Em montagem do último texto de Shakespeare, Gabriel Villela usa terra de Furnas em objetos de cena

Espetáculo que estreia nesta sexta-feira em BH ainda traz figurinos para evocar náufragos em uma ilha

por Carolina Braga 27/11/2015 08:00

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JOÃO CALDAS/DIVULGAÇÃO
O ator Celso Frateschi interpreta Próspero (foto: JOÃO CALDAS/DIVULGAÇÃO)
O tempo ainda era de universidade para o diretor Gabriel Villela quando em 1984 ele viu uma montagem de Hamlet que o marcou para sempre. No espetáculo dirigido por Márcio Aurélio estava um príncipe até então desconhecido por ele: o ator Celso Frateschi. “É um dos maiores que esse país tem. É de uma potência absurda”, elogia o artista mineiro.


Foi por ter na figura de Frateschi uma referência tão expressiva da arte da interpretação que Villela não duvidou na hora de escolher o ator principal de A tempestade, também de William Shakespeare. Na montagem, que chega neste fim de semana ao palco do Cine Theatro Brasil Vallourec, Frateschi é o protagonista Próspero.

 

Leia entrevista com o ator Celso Frateschi

 

“É uma peça que já fez valer meu semestre”, retribui o ator, referindo-se ao espetáculo que estreou em agosto, em São Paulo. Na temporada paulistana, foi apresentado em formato arena. O público de Belo Horizonte será o primeiro a vê-lo em palco italiano. É a segunda experiência do ator com esse texto. Na primeira, na década de 1980, interpretou o serviçal Caliban. Ou seja, agora muda totalmente de ponto de vista.

Se não restam dúvidas de que a relação entre Villela e a obra de Shakespeare sempre foi muito amistosa, com A tempestade o encenador mineiro vai um pouco além. Não se trata de visitar mais uma vez os escritos do bardo, mas falar de coisas que são relevantes neste momento. “Estava precisando fazer um texto como este”, confessa.

Em tempos de falta de fé na humanidade, o derradeiro texto do dramaturgo inglês se encaixa como uma luva naquilo que Gabriel queria falar. A proposta de montar A tempestade foi feita primeiro aos atores do Grupo Galpão. A trupe de Belo Horizonte, porém, preferiu explorar o italiano Pirandello em Os gigantes da montanha. Villela não desistiu.

Para o diretor, este texto final de Shakespeare realiza um resgate humanista de tudo que ele escreveu ao longo da vida. E Vilella resolveu fazer nesta sua versão da obra um apanhado de seus encontros prévios com a obra do dramaturgo.

MAGO A história de A tempestade se passa em uma ilha habitada pelo duque de Milão, Próspero, e sua filha, Miranda. Depois de ser traído pelo irmão, Próspero foi isolado no local, à força. Mago dotado de poderes, ele “fabrica” uma tempestade e atrai para junto de si todos os seus desafetos.

Embora notável e atemporal, Shakespeare não era tão inovador assim em suas tramas. Em A tempestade, visita temas recorrentes, como amor proibido, vingança, armações. Muito do que o bardo escreveu já virou prato cheio para o encenador mineiro. Desta vez não é diferente. Se em Romeu e Julieta há a fala “barro, esse é teu centro, volta”, aqui, Villela procurou o mesmo caminho.

“Fui atrás desse barro mineiro, como se a gente construísse uma pequena ilhota com aquilo que naufragou”, conta. O Ateliê de Criação (comandado por Villela e pelos artistas plásticos José Rosa e Shicó do Mamulengo) foi para Carmo do Rio Claro e, a partir do barro das águas de Furnas, concebeu as características das montagem.

Foram dois meses e meio construindo os figurinos, tingidos com a terra. O barro é também o elemento constitutivo dos potes de diversos tamanhos que compõem as cenas. Os objetos usados em A tempestade foram desenvolvidos pela Oficina de Agosto, em Bichinho, na Zona da Mata. “A primeira parte é feita com os atores cantando e falando dentro desses potes”, conta Gabriel.

“A peça tem uma magia explícita. Há um lado místico e mágico que o Gabriel também tem, naturalmente”, afirma Frateschi. Para o ator, a excelência de Shakespeare está em sua compreensão da complexidade humana. “Para Shakespeare, a pessoa nunca é má ou boa. Todos são vistos por ângulos completamente diferentes”, diz.

A TEMPESTADE

Montagem de Gabriel Villela do texto de Shakespeare. Com Celso Frateschi. No Cine Theatro Brasil Vallourec, Praça Sete, Centro, (31) 3201-5211. Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h. Inteira: R$ 50 (plateia 2) e R$ 60 (plateia 1).

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