Seminário 'Arte é preciso' discute a fragilidade do cenário das artes visuais em Minas Gerais

Em debate promovido pelo Estado de Minas, artistas discutem a e respondem aos desafios que enfrentam formulando mais questões

por Silvana Arantes 03/10/2015 08:00

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RODRIGO CLEMENTE/EM/D.A.PRESS
(foto: RODRIGO CLEMENTE/EM/D.A.PRESS)
A questão inicial era uma só: o que faz um artista?. Ao respondê-la, Andrea Lanna, Claudia Renault, Fernando Lucchesi, Thales Pereira e Rodrigo Vivas, os convidados do terceiro seminário da série Arte É Preciso, promovida pelo Estado de Minas, aqueceram o debate, anteontem, no Espaço Cultural do jornal, propondo diversas outras perguntas, enunciando algumas certezas e oferecendo relatos tocantes de suas próprias trajetórias profissionais.

“Quando Minas vai contar sua história?”, indagou a artista plástica e professora Andrea Lanna. Doutoranda em arte e tecnologia da imagem, Andrea mostrou à plateia um trecho de sua pesquisa sobre a geração 80 mineira. “Os artistas em BH sempre se adaptaram a tempos difíceis”, afirmou. Quando foi sua vez de responder a uma pergunta do público sobre o porquê do ambiente de desprezo à produção local, disse: “Temos essa coisa do espírito do colonizado. A tudo que vem de fora, do litoral, da metrópole a gente adere com mais facilidade”.

Nascido no Rio de Janeiro, Thales Pereira contou que o interesse por sua obra em Minas Gerais se reduziu quando ele decidiu viver no estado. “Quando eu era considerado um artista carioca, vendia mais aqui.” Pereira exibiu fotos de parte de sua obra, com comentários que levaram o público às gargalhadas em diversas ocasiões. Exemplo: “Quando vi o filme Titanic, fiquei pensando na culpa que aquele iceberg deve ter sentido. Aí fiz um quadro.” Nessa tela, o iceberg assume o lugar do transatlântico e é o bloco de gelo que afunda.

Embora tenha usado um tom bem-humorado e descontraído em sua fala, Pereira apontou a mais amarga situação enfrentada por artistas privados de visibilidade no mercado. “Há uma coisa muito interessante no artista que não faz sucesso: a liberdade. Você pode fazer o que quiser. Pode ser o menino rebelde. Ninguém está prestando atenção. Estou com 63 anos. Não virei nada.”

É essa condição de quase anonimato de pessoas que têm toda uma vida dedicada à arte que indigna o professor e curador Rodrigo Vivas, mediador do debate. Num discurso enfático e assertivo, Vivas afirmou: “Não temos saída sem uma vocação ou interesse de montar um museu de artes visuais com os artistas de BH. Somos incapazes de conhecê-los, de valorizá-los e de criar uma memória desses artistas”. Antes, o professor havia assinalado que “obra de arte é uma questão de valor, e você não valoriza o que não conhece”.

Para dissipar uma provável associação de suas propostas com um viés bairrista e paroquial, Vivas fez questão de se distanciar da “dinâmica do pão de queijo”. “Não estou querendo ser bairrista. Odeio isso. Odeio qualquer princípio que fale de uma valorização prévia porque o cara é mineiro.”

CALADO
 
Tímido espalhafatoso da noite, Fernando Lucchesi permaneceu calado quase todo o tempo. Quando a fala deveria ser dele, disse que acha desagradável ouvir sua voz ao microfone e que “um autodidata é sempre amarrado para falar”. Resumiu sua biografia assim: “Não entendo praticamente nada de arte. Entendo de trabalho. Fugi da escola cedo. Tudo que aprendi foi na rua, com meus colegas, com as viagens que fiz e os livros que li. Faço alguma coisa que chamam de arte. 50% da minha carreira agradeço aos meus colegas. Os outros 50%, às viagens que fiz e aos livros que li”.

Após essa introdução, foram exibidas imagens de diversos trabalhos de Lucchesi. A intensidade das palmas ao fim da projeção deixou claro que o público gostou do que viu e não se incomodou com o que não ouviu.

Claudia Renault exibiu um vídeo sobre as diversas fases de sua produção artística, comentando-as. A artista falou das técnicas e do impulso criativo por trás delas. Contou sobre o momento em que tudo passou a lhe interessar e objetos encontrados na rua foram sendo transformados em obras. Obras devolvidas às ruas em intervenções que ela produziu durante seus estudos de pós-graduação em Portugal.

Sobre o que move um artista, Claudia tem um palpite. Quase uma certeza. “É uma vontade de ordenar o caos. A busca por uma linguagem em que a gente possa sentir um pouco mais de paz, talvez.”

O quarto e último seminário do ciclo Arte É Preciso ocorre no próximo dia 22, às 19h30. A entrada é franca, mediante inscrição prévia, via e-mail jornada@uai.com.br.

Idealizados pelo produtor de eventos Paulo Rossi, os seminários são preparatórios ao leilão (10/11) promovido pela Jornada Solidária, ação de responsabilidade social do Estado de Minas que neste 2015 beneficia 11 creches e um abrigo para crianças em situação de risco.

Nazareth Teixeira da Costa, presidente da Jornada Solidária, agradeceu a participação dos convidados e espectadores no seminário de anteontem e afirmou: “Vamos conseguir construir um país melhor, ajudando essas crianças a ter condições de dignidade”.

“Minas tem a maior galeria da América Latina, o maior museu a céu aberto do mundo, e os artistas daqui passam por percalços que nenhum artista do Rio ou de São Paulo passa
ANDREA LANNA
artista plástica e professora

“Não entendo praticamente nada de arte. Entendo de trabalho. Fugi da escola cedo. Tudo que aprendi foi na rua, com meus colegas, com as viagens que fiz e os livros que li”
FERNANDO LUCCHESI,
artista plástico

“O que move o artista é uma vontade de ordenar o caos. A busca por uma linguagem em que a gente possa sentir um pouco mais de paz, talvez”
CLAUDIA RENAULT,
artista plástica

“Há uma coisa muito interessante no artista que não faz sucesso: a liberdade. Você pode fazer o que quiser. Ninguém está prestando atenção”
THALES PEREIRA,
pintor e designer

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