Ronald Polito exibe estilo vigoroso em novo livro de poemas

'Ao abrigo', sexta obra do mineiro, chega às livrarias neste sábado

por André Di Bernardi Batista Mendes 07/11/2015 08:00

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Reprodução/Arquivo pessoal
(foto: Reprodução/Arquivo pessoal)
Depois de Solo (1996), Vaga (1997), Intervalos (1998), De passagem (2001) e Terminal (2006)
, Ronald Polito volta à cena literária com o ótimo Ao abrigo (Editora Scriptum). Polito apresenta uma poesia diferente, forte em todos os sentidos, vigorosa. Oferece um livro rigoroso, no bom sentido da palavra, cuja linguagem poética aceita e acata as vertigens dos atritos que só a vida, uma vida feita de fogo, pode produzir.

Polito mostra uma face neutra, postura um tanto cética, mas longe do negativo. O poeta mostra indiferença, uma indiferença que pode ser sinônimo de armadilha. Quando menos se espera, surge o bote certeiro e tudo muda – Polito instaura um novo estatuto, um novo jeito de olhar para tudo e para todos.

A poesia é frágil? A poesia de Polito apenas se mostra frágil. Como o samurai, que, sem ostentar, fulmina sem piedade. Toda poesia tem uma espécie de fragilidade, mas fragilidade perigosa, astuta – até nas pedras mora um fogo vivo. O poeta exibe um lirismo peculiar, mostra uma economia verbal e nominal do sujeito que se vê diante de poucas saídas. É a partir desses entraves que surge o movimento, fazendo o jogo de abrir e fechar muitas e tantas janelas. O poeta fala sobre o nosso momento, sobre a aridez de tudo: do vento, das relações, da falta. Polito fala de política, mas sem chatos e desnecessários engajamentos.

Poetas são arco e flecha reunidos no mesmo assombro, sem itinerários. Sempre precário, o poeta é o alvo perfeito. Isso porque existe a fúria dos cães: “Por mais que caminhasse, estava sempre no centro absoluto do horizonte à sua volta.” As formas simples, manhãs, horizontes, pausas, trilhos, o poeta se coloca à disposição delas. Coloca-se feliz/ triste, alegre/ desesperado, à margem do próprio poema, pois sabe que com certas imensidões não se pode, ou não se deve, brincar.

O poeta, então, situa-se, sempre sitiado de si mesmo, desadornado de aflições e dúvidas, desandado de ensejos, atiçado de intuições que o levam na direção da concisão, do dizer apenas o necessário – e não mais que isso.

Algo como essa disposição, “paraíso acordado/pouso de pluma// uma boca entre uma boca/aconchego de bruma// a linha do horizonte nas mãos/o sono do sonho//um instante pacificado e outro”. É forte e interessante o estilo de Polito: “A paisagem começa a partir deste ponto./Um risco no ar, linhas que se/cortam, diferem, somem. No plano,/píncaros, rugas, acidentes, evasões./Aceleradas sombras sem teto./Um vento fora de seu elemento,/poeira contra qualquer materialização,/restos de arcabouço./E, acima, a visão não pousa./Explosão do escuro.”

Poesia e poetas são sinônimo de falta e abrigo. Existem poucas e mínimas saídas, parcas válvulas de escape, janelas. A poesia de Ronad Polito penetra e reverbera nesses cantos e brechas escuras, pouco iluminadas. O abrigo, a casa sugerida, eis a questão, é um sítio de perigos onde cresce, como fogo, a poesia. “Posto da superfície./Passo da superfície. Este lugar pode levar a este lugar.”

Ronald Polito, formado em história, tem mestrado sobre a obra do poeta árcade Tomás Antônio Gonzaga. Foi professor por três anos na Universidade de Tóquio e traduziu 15 livros, incluindo três obras de Joan Brossa, um dos nomes mais importantes da poesia catalã.

AO ABRIGO
• De Ronald Polito
• Editora Scriptum
• 54 páginas, R$ 35
• Lançamento hoje, às 11h, na livraria Scriptum (Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi). O livro será vendido a R$ 30 no local. Informações: (31) 3223-1789.

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