Exposição revela como a capital mineira absorveu e reinventou o modernismo

Mostra na Galeria de Arte do Minas Tênis Clube retrata a maneira como a capital definiu suas próprias características

por Walter Sebastião 10/11/2015 08:30

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Minas Tenis Clube/Divulgação
(foto: Minas Tenis Clube/Divulgação )
A primeira peça da exposição Horizonte moderno é a planta de Belo Horizonte, criada por Aarão Reis (1853–1936) com a equipe que construiu a nova capital de Minas Gerais. A última, a escultura Pampulha, de José Pedrosa (1915–2002). Uma, explica a curadora Fabiola Moulin, sinaliza a modernidade da ideia de sonhar com a cidade planejada; outra, ícone de cultura inovadora cuja influência perdura até hoje.


Entre um ponto e outro, 300 itens (fotos, desenhos, pinturas, documentos, vídeos, publicações, esculturas etc.) vindos de mais de três dezenas de acervos, a maioria públicos, e entre eles o do jornal Estado de Minas, reunidos em um panorama da formação, desenvolvimento e consolidação da cultura modernista dos anos 1920 aos 1940. A exposição fica aberta à visitação pública até 14 de fevereiro, na Galeria de Arte do Minas Tênis Clube.


Várias frentes A proposta, explica Fabiola Moulin, é revelar o quanto a modernidade, em Belo Horizonte, foi sendo construída aos poucos, e a cada momento se manifestou em uma determinada área da cultura. Nos anos 1920, exemplifica, quem puxou a fila a favor da inovação estética foi a literatura. Carlos Drummond, Ciro dos Anjos e Achilles Vivacqua, entre outros, integraram grupos que colocaram em discussão as novas tendências e a necessidade de atualização, em um contexto que consideravam conservador. Sinalizando tal momento, a exposição traz o manuscrito do livro Alguma poesia, o primeiro do poeta itabirano, e correspondências da turma, buscando alianças com outros criadores com a mesma ambição, do Rio de Janeiro ou de São Paulo.

O modernismo, nos anos 1930, continua a curadora, ganharia um arauto poderoso: os artistas gráficos que atuavam em publicações, fazendo ilustrações, anúncios e cartazes. “Autores como Monsã, Érico de Paula e Delphino Júnior produzem trabalhos cujo arrojo ainda hoje surpreende. Mais ousados do que o feito pelos artistas plásticos”, observa Fabiola Moulin. A contribuição de pintores e desenhistas, recorda, vem com a realização do Salão do Bar Brasil, em 1936, no subsolo do Cine Brasil. “Provocando polêmica, questionaram velhos modelos e trouxeram discussões sobre a necessidade de outros modos de apresentar e desenvolver as artes”, explica.

Quem traria as bossas novas modernas para o espaço público seriam os arquitetos, a partir dos anos 1940. “O caminho se consolidou com o surgimento da Pampulha, de Oscar Niemeyer, cuja criação projetou Belo Horizonte no Brasil e até internacionalmente”, recorda Fabiola Moulin. É dos anos 1940 outro evento que deu muito o que falar: a 1ª Exposição de Arte Moderna (1944), curadoria de Alberto da Veiga Guignard, realizada no Edifício Mariana, a maior no gênero no Brasil desde a Semana de 1922.
“Imaginamos que o modernismo foi produto de processo coerente, sem rupturas, mas as coisas não foram bem assim. O surgimento e consolidação do moderno, em Belo Horizonte, foi sendo construído pouco a pouco”, explica Fabiola Moulin. Apesar das lacunas e da descontinuidade, o modernismo, como explica a curadora, marcaria decisivamente a vida cultural da capital. “Inclusive com desdobramentos importantes”, observa. “Gerações posteriores aos pioneiros vão tomar o realizado como referência e, seja prolongando questões ou se contrapondo a elas, fundando o campo artístico e cultural expressivo que Belo Horizonte tem hoje”, conta.

Deve-se a isso, por exemplo, a criação de uma escola livre por Guignard. “A história do modernismo em Belo Horizonte é só parcialmente conhecida, até porque temos poucas exposições que se voltam para colocar em destaque esses aspectos. À medida que as pesquisas avançam, vão sendo descobertas coisas surpreendentes”, continua Fabiola Moulin. “Precisamos adensar essa história”, defende.

Destaques e detalhes

 

A mostra Horizonte moderno vai apresentar a obra mais polêmica da história das artes visuais da capital de Minas Gerais: O galo, de Portinari. A pintura foi a peça mais discutida da 1ª Exposição de Arte Moderna (1944). Imagem com composição tão insólita, provocativa, que levou um jornalista a batizá-la de Olag (“galo” de trás para frente). A curadora Fabiola Moulin apontou outros destaques da mostra.

Ilustrações

“Quase ninguém sabe que Pedro Nava, além de um importante memorialista, foi também artista plástico. Em páginas em branco de uma edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, fez ilustrações para o texto. Desenhos que impressionam pela ousadia do gesto, da cor e a visualidade vibrante com que ele traduz um dos grandes livros da cultura brasileira.”

Arquitetura
“Os prédios da prefeitura ou dos Correios, de Raffaello Berti, o Cine Brasil, de Ângelo Murgel, ou o do Minas Tênis Clube, parceria de Raffaello Berti e Luiz Signorello, são muito interessantes. Passamos por eles sem perceber o quanto são inovadores. Marcam rompimento com cultura arquitetônica que começou com construções neoclássicas e ecléticas que vai criar base para a realização do conjunto da Pampulha.”

Revistas
“As ilustrações feitas por Monsã, Érico de Paula e Delphino Júnior para as publicações da época eram muito arrojadas. Revelam o quando as artes gráficas tiveram um papel de protagonismo na afirmação da cultura modernista. Selecionamos para a exposição 17 revistas e quatro cartazes. E é pequena parte do muito que existe.”



HORIZONTE MODERNO

Exposição de fotos, desenhos, cartazes, revistas, esculturas, pinturas, documentos e vídeos com curadoria de Fabiola Moulin e Marconi Drummond. Na Galeria de Arte do Minas Tênis Clube (Rua da Bahia 2.244, Lourdes), de terça-feira a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 11h às 19h. Até 14 de fevereiro. Entrada franca.

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