o final de 1963. Tudo que a gente fazia era com grande entusiasmo, inclusive ter uma opção missionária como era a da juventude da ação católica. É inexplicável. É todo um conjunto de uma circunstância de um momento, de um tempo. Nunca me arrependi.

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