Cosplay ganha cada vez mais adeptos e festivais competitivos

Forma de diversão que consiste em se vestir como um personagem é prática em expansão, mas ainda é vista com desconfiança pelos alheios à arte

por Carolina Braga 06/09/2015 06:00

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ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A.PRESS
Cosplayers Vitória Barros (Alibaba Saluja, de Magi: The labyrinth of magic), Fernando Henrique Medeiros, o Nando Gray (de Fairy tail), e Rayara Eckhardt (Samus Aran, de Metroid) se divertem na Praça da Liberdade (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A.PRESS)

No meio da tarde, o azul da roupa de Samus Aran chama a atenção de quem passa pela Praça da Liberdade. Do coreto, alguém grita: “Power rangers!”. Nada disso. É o cosplay feito pela estudante Rayara Eckhardt para a protagonista dos jogos da série Metroid, lançada na década de 1980 pela Nintendo. “Ela foi uma das primeiras protagonistas femininas de videogame”, explica a cosplayer, em meio à curiosidade dos transeuntes.

O cosplay, que consiste em representar uma personagem com fantasia idêntica à dela, é uma prática em expansão no Brasil e no mundo. Só o grupo fechado Anime Festival BH reúne mais de nove mil integrantes. Estima-se que a comunidade em Minas, a julgar pelo público que circula por eventos especializados, beire 15 mil pessoas.

Não se trata, apenas, de uma comunidade numerosa. É uma vastidão tão grande de personagens, uma busca dedicada pela fidelidade da representação que os adeptos dessa prática performática têm enfrentado hoje um grande desafio: combater o preconceito. Muita gente lança um olhar desconfiado para quem escolhe desfilar fantasiado por eventos especializados.

Mangá “Não é um bicho de sete cabeças como as pessoas pensam”, diz Fernando Henrique Medeiros, conhecido no meio como Nando Gray, numa referência ao personagem do mangá Fairy tail, desenhado por Hiro Mashima. “Para mim, cosplay é diversão. Se a pessoa está se divertindo, pode fazer o cosplay que ela quiser”, afirma Rayara.

Eles garantem que cosplay não é coisa de gente doida ou com dificuldade de relacionamento. Ao contrário. É uma atividade lúdica. Da mesma forma que uma pessoa que gosta de se fantasiar para pular carnaval se diverte e cai na folia de novo, recriar os personagens favoritos de quadrinhos, games e filmes é um hobby. “O videogame, o anime e o mangá são tribos estigmatizadas, associadas a uma cultura underground”, aponta a pesquisadora em comunicação Vitória Barros.


Há dez anos ela coleciona trajes de personagens diversos, como o Alibaba Saluja da série Magi: The labyrinth of magic. Há cinco passou a atuar também como jurada nos numerosos concursos que ajudam a motivar o universo cosplay. A pesquisadora está certa de que o maior desafio de quem dedica tempo e dinheiro a essa atividade é desmitificá-la.

Cosplay é a abreviação de costume play, que significa brincar de se fantasiar. É um fenômeno que existe nos Estados Unidos desde os anos 1930, mas ganhou força no Japão nos anos 1980, impulsionado pela cultura do anime e do mangá. As convenções de fãs de filmes como Jornada nas estrelas e Guerra nas estrelas também contribuíram para difundir a prática. Hoje, os fãs se fantasiam como seus personagens prediletos no mundo todo.

“Tem gente que escolhe o personagem por afinidade ou por achar bonito. Tudo é válido”, observa Vitória Barros. Se é que regras rígidas existem nesse mundo de diversão, elas se referem à fidelidade em relação ao traje. “É um processo com que a pessoa se envolve mesmo e acho que é por isso que o cosplayer se sente tão mal quando alguém vira e fala que a sua atividade é coisa de louco. É um envolvimento visceral”, completa a pesquisadora e jurada.

Preparar um cosplay envolve meses de dedicação. O tempo varia de acordo com a complexidade do personagem escolhido. “Nem sempre a gente faz cosplay de personagens superconhecidos”, explica Nando. Como Samus Aran, Rayara Eckhardt ganhou o terceiro lugar na Comic Party realizada no fim de agosto. Para reproduzir a personagem, a cosplayer lembra que passou pelo menos um mês percorrendo todas as lojas de tecidos do Bairro Barro Preto, em BH, para encontrar não apenas o tom exato de turquesa, mas o caimento e até o brilho adequados.

É muito comum a importação de itens e a realização de bazares via internet. “O acesso às perucas e às lentes de contato não era tão fácil. Todas as perucas que a gente usa hoje são importadas. As nacionais são muito ruins”, diz Nando Gray. Personagem montado, cada praticante escolhe exibi-lo da forma que achar melhor.

O que não falta nesse metiê são concursos. Podem julgar apenas o traje ou a performance dos cosplayers e seus respectivos personagens. “Muita gente nem compete. Só gosta de ir aos eventos para interagir com as pessoas”, observa Vitória Barros.

No ano passado, Fernando foi o campeão nacional de cosplay em dupla com Diego Pereira, também de Belo Horizonte. Em julho, eles representaram o Brasil no mundial realizado no Japão. Feiras como Anime Festival, promovido quatro vezes ao ano em Belo Horizonte, ou eventos internacionais como Comic Con, realizado em São Paulo, são points.

JAIR AMARAL/EM/D.A.PRESS
A costureira Eva Maria da Conceição passou a se dedicar unicamente à confecção de fantasias. No universo cosplay, ela agora é uma cosmaker (foto: JAIR AMARAL/EM/D.A.PRESS)
Fantasias chegam a R$ 800

O hobby do cosplay acaba movimentando uma pequena indústria de entretenimento. Dentro dessa cadeia de produção, um profissional que ganha cada vez mais destaque é o cosmaker, o responsável por confeccionar a fantasia. Depois de 40 anos como costureira, há pelo menos três Eva Maria da Conceição passou a se dedicar apenas a esse filão.

“Se alguém for me encomendar um vestido normal, vai ter que esperar até janeiro para ficar pronto”, diz Eva. Atualmente, ela tem 35 cosplays – de animes, comics ou games – encomendados até novembro. Pedidos para fevereiro já estão na fila. “Sento na máquina às 7h e vou até quando conseguir, em geral por volta das 19h”, conta.

Tudo começou quando Eva aceitou a encomenda de uma blusa. Como é muito detalhista, caiu no gosto dos cosplayers, que valorizam o perfeccionismo da roupa. Até fazem questão de participar da confecção. Hoje, além da fantasia, a cosmaker também produz acessórios, armas e armaduras. O tempo de produção varia de acordo com o detalhe de cada personagem. Pode durar de um a 10 dias.

O preço também é flexível. “Varia em função do tecido e de todo o material”, diz a costureira. Se um simples uniforme japonês pode custar R$ 140, o traje completo de Anakin Skywalker (personagem que se transforma em Darth Vader em Star wars) chega a ultrapassar R$ 800. “A roupa dele é toda de linho mais rústico”, detalha.

Como a maior parte dos tecidos utilizados são importados, isso significa que o hobby é fortemente impactado pelas variações do dólar. Como Eva já faz parte do clã, facilita. “A grande maioria dos cosplayers trabalha, faz faculdade e ainda ajuda em casa. Não está com dinheiro sobrando”, afirma.

FESTIVAL
A próxima edição do Anime Festival BH está marcada para os dias 19 e 20 de setembro no Minas Centro (Rua Guajajaras, 1.022, Centro). Além do tradicional concurso de cosplay, haverá feira de quadrinhos, desenhos animados japoneses, mangás e games. O dublador Carlos Seidl, conhecido como a voz do Seu Madruga do Chaves, é um dos convidados desta edição. São esperadas caravanas de fãs de todas as regiões de Minas Gerais. Informações www.animefestival.com.br.

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