Cineasta Walter Salles lança documentário sobre diretor Jia Zhang-ke

Obra do chinês flagra as transformações "brutais" na história recente de seu país, diz que "registrar a memória daquilo que não mais será é uma das funções do cinema"

por Mariana Peixoto 13/09/2015 11:07

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VIDEOFILMES/DIVULGAÇÃO
(foto: VIDEOFILMES/DIVULGAÇÃO)

Para os padrões chineses, Fenyang é não mais do que uma aldeia. Cidade da província rural de Shanxi, Norte da China, contava no censo mais recente (2000) com uma população de 400 mil pessoas. Praticamente um traço para a superpopulosa China.

Mas é a partir da sua aldeia que o diretor Jia Zhang-ke fala com o mundo inteiro. Cineasta que funde documentário com ficção, memória afetiva com crítica social, ele integra a chamada sexta geração do cinema chinês.

Para Walter Salles, a obra de Jia “redefine aquilo que chamamos por cinema humanista”. O brasileiro retoma sua produção documental com Jia Zhang-ke – Um homem de Fenyang, em cartaz às 19h no Cine Belas Artes.

O novo longa-metragem de Salles revela o homem Jia na mesma toada com que o chinês realiza suas produções. Ele retorna aos locais onde rodou seus filmes, junto de atores e colaboradores. Fala da China, das transformações em seu país e de como seu cinema busca refleti-las.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Estado de Minas, Salles analisa a obra de Jia, “única e que não encontra comparações”.

Sua relação com a China tem início ainda nos anos 1980, com o documentário China – O império do centro (TV Manchete), de João Moreira Salles. Como encontrou o país, quase 30 anos mais tarde?
A primeira viagem aconteceu logo depois da guerra entre a China e o Vietnã, em 1979, e a segunda, quando acompanhei parte da filmagem do João. Da primeira para a segunda viagem, senti pouca diferença, embora a tensão política que eclodiria em Tiananmen, menos de um ano depois das filmagens, fosse perceptível no ar. Já a China que encontramos no ano passado era uma terra em transe. A passagem abrupta da economia planificada para o vale-tudo do mercado criou uma das mutações mais brutais que um país conheceu nos últimos 20 anos. A obra de Jia Zhang-ke é vital para desvendar as consequências que essa transformação teve no homem comum.

Como definiu a maneira de contar a história de Jia?

O documentário é estruturado a partir das diversas camadas da memória que alimentam os filmes de Jia Zhang-ke. De um lado, a memória afetiva – a de seus familiares e amigos de Fenyang, que inspira seus primeiros filmes. Do outro, a memória coletiva que ele registra, a de um país em brutal mutação – como acontece, por exemplo, em Em busca da vida. Também queríamos nos aproximar da memória dos filmes de Jia Zhang-ke, e por isso a ideia de voltar às locações de seus longas. Em muitas ocasiões, o próprio Jia tinha dificuldade em reencontrar uma rua ou uma casa em que ele havia filmado. Rapidamente percebemos por que a palavra “demolição” é a que mais vimos na China durante as semanas em que ficamos lá. Registrar a memória daquilo que não mais será é uma das funções do cinema: os filmes são uma forma de deixar um reflexo de quem nós fomos em um dado momento. A obra de Jia Zhang-ke faz isso de uma forma única e singular.

O documentário é falado em mandarim e no dialeto da região de Fenyang. Houve tradução simultânea em toda a filmagem? Pergunto isto por causa de algumas cenas bastante confessionais, como o momento em que Jia se emociona ao lembrar do pai.
Como os filmes de Jia são, em grande parte, falados no dialeto da região do Shanxi, onde fica a cidade de Fenyang, a maioria dos espectadores chineses que falam mandarim precisam de subtítulos, como nós, para entenderem os diálogos dos seus filmes. Nesse sentido, ele é um realizador que está entre culturas, e que percebe o seu próprio país de dentro, mas também a distância. Durante a filmagem, tínhamos uma tradução simultânea que nos dava a possibilidade de entender o que estava sendo dito em dialeto ou em mandarim. Já o momento em que Jia fala sobre seu pai não foi precedido de uma pergunta. Algo aconteceu naquele momento, um desejo de contar aquela história que pertencia só a ele.

Qual o seu filme preferido do diretor?

Plataforma e Em busca da vida. O primeiro acompanha os dez anos de transformação de uma jovem trupe de teatro maoísta que vai, pouco a pouco, tendo que se integrar à nova realidade do país, até implodir. O filme é daquelas raras narrativas em que a crise de identidade dos personagens reflete uma crise de identidade maior, que é a do país como um todo. Já Em busca da vida segue dois personagens que tentam reencontrar os seus familiares em meio à demolição de cidades milenares, que darão lugar à gigantesca barragem de Três Gargantas. Ambos os filmes são um milagre cinematográfico, narrativas ao mesmo tempo agudas e delicadas sobre um país que nunca mais será o mesmo.

Vinte anos depois de Terra estrangeira, como você vê o Brasil? Naquele filme, a protagonista deixava o país para viver em Portugal. Hoje, há uma evasão diferente, rumo aos EUA. O país ficou melhor e pior em que sentido?
Vasta questão. A crise que o país viveu com o desgoverno Collor não tem, tanto do ponto de vista simbólico quanto socioeconômico, comparação com outro momento recente da história do Brasil. Naquele momento caótico, deixamos de ser um país de imigração e 800 mil brasileiros, segundo dados oficiais, acabaram tendo que sair do país. O Brasil de 2015 é um país infinitamente mais sólido do ponto de vista institucional do que o de 1993, e mais democrático. Frei Betto deu, recentemente, uma entrevista luminosa sobre o momento pelo qual passa o país. Penso que ele ofereceu o ponto de vista mais equilibrado e preciso sobre a nossa realidade.


Jia Zhang-ke – Um homem de Fenyang
Por Vladimir Carvalho

Uma nota melancólica, num rastilho de dúvidas e discreto desespero, perpassa quase todo o transcorrer de Jia Zhang-ke – Um homem de Fenyang. Trata-se de esforço bem-sucedido que se transforma num delicado testemunho que não apela a facilidades para perfilar o seu objeto e suas circunstâncias. Não lhe faltam para isso a experiência e as comprovadas qualidades do cinema de Walter Salles. Mas sua pauta, de tão fidedigna ao seu personagem, requer uma atenção e aceitação especiais, ao mesmo tempo que sua orquestração narrativa nos convoca e nos atiça de forma sutil e irrecorrível a seguir os passos de Jia Zhang-ke, o festejado cineasta chinês, em sua peleja com suas ideias e modos de entender o mundo de hoje, o que não dispensa sua luta interior consigo mesmo.

Jia Zhang-ke – Um homem de Fenyang é filme que não se entrega facilmente, mas nos envolve com sinceridade e apelo, num lance cada vez mais raro no cinema da atualidade. E nos faz pensar solidariamente e, às vezes, dolorosamente, com o fim de destrinchar sua complexidade, embutido aí o seu convite a vê-lo e revê-lo mais de uma vez. Nesse aspecto, força é reconhecer a simpatia que emana desse homenzinho, ao mesmo tempo doce e inquietante, nessa sua jornada de pensar e expressar em imagens e sons nossa conturbada contemporaneidade. Pois é a barbárie que nos assola desde o Oriente, com amplos reflexos em outras latitudes, que constitui o contundente pano de fundo dessa incursão num mundo conflagrado pela brutalidade dos regimes políticos ou religiosos.

Esse quadro parece-nos avultar no âmago da obra do autor de Plataforma, como seu cerne mais aparente e mais profundo, e que faz dela algo de extraordinariamente autêntico e mobilizador, que sempre tocará a consciência humanística de quem tomar conhecimento de seus filmes. Walter Salles, com o destemor que marca tudo que advém de sua lavra, agora atravessa paisagens e situações nunca dantes navegadas e nos convida a compartilhar com ele dessa aventura junto a um cineasta-pensador, apanhado em pleno voo, entre a reflexão e a prática do cinema.

Vladimir Carvalho é cineasta. Diretor, entre outros, de O país de São Saruê e O engenho de Zé Lins

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