Festas de Agosto começam em Montes Claros com desfile de rua

A manifestação é realizada por grupos folclóricos e tem origem na cultura dos escravos

por Luiz Ribeiro 20/08/2015 15:08

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Luiz Ribeiro/ EM/D.A Press
(foto: Luiz Ribeiro/ EM/D.A Press)
Começaram nesta manhã de quinta-feira em Montes Claros, na Região Norte de Minas Gerais, as Festas de Agosto, manifestação folclórica realizada há pelo menos 176 anos. A festa é comandada por grupos de catopês, marujos e caboclinhos, que desfilam durante o dia pelas ruas com seus ritmos, roupa coloridas (branco, rosa, azul e vermelho) e danças nos cortejos. À noite, o público assiste a uma programação de shows, que se estendem até domingo. Os festejos foram abertos com o Reinado de Nossa Senhora do Rosário (cor branca).

O cortejo saiu da Praça do Automóvel Clube, em direção à Igrejinha do Rosário, no Centro da cidade. Na sexta-feira, haverá o cortejo de São Benedito (cores branca e rosa). No sábado pela manhã, será a vez do desfile do Império do Divino, dominado pela cor vermelha. São cerca de 300 dançantes entre catopês, marujos e caboclinhos. Também são recebidos grupos folclóricos de outras cidades como Bocaiúva (Norte de Minas) e Serro (Vale do Jequitinhonha).

A cidade também oferece shows gratuitos, realizados na Avenida Afonso Pena. A atração desta quinta-feira á noite é o cantor Tino Gomes e amanhã, o músico Yuri Poppov mostra o seu talento. No sábado, haverá show do cantor Beto Guedes. Os visitantes também podem experimentar as comidas típicas da região, como a carne de sol e o arroz com pequi. As ruas centrais receberam decoração especial para os festejos, com fitas coloridas, uma alusão aos "capacetes" dos catopês.

Luiz Ribeiro/ EM/D.A Press
(foto: Luiz Ribeiro/ EM/D.A Press)
Origem escrava

O professor João Batista Almeida Costa, doutor em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB), ressalta que as Festas de Agosto de Montes Claros são numa manifestação cultural criada pelos dos escravos. “As festas surgiram como um ato de resistência dos negros no período da escravidão”, afirma o antrópologo.

Ele lembra que o primeiro registro oficial da manifestação é datado de 1839. Trata-se um documento encaminhado à Câmara Municipal da cidade do morador Marcelino Alves, fazendo ”um pedido de licença para tirar esmolas para as festas de Nossa Senhora do Rosário e Divino Espírito Santo que pretendia fazer nesta freguesia”. Também há registro de realização de “desfile de catopês e cavalhadas” para a comemoração da coroação do imperador dom Pedro II em 1841.

Por outro lado, salienta Almeida Costa, existem indícios de que as tradições folclóricas tenham sido iniciadas há mais tempo. “Em 1817, quando percorreu Minas Gerais, o naturalista francês Auguste Saint-Helaire faz referência a uma festa religiosa a Nossa Senhora na região de Montes Claros, antigo Arraial das Formigas. Tudo indica que foi uma alusão ao cortejo da Festa de Nossa Senhora do Rosário”, observa o pesquisador.

Ele ressalta que a partir da segunda década do século XX, as festas deixaram de ser simplesmente uma manifestação dos negros e se transformaram em um evento da sociedade local, envolvendo pessoas das diversas classes mais elevadas.
As Festas de Agosto se transformaram objeto de pesquisas sobre a cultura popular, abordadas em teses de mestrado em diversas brasileiras. Além de estudantes de música e arte, os festejos atraem o interesse de pesquisadores estrangeiros. O presidente da Associação de Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros, João Pimenta dos Santos, o Mestre Zanza, diz que, a cada ano, aumentam as visitas, especialmente de estrangeiros à sede da entidade, que guarda um acervo fotográfico das manifestações.

Os ritmos das Festas de Agosto também contribuíram para a formação musical de artistas que nasceram em Montes Claros e ganharam sucesso nacional. Beto Guedes, com mais de 40 anos de carreira, relata que ganhou inspiração das Festas de Agosto, adotando o ritmo dos catopês em um trecho em uma de suas gravações, a música Rio Doce”, composta em parceria com Tavinho Moura e Ronaldo Bastos. Ele recorda dos seus tempos de criança, quando acompanhava os desfiles dos grupos de catopês em Montes Claros. “Lembro que a primeira vez que vi os catopês, eu tinha uns cinco anos de idade. Achei muito bacana aquele ritmo deles”, conta o cantor e compositor, que também recorda que “naqueles tempos”, os grupos folclóricos desfilavam no “subindo” a rua Coronel Joaquim Costa,perto do antigo Mercado de Montes Claros. “Eles andavam no meio da poeira”, diz ele, lembrando que na época, a cidade praticamente não tinha rua asfaltada.

Beto Guedes, que mora em Belo Horizonte desde os nove anos de idade, vai estrear nas Festas de Agosto neste sábado. “Pra mim, é muita honra fazer um show em minha cidade natal e num evento como esse, revela o cantor.

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