Dezoito pessoas se revezam para marcar os minutos do dia em ''relógio vivo'', em BH

Obra de Mark Fromanek integra exposição de arte alemã no CCBB e intriga o público

por Shirley Pacelli 07/11/2015 08:00

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MARCOS VIEIRA/EM/D.A.PRESS
(foto: MARCOS VIEIRA/EM/D.A.PRESS)
17:54. De capacete, luvas e botas, a equipe já se posiciona para pegar a escada. “Cinco!”, grita a “encarregada” da vez. Os artistas plásticos, vestidos como operários, trocam as tábuas de madeira, de forma quase automática, e atualizam o relógio “digital” em tempo real. Standard time (2008, 2014), do alemão Mark Formanek, é uma instalação artística em contínua construção. A obra integra a exposição Zeitgeist – A arte da nova Berlim, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte. A curiosa “apresentação” será realizada nos fins de semana, das 9 às 21h – sem interrupção – até 11 de janeiro.

Muitas pessoas que chegam ao pátio do prédio do CCBB, na Praça da Liberdade, pensam que se trata de uma obra, no sentido de construção civil mesmo. Outras chegam a perguntar: o que aconteceu no ano 1856? Como as tábuas que formam a instalação (de 4m x 12m) são da mesma cor das paredes do pátio da instituição, parte do público demora a perceber que se trata de um relógio gigante e artesanal. “Vi duas vezes e perguntei o que era. Achei que estavam montando um palco”, diz a publicitária Rejane Carvalho, em companhia dos filhos Mateus, Ian e Alice.

“Demorei 5 minutos iniciais para entender. Mas é superlegal”, opina Felipe Campos, universitário de 20 anos. “Fiquei chocada com as pessoas o dia todo fazendo isso. É um dos pontos altos da exposição”, diz a estudante Mariana Patrus, de 21. Os dois, ao lado de outros amigos, chegam a se questionar se o grupo estaria atuando ou trabalhando. “Ah lá, ele está fazendo ioga. Qual é a conversa que rolou com eles? Vamos entender o propósito”, afirma Felipe.

Para o alemão Alfons Hug, curador da exposição, o tempo construído por Formanek nessa obra é um misto de instalação e performance e sugere a volta consciente às formas artesanais de produção. “Na tentativa de construir cada minuto fazendo uma montagem com tábuas, os operários de Standard time estão sempre à beira do fracasso. Trata-se de uma contagem do tempo que, diariamente, procura lançar, de forma precária, uma ponte entre o passado e o futuro e, ainda assim, precisa ser atual. Um único erro iria interromper para sempre o inexorável fluxo do tempo”, analisa.

Hug observa ainda que, sutilmente, Formanek faz alusão às diferentes noções de tempo na terra dividida de Berlim. “No leste socialista, sobrava tempo, mas faltava bem-estar, no lado ocidental, ocorria justamente o contrário.”

O curador comenta que, em 2012, teve oportunidade de visitar o relógio mais antigo das Américas, na Catedral de Comayagua, antiga capital de Honduras. Ele conta que a peça construída pelos árabes na Andaluzia, 1 mil anos atrás, é mais moderna que o relógio artesanal de Formanek, que é de hoje. “Mais uma vez, a arte contemporânea funciona como máquina do tempo que une o presente com épocas remotas”, diz.
 

'Escravos do relógio' recebem aplausos

 

“Você tem um minuto para a entrevista”, diz, em tom de brincadeira, Artemis Garrido, responsável por ficar de olho na hora e controlar o timing da equipe para a troca. O trabalho é feito por 18 pessoas, divididas em duas turmas, das 9h às 15h e das 15h às 21h. Cada pessoa tem direito a apenas 20 minutos de lanche/respiro por turno. A turma da manhã é formada por profissionais de montagem de palco, e a da tarde, por estudantes de arte da Escola Guignard.

Há um rodízio das funções dentro do grupo: o que troca a tábua, o que fica com o olho grudado no display do vídeo da obra original esperando o minuto seguinte e aqueles que seguram a escada. Eles tiveram apenas um dia para fazer um “ensaio” da performance, que se resume à descoberta da melhor técnica para executar o serviço no tempo exato. Com a prática, já determinaram as trocas simples, que demandam pouco esforço e abrem espaço para alguns segundos de descanso: 5 para o 6, 2 para o 3, 8 para o 9 e 29 para 30.

Enquanto atualizam as seis horas que lhes cabem, minuto a minuto, eles escutam os mais diversos comentários do público. “Processem o CCBB por questões trabalhistas!”; “Escravos do tempo”; “Qual é a proposta?”; “O encarregado vai ter problema: a obra nunca acaba. “Muitos visitantes se sentem constrangidos, angustiados e até irritados com a ação contínua. “Teve um cara que quis pagar o minuto”, lembra Artemis.

O grupo é unânime ao afirmar que as crianças se envolvem mais com a obra do que os adultos. “Vocês vão dormir?”, questionam os pequenos, preocupados. “Eles acreditam que nós somos o relógio mesmo”, diz a artista plástica. Já os adultos, sem ter conhecimento do sistema de rodízio, sempre julgam o observador do display como o chefe preguiçoso da obra.

“É uma experiência filosófica, sobretudo. Muito existencial. Lida com questões de tempo e trabalha o emprego do corpo em sua maior potência”, afirma Arthur Camargos, um dos integrantes da trupe.

Segundo Artemis, uma segurança do local até se arrepia ao observar a instalação. “Ela tem a impressão de que o trabalho dela demora um século para passar”, diz. A jovem relata que, de tão concentrados em fazer o novo número, eles se esquecem da passagem dos minutos em si. “Só na última hora que a gente fica meio louco – situação de exaustão. Todo mundo que trabalha no CCBB aplaude no último minuto”, conta.

Luana Vitra, de 20 anos, também integrante da equipe, diz que há uma abstração do número enquanto hora. “Você tem que fazer o 6 e faz. É assustador chegar ao fim do dia e ver que passou por todos os minutos e não se deu conta”, diz.

Sobre a passagem invisível das horas, Alisson Damasceno, de 33 anos, afirma que é bom refletir a respeito desse “mal”. “É muito fácil pensar nas próprias questões e ficar no automático. O trabalho faz isso com a gente. Aqui somos livres para conversar. E quem não tem esse espaço?”, reflete.

19:07. Fim da entrevista e os operários do tempo têm mais uma hora e cinquenta e três minutos de trabalho pela frente.

 

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