Orçamento inibe presença de artistas de mais países em eventos internacionais em BH

Com três mostras internacionais simultâneas na cidade, Belo Horizonte recebe artistas de três continentes, mas limitações de orçamento inviabilizam convites a artistas de países como Índia e África do Sul, contam curadores

por Shirley Pacelli 15/11/2015 12:00

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Fernanda Abdon/Divulgação
Peça da Cia Fusion no Festival Internacional de Dança de BH (foto: Fernanda Abdon/Divulgação )
Da Espanha, vem L’Avar, que problematiza a crise hídrica com teatro de objetos. Dos Estados Unidos, Gail Simone, roteirista de Mulher Maravilha e Batgirl. A França comparece com os passos de Latifa Laâbissi, que faz com uma cortina em movimento um duo no palco. Belo Horizonte é palco nesta semana de três eventos internacionais – Festival Internacional de Teatro de Bonecos (FITB), Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) e o Fórum Internacional de Dança (FID). Juntos, eles trouxeram atrações de 11 países para a capital mineira. Se a crise econômica permitisse, e o dólar e o euro não assustassem tanto a cada conversão, ao menos seis outros países estariam também nessa lista.

O FITB 2015 traz espetáculos da Espanha, Bélgica, Alemanha e Argentina. China e Índia são os países com maior tradição nessa arte. São os grupos indianos os que mais despertam a atenção de Lelo Silva, um dos idealizadores do festival. “A prática está espalhada por diferentes continentes, mas, na Índia, tem maior variedade de técnicas, como bonecos de sombra, luva, vara ou fios”, diz, entusiasmado.

O Vietnã é outro país bastante atrativo aos olhos de Lelo. “É uma manifestação diferente. Não tem tradição, mas é inovador. Os manipuladores ficam dentro da água, e os bonecos emergem”. O problema, segundo ele, é que os grupos têm numerosos artistas. “São, em média, 24 pessoas para viajar. É muito caro para um festival cultural”, explica. Assim, ele se divide entre trazer apenas um espetáculo de impacto ou vários outros mais acessíveis. Outro ponto levado em consideração é a língua. Por isso, Espanha e países latino-americanos são recorrentes na programação.



A intenção de trazer representantes do mundo todo também está presente na curadoria do Festival Internacional de Quadrinhos, que gostaria de contar com representantes dos Estados Unidos, França e Japão, os três maiores mercados do ramo. Nesta edição, o FIQ recebe quadrinistas da Costa do Marfim, de Portugal, do Reino Unido e da Alemanha. A costa-marfinense Marguerite Abouet é a convidada de hoje e vai falar sobre sua experiência de fazer HQs infantojuvenis retratando o cotidiano de cidades africanas. “A gente sempre procura expandir nossa programação. Queríamos mais convidados de outros países africanos e também do Japão. Os quadrinistas japoneses saem pouco do país”, observa Afonso Andrade, criador e coordenador do FIQ.

TRADUÇÃO Dos Estados Unidos, o festival contou com artistas como Jeff Smith (Bone) e Babs Tarr, que reformulou a personagem Batgirl, além de Howard Chaykin, com importante trabalho nos anos 1980. Intérpretes fazem a tradução simultânea (há também em Libras) durante as discussões, e a curadoria privilegia autores que tenham quadrinhos lançados no Brasil.

Se o FIQ contou com um grande número de convidados internacionais, o Festival Internacional de Dança privilegia o trabalho local, especialmente pela falta de verba. Artistas de Ipatinga e Contagem vão dividir a bilheteria em uma forma de economia solidária.

Mesmo diante do desafio, Adriana Banana, idealizadora e coordenadora do FID, conseguiu trazer a BH nomes as francesas Latifah Laâbissi, coreógrafa, e Isabelle Launay, pesquisadora. “A França investe em dança desde meados de 1600, quando se estabeleceu a arte como profissão. Desde então, vem sendo entendida como questão de Estado e eles apoiam as iniciativas”, diz a coordenadora.

Latifah fará quatro apresentações de dois espetáculos diferentes, duas palestras, além de oferecer uma oficina e ser tema de uma mostra na programação do festival. “É a primeira vez dela no Brasil e só vai se apresentar em Belo Horizonte. O Rio de Janeiro gosta de coisas mais palatáveis para o público. O Fórum quer provocar outras percepções nas pessoas, sair da mesmice, ajudar a pensar soluções que não existem, como para a crise financeira. Se não sentir o mundo diferente, não vai propor”, diz Banana.

Do Marrocos, o FID trouxe o grupo liderado pela coreógrafa Bouchra Ouizguen, com o espetáculo Ha!.

A companhia tem também o apoio de um instituto francês. Trata-se de um grupo de mulheres que não segue o modelo de corpo usualmente considerado ideal para dançar – atlético, jovem. “Você consegue ver traços tradicionais, como o molejo da dança do ventre e ombro, mas elas usam isso para propor algo a ser pensado agora: a questão da loucura. É muito diferente, não cai na estética europeia. É violento”, diz Adriana Banana.

Se houvesse verba, o festival contaria ainda com artistas da África do Sul, do Mali e dos Estados Unidos. “Uma passagem da África hoje sai por cerca de US$ 2 mil. Com um grupo de cinco pessoas, fica impossível. O grupo do Camboja eu só trouxe por causa do apoio do diretor do espetáculo, que era de Cingapura”, afirma.

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