Fórum das Letras de Ouro Preto começa nesta quarta-feira

No evento, Ouro Preto deve oficializar sua intenção de participar de rede internacional de cidades que oferecem refúgio para escritores perseguidos

por Walter Sebastião 03/11/2015 09:00

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EDUARDO TRÓPIA/DIVULGAÇÃO
(foto: EDUARDO TRÓPIA/DIVULGAÇÃO)
Afirmando a diversidade cultural e a liberdade de expressão, começa amanhã a edição 2015 do Fórum das Letras de Ouro Preto. “Vivemos um momento crucial da história, em que é preciso trabalhar ativamente pela paz”, afirma Guiomar de Grammont, coordenadora do Fórum. A esperança, diz ela, é que mais conhecimento das narrativas elaboradas por culturas distintas instaure a possibilidade de um mundo mais harmônico.


“Estamos realizando um festival com atrações para todos os públicos”, diz Guiomar. A programação registra desde uma homenagem a Graciliano Ramos (1892-1953), com uma mesa sobre o escritor, no dia da abertura, até a aula-show Neurônios Saltitantes – Conversa sobre Vida, Música e Poesia, que reunirá na sexta-feira os músicos Jorge Mautner e Jards Macalé.
A síntese do eixo buscado por esse Fórum das Letras, segundo sua coordenadora, ocorrerá também na sexta, com o anúncio de que Ouro Preto passa a ser a primeira cidade da América Latina a integrar a Internacional Cities of Refuge Network – Icorn (Rede Internacional de Cidades Refúgio). Trata-se de um programa de abrigo a escritores ameaçados de morte e tortura ao qual a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) decidiu se associar.


Na opinião de Guiomar, a iniciativa da universidade é uma homenagem a Tiradentes e aos poetas árcades ouro-pretanos que sofreram com perseguições da Coroa portuguesa. Como primeira ação concreta do acordo, em 2016, a cidade abrigará durante quatro meses o etíope Girme Fantaye, poeta e jornalista que enfrentou perseguições do governo de seus país depois de criar um jornal de debates.

RELAÇÃO DIRETA O Fórum das Letras, assim como outros eventos literários, observa o escritor pernambucano Marcelino Freire, oferece algo precioso: o contato direto entre autores e leitores, proporcionando “a chance de estreitar laços, conhecer o leitor e fazendo com que minha vingança particular se torne coletiva”, brinca ele. “A relação direta humaniza o escritor, mostra para o público que o escritor não é alguém que morreu ou que está morrendo”, afirma. Outro fator que contribui para isso, diz Freire, é o fato de o público poder ver um autor muito sério numa mesa de debates e, depois, nas farras pelas ruas de Ouro Preto.

Escalado para a mesa sobre o Prêmio Jabuti, na quinta-feira, Marcelino Freire defende que os adolescentes e jovens deviam fazer dos livros de bons autores seus amigos. “Com eles descobrimos que poetas e romancistas estiveram antes de nós em lugares onde estamos ou que descobrimos em nossas vidas”. Mais um motivo saboroso para adicionar a leitura à rotina: “Eles (os autores) nos levam a lugares onde não podemos ir por não ter idade”, observa.


Freire leu, ainda adolescente, Kafka, Jean Genet, João Cabral de Melo Neto. “Grandes livros transformam a gente”, afirma. Com relação a prêmios literários, o tema de sua mesa, é direto: “Não escrevo pensando neles. Mas abrem frentes de trabalho para quem quer viver de literatura. Se o prêmio for em dinheiro, mais ainda”.

 

Condenação de Rushdie originou cidades-refúgio

 

A criação de cidades-refúgio para escritores, como explica Sylvie Debs, representante da Icorn Brasil, nasceu como reação à condenação à morte do escritor anglo-indiano Salman Rushdie em 1989 pelo aiatolá Khomeini, que considerou a publicação Os versos satânicos, de Rushdie uma blasfêmia “Foi o primeiro escritor da história da humanidade a ser perseguido no mundo inteiro, e por um país (o Irã) que nem era o seu país de origem. Se Rushdie escapou da morte, cerca de duas dezenas dos seus tradutores, editores e livreiros foram, infelizmente, assassinados”, afirma.


A norma do Icorn, explica Sylvie Debs, é o acolhimento por dois anos, com bolsa e inserção do escritor na vida cultural. Os quatro meses conseguidos em Ouro Preto vão ser aceitos pelo programa porque, na avaliação dela, servirão como oportunidade para tornar o programa mais conhecido no Brasil. “E porque é uma necessidade ampliar o número de cidades-abrigo”, observa. Ela lembra que “o abrigo a escritores não é caridade. São pessoas com bagagem cultural grande e que oferecem muito às cidades que os acolhem”.


Neste ano, o Icorn recebeu 72 pedidos de proteção, conseguindo atender apenas 15 deles. O Pen Club International estima que existam no mundo cerca de 800 escritores (romancistas, ensaístas, dramaturgos, poetas, blogueiros, tradutores, jornalistas, caricaturistas) ameaçados. A mais recente Nobel de Literatura, a bielorrussa Svetlana Alexievich (Vozes de Chernobil), já foi abrigada pelo programa.

 

Laerte ganha mesa própria

 

No sábado, o Fórum das Letras de Ouro Preto recebe uma celebridade: o chargista Laerte, de 64 anos. Aos 58, ele assumiu a transexualidade. Desde então, tornou-se ícone da discussão sobre a conceituação de gênero e seus limites. Laerte vê com desconfiança e humor o fato de ter uma mesa só dele. “É um pouco amedrontador. Nem sei quem sou eu. Mas recebo a consideração com afeto. Incomodado ficava sua avó”, diz, citando antigo slogan publicitário.


“Não estou acabado. Estou me fazendo mulher. E mulher que não nasceu mulher não é fácil”, observa o chargista, para depois brincar: “Fiquei manjada”. Ele suspeita de que o fato de parecer uma senhora tem peso no afeto e respeito que vem recebendo, inclusive na rua. A mudança foi produto de uma longa vivência bissexual, fechada “em gavetas” por décadas, que ele finalmente decidiu tornar pública.


Antes de “contar para o mundo” que era trans, Laerte conversou com seus filhos e com seus pais. “Não foi simples, sobretudo com meus pais, mas tudo foi resolvido com afeto”, afirma. Mas ele também “caiu das nuvens” da euforia pela aceitação quando teve negado o acesso ao banheiro feminino em um restaurante. “Aí vi o quanto o enquadramento das pessoas no sistema masculino/feminino, contra o qual me levantei, é poderoso. Atinge a restrição de direitos”, afirma. “Mas estou tranquila. Assumir-me trans e me aceitar trouxe paz interior. Sinto-me diferente, mas, ao mesmo tempo, mais igual a mim mesma.”

NOME Ele não pensa em operação para mudar de sexo. Mas diz fantasiar implantar seios. Ao começar a usar roupas femininas, adotou o nome Sônia, mas depois preferiu manter Laerte. “Meu nome tem um significado para mim. Gosto dele e não acho necessário mudá-lo. Uma mulher não precisa ter nome considerado de mulher, genitália de mulher, voz tida como de mulher”, afirma. “Sou a favor da quebra dos códigos de gênero.”


Laerte é um dos mais importantes desenhistas de sua geração – a que começou as atividades nos anos 1970. Trata-se de autores que tiveram de criar formas de, com humor, falar de temas complexos como ecologia, direitos LGBT, ocaso das utopias etc. Neste sentido, ele tem um modo de ver o mundo distinto da geração clássica dos anos 1960 – Henfil, Ziraldo, Jaguar, Millôr, que foram referências e mestres da turma seguinte.


Em sua mesa, Laerte deve conversar sobre quadrinhos, uma linguagem que, segundo avalia, ainda é vista com desconfiança no ambiente literário. “A linguagem dos quadrinhos nem sempre é reconhecida ou acolhida como literatura, que seria apenas letras. Desenho, neste contexto, é ilustração. Somos narradores”, observa. Cansado da rotina, Laerte deixou de desenhar personagens. “Não estou mais preso a padrões de criação”, conta.

 

Fórum das Letras de Ouro Preto

De quarta a domingo. Palestras, seminários, shows, exposições. Entrada franca. Hoje, tem início o Fórum das Letrinhas.
Programação completa: www.forumdasletras.com.br.

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