"O diário de Guantánamo" escancara os portões do inferno

Relato do mauritano Mohamedou Ould Slahi expõe as torturas e o sofrimento a que foi submetido pelo EUA

por Pedro Rocha Franco 29/08/2015 08:00

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BEN STANSALL/afp - 20/1/15
BEN STANSALL/afp - 20/1/15 (foto: BEN STANSALL/afp - 20/1/15 )

O portão do inferno estampa a sentença final: “Deixai toda a esperança, vós que entrais”, diz a passagem de A divina comédia, de Dante. Mohamedou Ould Slahi teria motivos assaz para ceder. Permaneceu retilíneo na defesa de suas convicções, sob a tormenta de anos de prisão sem o apontamento do crime por ele cometido. Em um verão sem sol, Slahi narra, em 390 páginas manuscritas em uma cela da Baía de Guantánamo, uma história de abusos e arbitrariedades difícil de se adjetivar. Em reação aos atentados comandados pela Al-Qaeda em território norte-americano, o mauritano é um dos presos dos Estados Unidos e seus aliados mundo afora na “guerra ao terror”. Slahi conseguiu lançar suas memórias mesmo estando preso, sem acusação formal, há mais de 12 anos.

A tortura parece uma prática tão trivial para os interrogadores quanto orar cinco vezes ao dia o é para um muçulmano. Em O diário de Guantánamo, o autor descreve em pormenores as cenas de tortura a que foi submetido na cadeia, da crueldade psicológica a humilhantes estupros. “Ninguém imagina como é terrível para um ser humano ser ameaçado de tortura. A pessoa se torna literalmente uma criança”, narra, ao recordar o instante ao qual é avisado de que será entregue a uma equipe de torturadores (interrogadores). Não eram mais apenas as ameaças psicológicas que o impediam de dormir e levavam-no a delírios pelos 70 dias seguintes. “Não conheci a brandura do sono”, cita em lembrança aos momentos que guardas o mantinham acordado por noites e noites.

A rotina de uma política descomedida é principiada semanas depois da queda dos edifícios do World Trade Center e de outros ataques.Todas as violações são aprovadas a partir da censura aos nomes dos responsáveis pelas práticas. A cada nova folha escrita pelo preso, tarjas pretas são colocadas de forma a impossibilitar a identificação dos autores. Por fim, o livro recebe o carimbo de secreto, rótulo concebido a informações sigilosas da segurança nacional.

Não cabe aqui questionar, de fato, quem é Slahi, mas, sim, analisar o tratamento a ele dedicado. Nem mesmo o FBI (polícia federal dos EUA) e a CIA (agência de inteligência dos EUA) conseguiram ser unânimes. Quem será? Um radical que depois de lutar no Afeganistão em 1992 passou a contribuir na elaboração de atentados contra o Ocidente ou um muçulmano vítima de suas origens? Nenhum crime foi-lhe atribuído, a não ser o seu passado.

Arbitrariedade
A credibilidade do livro está no fato de o autor ser uma fonte primária de informação. Por mais paradoxal que possa soar, pari passu, dada a impossibilidade de se comprovar cada detalhe do relato, tal fator é usado para desacreditar o texto. Sem a chancela de outros personagens da história – ou mesmo a improvável confirmação ipsis litteris do próprio governo dos EUA –, o leitor se faz refém da versão de Slahi. E tal prerrogativa é ancorada pelo status quo para diminuir a validade do discurso não oficial.

Um ponto impassível de questionamentos é a arbitrariedade da política militar norte-americana ao ocupar solo cubano para aprisionar supostos “terroristas”, dos quais 52 já foram inocentados perante à Justiça. Nem mesmo tais decisões são suficientes para a liberdade de Slahi e outros detentos da Prisão Militar de Guantánamo. Afinal, “aos olhos dos americanos, você está condenado”, teria dito ao autor um de seus interrogadores na prisão, “basta olhar para você de roupa laranja, acorrentado, muçulmano e árabe”.

GTMO pode estar perto do fechamento, segundo a Casa Branca, efetivando assim uma promessa não cumprida do primeiro mandato de Barack Obama. O livro, sem dúvida, acelera tal medida. É uma, entre as muitas, graves falhas da política externa pós-11 de Setembro, de autoria do ex-presidente George W. Bush, que o democrata é obrigado a corrigir. O desafio é efetivá-la até 7 de novembro de 2016, véspera da 58ª eleição presidencial, tendo que enfrentar um Congresso de maioria republicana, para quem a prisão na baía cubana tem validade. De concreto, as portas do inferno nunca deveriam ter sido abertas.

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