Bienal do Livro tem reafirmado sua vocação de evento voltado aos jovens

No evento, editoras fazem suas apostas para o Natal

por Agência Estado 15/09/2015 11:01

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Vloggers como Christian Figueiredo foram destaque para público jovem da Bienal (foto: Instagram / Reprodução)
Mais do que uma grande vitrine da produção editorial, a Bienal do Livro tem reafirmado, ano após ano, seja em São Paulo ou no Rio de Janeiro, sua vocação de evento voltado aos jovens - leitores vorazes, bons consumidores e fãs capazes de esperar horas numa fila para ganhar uma senha para poder ficar mais algumas horas em outra fila para então sair com um autógrafo e uma foto de seu ídolo. Nesta edição da feira carioca, que terminou no domingo, 13, os visitantes com idade entre 15 e 29 anos foram a maioria e representaram 56% do público total do evento - em 2013, eles eram 51%. E editoras com livros dedicados a esses leitores não tiveram do que reclamar.

A Intrínseca, por exemplo, registrou o maior faturamento de sua história. Ela não revela valores, mas informa que vendeu nada menos do que 75 mil exemplares de títulos variados. Isabela Freitas, de 24 anos, é a autora dos dois livros mais vendidos no estande da editora: Não Se Apega, Não e Não Se Iluda, Não. Mas o reinado da blogueira, que já acumulava 400 mil exemplares vendidos antes da Bienal, pode ser ameaçado nos próximos dias. Chega às livrarias na sexta-feira, 18, Grey, novo livro da série milionária Cinquenta Tons de Cinza.

Depois de vender 6 milhões de exemplares dos três primeiros títulos de E L James - a britânica que popularizou o de soft porn -, a editora diz que mandou imprimir 400 mil exemplares desse quarto volume, narrado, agora, por Christian Grey (os outros contavam a história com base no ponto de vista de Anastasia Steele). Só na pré-venda, foram comercializados 50 mil exemplares.

Grey não será o único com uma tiragem grande neste semestre. Diário de Um Banana - Bons Tempos, o 10º da série de Jeff Kinney com lançamento mundial no dia 3 de novembro, também terá tiragem inicial de 400 mil cópias. Sucesso entre os leitores de cerca de 10 anos, a série também vendeu bem na Bienal. De Caindo na Estrada, o 9º e o mais vendido no estande, foram 2.200 exemplares. Depois aparecem os volumes 1, o que mostra que novos leitores estão descobrindo os livros de Greg, e o 8. No total, segundo a V&R, foram comercializadas 14 mil cópias da coleção durante o evento. A editora conta que registrou 15% de aumento no faturamento comparado com 2013.

O Grupo Record, que calcula ter recebido 140 mil pessoas em seu estande e vendeu, em valores, 15% a mais do que na edição passada, também se surpreendeu com o público juvenil. Os dois títulos mais vendidos foram Invasão do Mundo da Superfície - Uma Aventura Não Oficial de Minecraft e Batalha pelo Nether - Uma Aventura Não Oficial de Minecraft (Vol. 2), ambos de Mark Cheverton e inspirados no jogo de video game. Na Sextante, Diário de Um Zumbi do Minecraft foi o best-seller (2 mil exemplares).

Apesar desse bom desempenho do título infantojuvenil, a grande aposta da Sextante para este semestre será Oceano Perdido, o terceiro de colorir de Johanna Basford. O primeiro, Jardim Secreto, vendeu 1,2 milhão de cópias, segundo a editora. O seguinte, Floresta Encantada, 800 mil. "Não entramos nesse mercado para ter o sucesso que tivemos e descobrimos que essa autora tem seu público fiel. Imagino que o novo título representará 25% do que o segundo representou", diz Marcos da Veiga Pereira, que além de diretor do Sindicato Nacional de Editores de Livros é sócio da Sextante.

"Embora tenham conquistado um bom espaço, os livros de colorir terão uma queda brusca", diz Ismael Borges, coordenador da BookScan, serviço da Nielsen que mede a venda de livros (veja a lista acima). Talvez por isso, a editora de Pereira tenha encomendado ‘apenas’ 200 mil exemplares de Oceano Perdido à gráfica. Mas, de olho nesse novo público interessado em passatempo, a casa já adquiriu os direitos da coleção Ligando os Mil Pontos, que lança em outubro.

Borges diz que está otimista com relação a este segundo semestre - historicamente, a segunda metade do ano é melhor do que a primeira para o mercado editorial. "Não acho que o cenário é catastrófico. Os números estão abaixo da inflação, mas, comparado a outras indústrias, a do livro vai muito bem, obrigado", diz. Para ele, por causa do preço, o livro será mais uma vez uma boa opção de presente de Natal. Borges vê, ainda, uma boa oportunidade de descoberta de novos autores brasileiros. Em vez de brigar pelas grandes promessas de best-sellers internacionais, as editoras vão mirar as novas celebridades brasileiras. A Novo Conceito é um bom exemplo disso. Sucesso no YouTube, o vlogueiro Christian Figueiredo levou fãs à histeria na Bienal e seus dois livros, Eu Fico Loko 2 (7 mil) e Eu Fico Loko (4.500) foram os best-sellers do estande da editora. O garoto de 21 anos já acumula quase 300 mil livros vendidos.

Uma das apostas do grupo Companhia das Letras para este semestre segue a mesma linha. Aos 22 anos, Kéfera, que tem 5 milhões de seguidores no YouTube, 4 milhões no Facebook, 2,9 milhões no Instagram e 97 mil no Twitter, claro, também fez barulho na feira carioca. Lançado em 2 de setembro, Muito Mais Que 5inco Minutos teve tiragem inicial de 75 mil exemplares. Christian, Kéfera e Isabela Freitas são apenas alguns exemplos, e, já que está virando modismo, novos nomes devem ser revelados em breve.

Há muito mais no prelo das editoras, a caminho das livrarias ou recém-chegados às prateleiras. A Rocco, por exemplo, acaba de lançar um box de luxo com os títulos da série Harry Potter. A Intrínseca lança, em 1.º de novembro, edição comemorativa de 10 anos de Crepúsculo. Sem perder de vista os romances que viram filmes e que se tornam (antes ou depois das telas) best-sellers, a Novo Conceito publica Tudo e Todas as Coisas, de Nicola Yoon, sobre garota que cresce pensando ser alérgica a tudo.

As tiragens são altas, a expectativa é boa, mas ainda assim o mercado está preocupado (se olharmos para a realidade das médias editoras e das independentes o cenário piora). "Se conseguirmos fechar o ano com um crescimento de 3 a 5% nominal será uma vitória", comenta Pereira. "Vamos andar de lado e isso é bom", diz Borges. Para o coordenador da BookScan, é preciso não perder de vista os chamados jovens adultos, "quem está consumindo efetivamente".

Apostas para o Natal

Às vésperas da abertura da 17ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros, disse, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, que o mercado ia mal e que seria preciso correr para reverter o cenário. Dois momentos seriam de extrema importância para as editoras fecharem o ano no azul. Primeiro, era preciso fazer uma boa feira - e a Bienal terminou no domingo, 13, com números excelentes. Da abertura, dia 3, até o encerramento, passaram pelo Riocentro 676 mil pessoas, um recorde histórico. Na edição passada, a organização registrou 660 mil pessoas.

Em média, cada visitante comprou 6,6 livros, 4% a mais do que em 2013. As promoções feitas desde o início da feira, e não nos momentos finais como geralmente ocorre, podem ter ajudado no índice. Em termos de faturamento, os números são ainda melhores. Estima-se que as editoras tenham faturado R$ 83 milhões nos 11 dias de evento - 18% acima da edição anterior.

O investimento na programação, que teve atrações para todos os públicos e gostos - do poeta Ferreira Gullar, que lançou sua autobiografia poética, ao best-seller juvenil Jeff Kinney, que não tinha nada novo para apresentar e ainda assim arrastou uma pequena multidão à feira - foi, segundo Pereira, um dos pontos fortes desta edição. O outro foi a decisão de receber os escritores-celebridade, como Christian Figueiredo e Kéfera, numa área mais isolada, onde a histeria que paira sobre esses encontros não atrapalharia os demais visitantes e expositores.

Passada a Bienal, o segundo grande momento em que o mercado pode dar a volta por cima é o Natal, e as apostas nos próximos best-sellers já começaram.

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