Tragédia em Bento Ribeiro ofusca brilho do Fórum das Letras de Ouro Preto

Apelos por doação de água para beber emocionaram os participantes, mas programação seguiu normalmente

por Carolina Braga 09/11/2015 08:58

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Eduardo Tropia/Divulgação
"É difícil lidar com uma tragédia, porque ela deixa a questão emocional em primeiro plano. O humor não sobrevive nessa atmosfera", afirmou a cartunista Laerte, sobre a tragédia em Bento Ribeiro. (foto: Eduardo Tropia/Divulgação)
Se Ouro Preto já tem ar melancólico e triste, o olhar dos moradores, no fim de semana, reforçou esse sentimento. Seja na conversa dos taxistas no ponto, à espera dos passageiros, no caixa do café ou no atendimento às mesas, a tragédia de Bento Rodrigues, distrito da vizinha Mariana, já é um triste capítulo da história da cidade e de Minas Gerais.

“Quando cheguei para dar aula na sexta-feira, o assunto do primeiro horário era somente esse. Fiquei surpresa com a maturidade dos alunos de 11, 12 anos. Um deles me perguntou se o que a gente estava vivendo poderia ser comparado ao atentado às Torres Gêmeas”, contou Lussandra Barbosa, que dá aulas em Ouro Preto. Guardadas as devidas proporções, para uma criança do interior de Minas, nunca houve nada tão dramático. “O povo está bem comovido”, revelou Lussandra.

Se não fosse a avalanche de lama que avança por Minas Gerais e Espírito Santo,a literatura seria a estrela na cidade histórica.Porém,o Fórum das Letras terminou ontem em meio a estranha sensação de vazio. Por mais de uma vez, Guiomar de Grammont, coordenadora-geral do evento, solidarizou-se com os vizinhos, reforçando apelos por doações. “Fico até emocionada de dizer isso, mas eles estão pedindo água”, disse ela, antes de ler os nomes das repúblicas engajadas na onda de solidariedade. A reação mais explícita e passional veio da plateia. Na sexta-feira, o antigo cinema ouro-pretano foi tomado por vaias assim que o nome da mineradora Samarco, responsável pelas barragens da tragédia, foi citado entre os patrocinadores do Fórum das Letras.

Com temas determinados há meses, as mesas de debate não trataram de Bento Rodrigues. Mas a tragédia sensibilizou os convidados. “Nessas horas, não reajo como artista, mas como ser humano. Tem gente que está em situação de grande sofrimento e ansiedade, não sei como ajudar. Às vezes, é possível contribuir
com as ferramentas que tenho”, afirmou a cartunista Laerte ao Estado de Minas. Como charge é um comentário político, neste momento ela ainda não vê como poderia abordar o caso Bento Rodrigues por meio de seu traço.

“É difícil lidar com uma tragédia, porque ela deixa a questão emocional em primeiro plano. O humor não sobrevive nessa atmosfera. Ele precisa da ausência desse tipo de afeto.O humor se realiza dentro do que a gente pode entender como frieza.É puramente intelecto”, explicou Laerte.

DIVERSIDADE

Durante o Fórum das Letras, discutiu-se diversidade sexual, liberdade de expressão, ditadura, jornalismo, dramaturgias de
espaço e as diversas formas de expressão da criação literária. Passaram por Ouro Preto os escritores Conceição Evaristo, Sérgio Abranches, Marcelino Freire, Roger Mello, Miriam Leitão, Paulo Markun e Leonardo Sakamoto, entre outros.

Laerte foi a campeã de público. Na mesa conduzida pelo jornalista Fernando de Barros e Silva, sábado à tarde, ela evitou o tom de militância ao falar sobre a causa transgênero. A conversa passeou por temas políticos, sobre o papel do humor na charge e até avançou sobre certas intimidades.

“Ainda tenho um pânico interno: não tenho namorado público. Sei e reconheço esse problema. Isso tem a ver com a forma de me
entender publicamente”, disse a cartunista, duranteopainel que lotou o Cine Vila Rica. Laerte Coutinho, que assumiu sua identidade feminina em 2004, evitou ser didática por acreditar que isso “endurece o trabalho”, mas explicou bem as diferenças entre gênero e sexualidade. “Não criei um movimento. Entrei em um bonde que já estava andando”, destacou.

Um dos atritos da cartunista com militantes da causa trans é o pronome. Ela prefere ser tratada no feminino, mas não faz tempestade se alguém solta “o Laerte” sem querer. “Minha mãe me chama no masculino. Não vou cobrar isso dela”. Aliás, dona Lila, que completará 90 anos em dezembro, surgiu na conversa várias vezes. Quando telefonou para a matriarca para contar sobre a reportagem prestes a ser publicada, na qual revelava o gosto por se vestir como mulher, Laerte ouviu: “Tenho vários vestidos para você”.

A cartunista descarta a possibilidade de ocupar cargos públicos. Sobre o trabalho, diz acreditar no império da imperfeição. “Ainda estou fazendo mudanças. O século 21 trouxe experiências para os quadrinhos que realmente são uma novidade, não a simples evolução”. E confessa usar os próprios personagens como ferramenta de prospecção. Hugo, que se transforma em Muriel, é alterego da cartunista. “Uso os dois para falar de coisas um pouco custosas para mim”, explica.

KAOS

Filosofia e atitude não faltaram à participação da dupla Jorge Mautner e Jards Macalé no Fórum das Letras, que foi aberto na quarta-feira. Era para ser uma conversa regada a música. E começou assim, comos dois no palco. À medida que Mautner defendia seu discurso ufanista sobre o Brasil e o conceito de kaos, Macalé observava. Em certo momento, o violonista desceu do palco e deitou junto da plateia. “O som não está bom, então prefiro ouvir o mestre”, explicou. Mautner falou sobre ditadura, as infinitas possibilidades da vida contemporânea e sobre rap. “Rap é poesia e filosofia
cantadas. Maravilhoso”, elogiou.

Depois de quase duas horas, Macalé cedeu à pressão e voltou ao palco, com seu violão. “Vocês tiveram uma aula de genialidade, então fiquem nessa”, disse, desculpando-se por não aprovar a qualidade do som no Cine Teatro Vila Rica. Mautner respondeu, interpretando, acapela, Eu não peço desculpas, parceria com Caetano Veloso. O duo cantou mais três – entre elas, Juízo final, de Nelson Cavaquinho. Passadas pouco mais de 24 horas da tragédia de Bento Rodrigues, ecoou na melancólica Ouro Preto o belo samba. Ele diz assim: “O sol/ Há de brilhar mais uma vez/ A luz/ Há de chegar aos corações”.

*A repórter viajou a convite do Fórum das Letras de Outro Preto

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