'Back to black': Lápis de cor volta para estojo com freio na febre de livros para colorir

Fenômeno multicolorido recuou até praticamente o mesmo patamar de antes de provocar frenesi em milhares de pessoas

por Fellipe Torres 03/11/2015 10:03

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(foto: Diulgação)
As estantes, displays e vitrines das livrarias já estão com lugares reservados para uma nova leva de livros de colorir. Sim, eu sei, mais uma. Vêm aí, em preto e branco, Harry Potter, robôs, aventuras submarinas, bonecas, supercarros, trens, ônibus, veículos de trabalho, Turma da Mônica, exemplares temáticos para cada signo e até desenhos de moda da fashionista Constanza Pascolato. Quem também parece ter chegado tarde demais para aproveitar a onda foi a Companhia Editora de Pernambuco, com o lançamento de dois volumes com imagens representativas da história do Brasil. Você leu certo, tarde demais.

Levantamentos feitos pelo Viver junto à Nielsen e ao portal PublishNews, principais institutos de monitoramento do mercado editorial, mostram como o fenômeno multicolorido recuou até praticamente o mesmo patamar de antes de provocar frenesi em milhares de pessoas. Para ser mais preciso, o mês de outubro foi tão interessante para os livros de colorir quanto o de março deste ano, antes de iniciar o boom. Ou seja, quase nada. Neles, foram vendidos, respectivamente, 29 mil e 22 mil exemplares, enquanto no auge da mania dos lápis de cor esse número alcançou 562 mil unidades, o correspondente a mais de R$ 160 milhões.

De abril a setembro deste ano, o mercado editorial viu nos livrinhos de gravuras um bote salva-vidas para não afundar na crise. Em comparação com o mesmo período do ano passado, os livros de colorir seguraram as pontas de todos os outros gêneros. Enquanto as demais categorias tiveram quedas significativas, a categoria “não ficção trade”, cujos critérios abrigam as obras a serem coloridas, subiu 14,5%. O número representa 28,65% de participação no faturamento.

Independentemente da qualidade (ou da falta dela) das publicações, o crítico literário pernambucano e mestre em literatura, Cristiano Ramos, acredita em um movimento natural do mercado. “Há uma questão crucial a ser pensada. Ficamos buscando ‘vilões’ para o desinteresse dos leitores em relação à alta literatura (ou tradicional, canônica), mas o mesmo vale para livros de aventura ou eróticos. Há outros espaços para serem explorados”.

Para Cristiano, é importante lembrar o fato de oscilação na popularidade dos livros de colorir não terem, a priori, afetado em nada a vendagem dos livros de “alta” literatura. “Esses milhares de pessoas não deixaram, necessariamente, de ler grandes clássicos para comprar obras de colorir. Assim como os livros eróticos estão desaparecendo, o lápis-de-cor também não é um vilão”. 

Segundo o levantamento Painel das Vendas de Livros no Brasil, do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e da Nielsen, cuja análise levou em conta 175 obras de colorir, o nicho ainda era insignificante até março deste ano, quando o volume de publicações dessa natureza possuía “representatividade” de 0,69% do mercado. O boom começou em abril (7,32% 1,5 milhões de exemplares vendidos), atingiu o auge em maio (17,61%, 3,5 milhões), teve ligeira queda em junho (11,9%, 2,5 milhões) e, no mês seguinte, retornou à casa dos 7% (menos de 1,5 milhões). O faturamento acompanhou a variação (veja gráfico). Dados mais recentes ainda não foram divulgados.

A febre se traduziu também nas listas de mais vendidos do portal Publishnews, especializado em mercado editorial. Em março, apenas um livro (Jardim secreto, de Johanna Basford) figurava entre os best-sellers da categoria não-ficção. Depois, veio a enxurrada: abril (seis), maio (11), junho (oito), julho (nove). Após o período analisado pela Nielsen, a queda é notável: agosto (três), setembro (três), outubro (dois).

+ aspas 
Dizer que é terapia é exagero. A atividade proporciona efeitos terapêuticos. Enquanto colore, a pessoa concentra a energia em uma coisa prazerosa para ela, desfocando, assim, a atenção dos problemas”. 
Fabrício Ribeiro, psicólogo

Minha questão é apenas conceitual: caderno de atividades não é livro. Logo, não deve estar na lista de mais vendidos.” 
Carlos Andreazza, editor-executivo da editora Record

Oxalá mude. Amanhã será livro de sudoku. Passatempo  mais inteligente, não?”
Pedro Herz, diretor-presidente da Cultura

Pintava os ‘101 Dálmatas’ de cores vibrantes, nunca os deixava brancos”
Rafaella Machado, editora do selo Galera 

A impressão é que o que for lançado vai vender. E bem”
Ibraíma Tavares, editora-executiva da Alaúde.

A necessidade de afirmar uma ‘maioridade intelectual’ contra livros de colorir, Romero Britto e ‘BBB’ prova que nunca chegamos a ela. Colorir não vai nos fazer mal...”
Alexandra Moraes, jornalista e autora 

As pessoas não se infantilizaram. Elas estão angustiadas. Ora, colorir deixa a cabeça solta. É como ir ao concerto ou fazer tricô feito as mulheres de antigamente”
Jorge Forbes, psicanalista


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