Jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich vence Prêmio Nobel de Literatura

Escritora é renomada pelos seus relatos sobre as tragédias do império soviético e seus efeitos na alma humana

por Carolina Braga 09/10/2015 09:32

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MAXIM MALINOVSKY/afp
Em Minsk, Svetlana Alexievich participa de coletiva de imprensa após o anúncio da Academia Sueca (foto: MAXIM MALINOVSKY/afp)
A vida real tem interessado mais aos votantes do Prêmio Nobel de Literatura do que propriamente a ficção. Considerada pela crítica internacional como cronista da realidade crua do império soviético, a jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich ganhou a maior honraria do mundo das letras e despertou curiosidade. Afinal, quem é ela?

“Se levou, é sinal de que deveríamos conhecê-la”, afirma Rubens Figueiredo, tradutor de obras clássicas em russo como Guerra e paz, de Liev Tolstói. “Não conheço nada dessa moça. Leio a crítica atualizada russa e vi alguma referência muito distante a ela. Não tenho muito a opinar”, diz o também tradutor Paulo Bezerra. Ele assina as versões em português de obras de Fiódor Dostoiévski e Mikhail Bakhtin.

Bezerra não tem dúvida de que rapidamente Svetlana Alexievich despertará o interesse de alguma editora brasileira. Atualmente, a obra dela foi publicada em 19 países, entre eles Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Japão, Suécia, França, China, Vietnã, Bulgária e Índia. Em português, há apenas um: O fim do homem soviético – Um tempo de desencanto, lançado pela portuguesa Porto Editora em junho deste ano. Ou seja, até então, a repórter que se dedicou a entender a guerra de sua região foi ignorada pela América Latina. O Nobel de 2015 valoriza o jornalismo.

Diretora da Cultura Eslava, considerada uma das maiores escolas de russo no Brasil, Elizabeth Ibis Coelho também não conhece a obra de Alexievich. Ela sente falta de mais espaço para essa literatura por aqui. “Daquilo que eu conheço, a obra bielorrussa é mais política, fala sobre a construção do país. É uma literatura mais ligada às raízes mesmo”, explica.

Para os juízes da Academia Sueca, responsáveis por escolher o vencedor do Nobel de Literatura, os livros de Svetlana constituem “um monumento ao sofrimento e à coragem”. Para a secretária permanente da Academia, Sara Danius, Svetlana transcende o formato de jornalismo e desenvolveu um novo gênero literário que leva sua marca registrada.

Com 67 anos, é a 14ª mulher a ser premiada com o Nobel de Literatura desde a criação, em 1901. O mérito dela foi usar a habilidade de jornalista para criar uma prosa que narra as grandes tragédias da União Soviética, como a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a guerra soviética no Afeganistão (1979-1989), o desastre nuclear de Chernobyl (1986) e os suicídios que se seguiram desde o colapso do comunismo.

Nascida na Ucrânia em uma família de professores e formada na faculdade de jornalismo da Universidade de Minsk, Alexievich escreve em russo e suas obras são proibidas em seu país. A escritora declarou que “é difícil ser uma pessoa honesta, mas não se deve fazer concessões ante o poder totalitário”. “Amo o mundo russo, mas o mundo russo humano”, disse, acrescentando que o governo autoritário do presidente Alexander Lukashenko, que a proíbe de fazer aparições públicas, será obrigado a ouvi-la. “É uma recompensa não apenas para mim, mas também para nossa cultura, nosso pequeno país”, declarou em uma coletiva de imprensa.

Svetlana Alexievich apresenta não apenas uma narrativa jornalística, mas desdobra o modo de construí-la. Embora literatura, o procedimento de construção ainda é o da reportagem. Dedica-se de três a quatro anos a cada novo projeto. A entrevista é o principal instrumento para a coleta de informações.

A face pouco feminina da guerra, publicado em 1985, foi seu primeiro romance. O livro, com mais de 2 milhões de cópias vendidas, baseia-se nas histórias de mulheres que lutaram contra os nazistas alemães. A obra que lhe conferiu maior projeção é Vozes de Chernobyl (1997), para a qual entrevistou 500 pessoas que viveram o drama do acidente nuclear.

CINEMA Assim, o prêmio conferido a Svetlana Alexievich é também uma distinção ao gênero chamado de não ficção, ou melhor, aponta para a indistinção entre a matriz ficcional e documental. Além de romances e reportagens investigativas, a ganhadora também assinou 21 roteiros de cinema. Detalhe: todos eles de documentários, o que reforça a relação dela com a realidade.

“Hoje, quando o homem e o mundo tornam-se tão multifacetados e diversificados, o papel do documento na arte torna-se cada vez mais interessante, na mesma medida em que a arte como tal muitas vezes se mostra impotente. (...) Depois de 20 anos trabalhando com material documental e tendo escrito cinco livros baseados nele, declaro que a arte falhou em entender muitas coisas sobre as pessoas”, afirma Svetlana Alexievich no texto de apresentação do próprio site.

Concedido pela Academia Sueca, o Nobel premia um escritor por ano com 8 milhões de coroas suecas (R$ 3,7 milhões) pelo conjunto de sua obra. Para a edição deste ano, a instituição recebeu 259 propostas de nomes e reduziu a lista para 198. Como prevê o regulamento, as sugestões foram feitas por membros da entidade, escritores já premiados com o Nobel de Literatura e professores universitários convidados. Os últimos a receberem a honraria foram Tomas Tranströmer (2011), Mo Yan (2012), Alice Munro (2013) e Patrick Modiano (2014). Em língua portuguesa, apenas José Saramago foi laureado, em 1998.
 
Principais livros
 
Divulgação
(foto: Divulgação)
Vozes de Chernobyl
(1997)

Trata-se de uma compilação de entrevistas com sobreviventes do acidente nuclear. Durante
10 anos, ela visitou a zona de Chernobyl e conversou com mais de 500 pessoas. “Chernobyl ainda é um mistério. Somos os primeiros a tocar nesse assunto. Algo aconteceu para nós. Isso é algo desconhecido para todo o resto da humanidade, algo que vai ser um problema para o próximo milênio. Algo que, por não haver referência, não há analogias, não há palavras”, escreveu em um trecho do livro.


Garotos de zinco (1992)
O livro foi proibido durante 10 anos em seu país. Nele, a autora destrói os mitos sobre a intervenção soviética no Afeganistão. Alexievich faz uma espécie de diário a partir de 1986. O título é uma referência aos caixões que transportavam os corpos dos soldados mortos em combate.“Nada é mais incrível do que a realidade. Quero evocar um mundo que não esteja obrigado a ser verosimilhante à lei, mas formar a minha própria imagem para ele. Meu objetivo é descrever sentimentos sobre a guerra, em vez de a própria guerra.”


O rosto pouco feminino da guerra
(The war’s unwomanly face) (1985)
Finalizado em 1983, a autora não conseguiu uma editora interessada em publicá-lo. Foi acusada de pacifismo, de glorificação da mulher soviética. Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder e deu início à perestroika, em 1997, o livro foi finalmente publicado. Foram várias reedições e teve mais de 2 milhões de cópias vendidas. “(…) ao longo da guerra mais terrível do século 20, a mulher teve que se tornar soldada. Ela não só resgatou o ferido, mas disparou o rifle de um atirador, lançou bombas, explodiu pontes, foi reconhecida e capturou prisioneiros. (…) Ela matou o inimigo que, com crueldade sem precedentes, estava atacando sua terra, sua casa, seus filhos”.


O fim do homem soviético (2013)
A repórter percorreu dezenas de regiões do território soviético, falou com pessoas que nasceram na URSS e os seus filhos – e percebeu que uma grande parte da nova geração de russos enaltece as qualidades de Stalin, sonha com o ressurgimento do antigo império e revive os símbolos soviéticos. O livro foi indicado pela revista francesa Lire como Livro do Ano de 2013.

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