Cineasta Rafael Conde se aventura no teatro com adaptação de conto de Tchekhov

Em parceria com Júlio Vianna, ele dirige peça que usa cartas de casais de verdade como elemento dramatúrgico

por Carolina Braga 04/10/2015 11:30

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Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Rafael Conde e Júlio Vianna oferecem o palco do CCBB a novos diálogos entre cinema, literatura e teatro (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Quando o cineasta Rafael Conde tinha 15 anos, assistiu à peça As lágrimas amargas de Petra von Kant, com Fernanda Montenegro, Juliana Carneiro da Cunha e Renata Sorrah, atrizes dirigidas por Celso Nunes. Apresentada em 1982, a montagem se tornou antológica na história das artes cênicas do país. Foi algo tão grandioso, que o teatro, automaticamente, tornou-se um território inalcançável para ele.

“Respeito muito. A coisa mais difícil do mundo é fazer teatro”, diz Rafael. Depois de 30 anos de dedicação ao cinema, o diretor dos longas Samba-canção (2002) e Fronteira (2008), premiado pelo curta Françoise (2001), começa a criar coragem para se aventurar no palco. O primeiro passo já foi dado: a peça A brincadeira estreia no dia 17, no Centro Cultural Banco do Brasil, em BH.

A adaptação do conto homônimo de Anton Tchekhov (1860-1904) parte de um projeto de pesquisa que o cineasta coordena na Escola de Belas-Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Conde assina a direção em parceria com Júlio Vianna. Homem de cinema, ele faz questão de explicar: a parte teatral é muito mais de Júlio do que dele. Rafael confessa que está experimentando – e  aprendendo – no palco. Com brilho nos olhos, encanta-se com a face cinematográfica que essa montagem teatral carrega.

“Cinema é cinema. Teatro é teatro. Não tem jeito. Estamos testando as intercessões entre as duas linguagens. O encontro ao vivo é no teatro. Encontro mediado pela câmera e a projeção é cinema”, sintetiza Rafael.

MISTURA


A brincadeira
pretende questionar espaços em que as interpretações no cinema e no teatro se encontram, se afastam, e as possibilidades de as duas linguagens comungarem do mesmo universo. Assim, a obra que ocupará o palco do CCBB traz, no mínimo, a possibilidade de mesclar as duas expressões artísticas.

“O conflito é muito positivo. A gente entrou nisso juntos, em um lugar desconhecido”, diz Júlio Vianna. Há três anos, os dois começaram a conversar sobre a possibilidade de um “encontro de currículos”. A dupla vem de gerações diferentes e de áreas diferentes. Os dois têm pensamentos diferentes, mas se respeitam. E querem construir algo que surpreenda.

Grosso modo, há um curta-metragem dentro da peça e vice-versa. O projeto é protagonizado pelos atores Maria Bonome e Rafael Protzner. Namorados na vida real, eles interpretam o casal Nádia e Ivan, personagens do conto A brincadeira. Rafael Conde se responsabilizou pelo roteiro, enquanto Júlio Vianna ainda está concluindo a dramaturgia.

Embora tenha carreira como cineasta, Rafael Conde fez doutorado em artes cênicas. A relação com o ator sempre lhe interessou, seja no set de filmagens, seja no palco. Mesmo assim, ele não esconde a surpresa em relação à carpintaria teatral. “Até agora, Júlio está conversando com os atores. Acho interessante isso. O processo é supercinematográfico”, observa ele, ansioso para ver a peça pronta.

“Teatro é o momento em que os atores estão ali. Esse processo está me deixando de cabelo em pé: o erro do ator, o improviso. No cinema, você prepara tudo até o momento do set. Depois, acabou. Está tudo ali”, compara Conde.

A brincadeira
não é a primeira tentativa do cineasta de se aproximar dos palcos. No fim da década de 1990, ele trabalhou na montagem de Ricardo III, dirigida por Yara de Novaes. A experiência foi traumática. “Nos bastidores, era aquela confusão, mas foi só abrir a cortina e tudo ficou pronto”, diverte-se. É chegado o momento, então, de mais uma tentativa.

Obra recebe cartas de amor

O eixo principal de A brincadeira é a dificuldade de dizer “eu te amo”. O espetáculo também flerta com o documentário cênico, pois, além da literatura de Tchekhov, conta com a experiência real dos atores protagonistas. “A poética está aí”, afirma o diretor Júlio Vianna. Segundo ele, a peça tem estrutura preestabelecida, mas com muito espaço para a improvisação. Eis uma área em que Maria Bonome e Rafael Protzner transitam com tranquilidade. Os jovens atores se formaram pelo Teatro Universitário da UFMG.

A poucos dias da estreia, alguns  elementos ainda são guardados a sete chaves pelos diretores. Para se ter uma ideia, os atores só vão assistir ao curta-metragem de Rafael Conde na primeira sessão, com o público.

Outra surpresa da dramaturgia está nas cartas. Correspondências reais trocadas por casais são parte importante do texto. As mensagens serão lidas pela primeira vez em cena, desafiando o ator a procurar o frescor daquelas palavras.

Para alimentar A brincadeira com histórias reais, a produção lançou uma campanha na internet convidando casais a trocar palavras ou declarações de afeto. Elas poderão ser lidas em qualquer sessão, depois do sorteio no palco. A correspondência pode ser enviada até 16 de outubro. Os interessados devem escrever as mensagens separadamente, mas as duas cartas devem ser colocadas no mesmo envelope.

Destinadas ao projeto A brincadeira, as cartas devem ser remetidas para Rua Córrego da Mata, 66, sala 3, Bairro Sagrada Família, CEP 31030-085. Também haverá postos de coleta na Escola de Arquitetura da UFMG (Rua Paraíba, 697, Funcionários) e na Faculdade de Letras da UFMG (Avenida Presidente Antônio Carlos, 6.627, câmpus Pampulha).

Os remetentes das cartas selecionadas receberão um par de convites para assistir ao espetáculo. A temporada no Centro Cultural Banco do Brasil vai até dia 26.

A BRINCADEIRA
Em cartaz de 17 a 26 de outubro. Sessões de quinta a segunda-feira, às 19h, no Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

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