Dandara, símbolo de força da mulher negra, tem a vida narrada em livro

'As lendas de Dandara' é assinado pela escritora e cordelista cearense Jarid Arraes

por Larissa Lins 23/11/2015 09:46

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 Aline Valek/Divulgação
Cercada de mistérios, Dandara participava da resistência do Quilombo dos Palmares. Ilustrações: (foto: Aline Valek/Divulgação)
Todos os anos, no Dia da Consciência Negra - criado em 2003 e instituído nacionalmente, por lei, em 2011 - a figura de Zumbi dos Palmares, morto em 20 de novembro de 1695, é resgatada. A de sua companheira, Dandara, porém, segue envolta em mistérios. Há poucos registros historiográficos que comprovem a existência dela, que teria morrido um ano antes de Zumbi, se jogando de abismo para não se entregar às forças militares que dominaram o quilombo.

Conhecedora das técnicas da capoeira, Dandara teria lutado junto com os negros e liderado as estratégias de administração e defesa do Quilombo dos Palmares, símbolo da resistência africana, para onde fugiram negros durante várias décadas do período colonial. Neste ano, apesar dos registros escassos em torno da heroína, a cordelista e escritora cearense Jarid Arraes decidiu transformar Dandara em livro, ilustrado pela paulistana Aline Valek.

Em As lendas de Dandara (Edição independente, R$ 35), Jarid aproveita o gancho da luta contra o racismo e encoraja, ainda, o empoderamento feminino. A obra, produzida durante um mês, foi lançada em julho passado e mistura dados históricos e ficção. Em dez contos próximos da literatura fantástica, com passagens de fundo sobrenatural, a história da guerreira quilombola é desvendada do nascimento à morte.

“Decidi escrever sobre Dandara quando publiquei um texto falando dela há um ano, em novembro de 2014, e recebi comentários que afirmavam que ela não era nada além de uma lenda. Pensei: se ela é uma lenda, então preciso escrever essas lendas, pois nem isso temos a seu respeito. Temos pouco material sobre ela, alguns controversos que sugerem que ela de fato não existiu. Tudo o que pesquisei tive que procurar bastante por conta própria, pois a escola e a mídia não falam de lideranças negras femininas”, diz Jarid Arraes.

Injustiças sociais comuns no século 17 vêm à tona, como o tráfico humano, a escravidão, o preconceito racial e a opressão de classes. Para a autora, toda mulher negra da atualidade tem muito de Dandara, já que as lutas contra o racismo e contra o machismo continuam atuais. “Quer seja como lenda ou como real líder quilombola, Dandara continua a inspirar coragem e continua a fortalecer a luta das pessoas negras no Brasil, então nesse sentido ela é absolutamente real”, conclui a escritora. Até o fim deste ano, ela lança dez títulos novos em formato de literatura de cordel, incluindo biografias de mulheres negras históricas.

>> ENTREVISTA: Jarid Arraes, autora de As lendas de Dandara

Os contos são baseados em fatos históricos (reais). Mas algumas passagens são imaginadas? Como fez esse levantamento, essa pesquisa para contextualizar os contos no tempo-espaço real, daquela época?
O livro é de ficção, mas baseado nas ações e fatos sobre o Quilombo dos Palmares e Zumbi dos Palmares. O que fiz foi inserir Dandara nessas situações, exercendo a liderança, lutando e se relacionando com Zumbi. Para pesquisar, usei tanto livros didáticos e materiais escolares quanto trabalhos acadêmicos que falam sobre o quilombo. Também tive a ajuda de um babalorixá, que me auxiliou com a representação da espiritualidade de matriz africana, pois no livro há a presença dos orixás, como forma de valorização das religiões afro brasileiras. Então, há trechos que são baseados em situações que o Quilombo dos Palmares vivia, mas também há trechos fantasiosos e bastante imaginativos. Até mesmo mágicos.

A existência de Dandara é cercada de controvérsias. Por que? E para você, qual a versão verdadeira da trajetória dela?
Alguns pesquisadores afirmam que Dandara é um mito, uma espécie de junção de várias líderes negras e quilombolas, como Tereza de Benguela e Luísa Mahin. Outros afirmam que ela existiu, mas que os dados são escassos. Acho que, se não há registros confiáveis sobre ela, isso se deve ao machismo e ao racismo da nossa sociedade, herança de séculos de escravidão - algo que acabou há pouco tempo, se pararmos para analisar a linha do tempo da história do Brasil. Na minha opinião, o fato de Dandara ser contada como liderança, como parte de Palmares, já é algo muito representativo e importante, ainda que sua existência seja cercada de contradições.

Quanto tempo levou para escrever os contos? Quando o livro foi lançado? Qual o preço/editora? Onde pode ser encontrado?
Escrevi o livro em cerca de 1 mês, dedicando atenção total e diária. Foi algo bem intenso. Foi lançado em Julho desse ano de 2015, na Casa de Lua. É uma publicação independente, por isso só pode ser comprado pelo site www.aslendasdedandara.com.br  em versão física e digital. Ele tem 10 ilustrações feitas pela Aline Valek.

Na semana da consciência negra, qual a importância, em linhas gerais, de difundir a imagem de uma guerreira negra, protagonista da própria história?
A maior importância é a da representatividade. Porque assim crianças e jovens negros tem acesso a uma personagem com a qual podem se identificar. E isso é importante para a autoestima e para o pertencimento coletivo tanto quanto para se combater o racismo, pois todas as pessoas ficam sabendo de um lado da história que não é contado. Muitos de nós aprendemos que a população negra se resignava a escravidão e não lutava, mas essa é uma mentira que precisa ser desmascarada. O povo negro sempre lutou e resistiu. Dandara, Zumbi, Tereza de Benguela, entre outras e outros, são provas disso.

O que falta para que os negros sejam, enfim, livres? O que falta, na sua opinião, para desconstruir o racismo, ainda tão presente na sociedade?
A sociedade brasileira precisa admitir o seu racismo, precisa reconhecer as consequências da escravidão até os dias de hoje e precisa se movimentar para combater essas consequências. Sem que o racismo seja reconhecido, não há como combate-lo. As pessoas precisam parar de repetir clichés sobre igualdade e procurar aonde essa igualdade não está sendo efetivamente real. Sem que isso seja feito, o racismo continuará sendo perpetuado. E o racismo gera mortes, sofrimentos reais, resultados terríveis. Evidências, dados, estatísticas não faltam. E também é preciso que a história afrobrasileira seja contada, que seja valorizada, que as pessoas conheçam esses fatos ainda escondidos - assim . rompemos mentiras racistas contadas sobre as pessoas negras.

Alguma mulher real, contemporânea, te ajudou a se inspirar para construir a personagem Dandara?
Para criar a . personagem Dandara do livro, me inspirei nas mulheres negras que lutam todos os dias contra o racismo e o machismo e são verdadeiras protagonistas de um país inteiro, com seu trabalho, força e coragem. Acho que todas nós temos muito de Dandara.

Quem são suas heroínas, pessoalmente?
Minha mãe é minha maior heroína. Mas além dela, cito mulheres como Sueli Carneiro, Lelia Gonzalez, Tereza de Benguela e até as mais jovens como a Malala. São mulheres diversas que transformam o mundo e abrem caminhos novos por onde podemos andar.

Você, como mulher, como escritora, já sofreu algum preconceito?
O racismo e o machismo fazem parte da minha história. Desde os deboches contra o cabelo, até a violência sexual, acho que tenho muito em comum com muitas mulheres que experienciam a discriminação em suas mais variadas formas. No caso da literatura, a pior parte é que nem sempre escrever algo de qualidade é suficiente para obter um espaço e reconhecimento, pois alguns temas e algumas pessoas nem sempre são bem vindos nas editoras e nos eventos literários.   Ainda temos muito o que discutir sobre racismo e machismo no meio literário.

Temas como tráfico humano e escravidão, típicos da época de Dandara, continuam atuais - infelizmente. Como você vê a contribuição de obras engajadas socialmente, para combater esse tipo de mazela?

Acho que a escrita tem um importante papel em promover conscientização e em proporcionar uma experiência de imersão em que os leitores se coloquem no lugar dos personagens e possam compreender as dores e a gravidade de questões de violação de direitos e discriminação. Toda literatura tem impacto social, mas é importante pensar em que tipo de impacto está sendo causado. Uma obra pode naturalizar o racismo ou pode apresenta-lo de uma forma crítica, por exemplo. Eu escolho tentar romper preconceitos porque acredito na responsabilidade social que tenho. Algo que na verdade todos temos, mas precisamos reconhecer.

E quanto ao feminismo, na posição de autora de obra protagonizada por mulher negra e guerreira, percebe que é um tema em crescente debate? Sente que o livro tem encontrado eco por esse viés?
Acho que o livro tem encontrado mais eco pelo vies do feminismo negro e do debate sobre a história afrobrasileira. Infelizmente,  por mais que tenha se debatido mais sobre as mulheres e a literatura, as mulheres que encontram mais escuta e reconhecimento ainda são mulheres brancas, de classe média ou alta, heterossexuais. Ainda é preciso remexer muito no que significa ser mulher e  em quais mulheres têm conquistado espaço no mercado literário para entendermos melhor essas questões. É de fundamental importância que o feminismo sempre tenha atenção para as questões raciais e vice versa, pois uma não pode caminhar sem a outra. Caso contrário, muitas mulheres continuam esquecidas.

E quanto às Dandaras da atualidade, você conhece algumas? Que conselho lhes daria? Algum elogio? Alguma advertência?
Toda mulher negra tem muito de Dandara. Acho que o segredo da coragem e da força está na colaboração coletiva, no reconhecimento das outras como parte inseparável de si mesma, pois juntas nós chegamos muito mais longe.

>> ASSISTA
No vídeo, Jarid narra alguns trechos do livro, enquanto os traços de Aline Valek ganham vida no booktrailer. Confira:

 



SERVIÇO
As lendas de Dandara

Edição independente
Versão impressa: R$ 35
Versão digital: R$ 12

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