Exposição no MoMA apresenta o lado escultor de Picasso

Mestre espanhol nunca se dispôs a apresentar em vida as 141 obras produzidas ao longo de 60 anos e agora reunidas em Nova York

por Agência Estado 28/09/2015 19:45

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Andrew Burton/Getty Images/AFP
Filho de pintor e treinado nos passos do pai, Picasso não se levava a sério como escultor; guardava as próprias obras em casa e no estúdio, misturadas aos objetos da decoração (foto: Andrew Burton/Getty Images/AFP)
Quem precisa de argumentos para visitar uma retrospectiva de Pablo Picasso? A atração previsível pelo artista mais célebre do século 20 não deve inspirar complacência. A exposição Picasso sculpture inaugurada no Museu de Arte Moderna de Nova York não é mais uma exposição da obra que tantos acreditam conhecer. É um evento que justifica o clichê “a chance de uma vida.”

 

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O MoMA liberou as onze salas que exibem parte de sua coleção de arte do pós-guerra no quarto andar e instalou 60 anos de esculturas de Picasso em ordem cronológica, de 1902 a 1964. Ao percorrer a mostra, o visitante não pode ser culpado se balbuciar espontaneamente nomes de outros artistas como Alexander Calder ou Robert Rauschenberg. Como disse a curadora Ann Temke: “Você se depara com uma obra e vem a memória de toda a carreira de outro artista.”

Há uma explicação para a escultura de Picasso, com algumas exceções, como a famosa Cabra que habitava o jardim de museu, não ter sido reunida com frequência. Picasso o filho de pintor, treinado como pintor, não se levava a sério como escultor. Não considerava as esculturas vendáveis ou tema de exposição. Ele as guardava em casa e no estúdio, misturadas aos objetos da decoração.

 

Depois de sua morte,em 1973, a organização do espólio permitiu que obras fossem adquiridas por outras coleções. Mas o Musée Picasso de Paris é a mina de ouro que tornou possível a retrospectiva do MoMA.

 

Ainda que as esculturas ficassem longe do público, elas foram vistas por artistas que visitavam Picasso. Só no período que precede a Primeira Guerra, Ann Temke vê as conexões entre as visitas e as obras do russo Kazimir Malevitch e do italiano Umberto Boccioni.

O diálogo do pintor com o escultor é constante. A escultura, diz Temke, se adaptava ao temperamento irrequieto de Picasso, que se permitia improvisação no meio. Na década final representada na mostra, em que predomina o metal, ela se diverte com a ideia do artista mais rico da história frequentando ferro velhos em busca de objetos.

A geografia da mostra permite também apreciar a vertiginosa rapidez de mudanças de linguagem e a manipulação de materiais - barro, gesso, bronze, cartolina, alumínio. É preciso uma pausa para lembrar que este artista tinha uma visão da escultura do século 19. Ele deu as costas para a tradição no meio com um vigor e um abandono que, agora podemos compreender, deixaram marcas em gerações de artistas no século 20, como Alexander Calder e Robert Rauschenberg

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Obras guardadas por Picasso e jamais expostas durante a vida do artista guardam semelhanças com alguns de seus contemporâneos, que podem ter se influenciado em visitas à casa do espanhol (foto: Andrew Burton/Getty Images/AFP)
No departamento de chances únicas, há a primeira reunião dos seis copos de absinto, cinco deles dispersados pelo então marchand do artista no começo da Primeira Guerra e leiloados em 1920, com exceção do que Picasso guardou.

A influência da arte africana sobre a pintura de Pablo Picasso é conhecida. É só admirar as sublimes Demoiselles D’Avignon que moram no quinto andar do MoMA. Mas só quando apreciamos a obra em escultura a conexão fica mais evidente e compreensiva. Ann Temke lembra que a visita de Picasso ao Museu Etnográfico de Paris, em 1907, por sugestão do amigo e pintor André Derain, foi um divisor de águas. “A noção de fazer um espírito habitar uma figura vem daí,” diz ela. “Você não olha para escultura europeia daquele tempo e pensa neste poder mágico.”

A curadora vê na representação erótica das formas femininas uma âncora do diálogo entre o pintor e o escultor. “Ele estava mapeando a renovação de sua linguagem em duas e três dimensões ao mesmo tempo.”

Paris também presta tributo
Não só em Nova York a genialidade de Pablo Picasso volta a ser lembrada em uma grande exposição de alcance internacional. Sete anos depois de quebrar recordes históricos de público com a megamostra Picasso et les Maîtres, o Grand Palais em Paris se prepara para abrir as portas de uma nova exposição sobre a obra do espanhol. A partir de 7 de outubro, o museu apresentará Picasso Mania, uma oportunidade de colocar lado a lado suas telas e de outros astros da pintura moderna e contemporânea, como David Hockney, Jasper Johns, Roy Lichtenstein, Andy Warhol ou Basquiat.

Béatrice Hatala/Grand Palais/Divulgação
'Mousquetaire assis tenant une épée' (1969) é uma das obras do espanhol expostas em 'Picasso Mania' (foto: Béatrice Hatala/Grand Palais/Divulgação)
A bem da verdade, o mote da exposição elaborada por Didier Ottinger, diretor-adjunto do Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Pompidou, de Paris, lembra a de Picasso et les Maîtres: estabelecer as relações de influência entre grandes nomes da pintura do século 20. O que muda em Picasso Mania é o papel de cada um.

 

Enquanto há sete anos o centro de atenção estava em como o pintor havia se inspirado, relido e representado os artistas que mais admirava, agora é a vez de Picasso ser o centro irradiador da mostra, que estuda a extensão de sua influência na crítica e nos meios artísticos para compreender como se deu a construção de seu mito como gênio da pintura.

Picasso Mania lembra que, após a 2ª Guerra Mundial, o mestre espanhol se transformou aos olhos da crítica em um pintor moderno - e logo aprisionado em um estilo específico.

 

Só no início dos anos 70, quando chegou aos 90 anos, teve início seu reconhecimento como uma referência incontornável na história da pintura, atemporal e, logo, acima dos limites impostos pelo enquadramento na escola moderna.

Nos anos que se seguiram, em especial na década de 80, seu caráter visionário começou a ser destacado em mostras, estudos acadêmicos e testemunhos de outros artistas. Então, no momento em que seu talento e seus conceitos passaram a se tornar inquestionáveis, começou o culto, que resultou enfim na criação de um mito: Pablo Picasso passou a ser reconhecido como gênio.

A nota paradoxal é que a exposição tira seu nome de uma entrevista concedida pelo pintor em 1959, na qual uma de suas respostas deixa claro o quanto sua genialidade era, na realidade fruto de uma pulsão prosaica. Questionado se pretendia continuar a pintar por longo tempo e por que, ele não rebusca sua resposta, nem aponta razões messiânicas ou grandiloquentes para justificar a decisão de seguir trabalhando. Picasso responde apenas: “Sim, porque para mim é uma mania”. O gênio, na realidade, nunca passou de um ser humano.

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