Futuro de sombras

Cia. Tàbola Rassa adverte sobre a importância da preservarção da água no espetáculo L'Avar, uma das atrações do 15º Festival Internacional de Teatro de Bonecos de BH

por 11/11/2015 17:03

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Delphine Baumont/divulgação
Delphine Baumont/divulgação (foto: Delphine Baumont/divulgação)
Carolina Braga



Nesses tempos de crise hídrica, a água é tão preciosa quanto o vil metal. A arte imita a vida na adaptação de O avarento, de Molière, que o grupo franco-espanhol Cia. Tàbola Rassa apresenta no Festival Internacional de Bonecos, em Belo Horizonte.

Pela terceira vez, L’Avar estará em cartaz no evento mineiro. Mas agora é diferente, diante da seca que castiga Minas Gerais e do desastre ecológico provocado pelo desabamento das barragens da Samarco em Bento Rodrigues, em Mariana, envenenando a bacia do Rio Doce.

L’Avar lança mão da técnica chamada teatro de objetos. Torneiras contracenam com canos e bacias – são 25 “coisas” que têm em comum a relação com a água. “Quando começamos a trabalhar o texto de Molière, resolvemos fazer essa metáfora. Mas encontramos muitas dificuldades em trocar o dinheiro pela água”, revela o ator e diretor Olivier Benoit, criador da Tàbola Rassa.

Trechos do original de Molière foram suprimidos. Para adaptar a história ao mundo contemporâneo, Olivier Benoit e Miguel Gallardo se desdobram em 11 personagens. L’Avar já foi apresentada cerca de 500 vezes na Espanha, França, Portugal, Croácia, Suíça, Canadá e República Tcheca, entre outros países. Na terceira temporada em BH, as mudanças serão imperceptíveis para o público. “Sempre muda um pouquinho, porque a peça tem que continuar viva”, diz Benoit.

L’Avar estreou em 2003. “Na arte, muitas vezes a ideia vem de uma intuição ou de uma imagem. Certo dia, o Jordi Bertran, que participou da criação com a gente, estava em um estádio de futebol e viu uma torneira gotejar na grama. Naquele momento, ele lia O avarento e pensou que poderia ser interessante juntar as coisas”, conta o diretor.

Esse foi o primeiro espetáculo da Cia. Tàbola Rassa. Em 2006, o grupo estreou Fábulas, de La Fontaine, usando outra metáfora contemporânea: o reaproveitamento do lixo. “Criar uma peça é tão difícil que é preciso ter obstinação e convicção muito grande para tal. Esses temas são primordiais. Tanto a escassez de água quanto o problema do lixo me dão medo sobre o futuro dos meus filhos. É o que posso fazer enquanto artista”, diz Benoit.

O criador da  Cia. Tàbola Rassa é pragmático em relação a seu ofício.“Se você esperar a superideia, não vai conseguir. Pouco a pouco, a pepita de ouro aparece”, resume. A cada nova apresentação de L’Avar, espetáculo baseado no clássico de Moliére, ele tem mais certeza disso.

PARCERIA

O francês tem uma relação de amizade e afeto com o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte. Foi na cidade, em 2006, que ele conheceu a mulher, a bonequeira Maria Cristina Paiva, integrante da carioca Cia PeQuod. “Até procuramos umas terrinhas por aí”, revela Benoit, que mora na cidade francesa de Montpellier.

Assim como no Brasil, viver de arte na França não é fácil. Há mecanismos oficiais de incentivo, mas eles são direcionados para a manutenção dos equipamentos culturais, conta Benoit. “Em tempos de crise, grande parte dos recursos é absorvida pela infraestrutura. Não sobra para o artístico”, lamenta.

Como estratégia para formação de público, a Tàbola Rassa investe em temporadas em Paris. “O contexto do teatro mudou em todo o mundo. Há cada vez menos dinheiro, as turnês são menores, está cada vez mais difícil. Tentamos sobreviver”, conclui.

CLARICE E A SOLIDÃO
Atualmente, Olivier Benoit se volta para a técnica de sombras. Todas as vezes que faz L’avar, o diretor se dá conta do quanto o teatro de objetos ficou ultrapassado. “Sombra é muito contemporânea, mas é difícil”, assegura. O próximo espetáculo do grupo, com o nome provisório de A janela, é uma leitura por meio de sombras da obra de Lispector. “A solidão é o que nos interessa. É uma aposta um pouco louca”, diz Benoit.

L’AVAR
Com Cia. Tàbola Rassa. Hoje e amanhã, às 20h. Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil. Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

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