Shirley Paes Leme apresenta duas exposições em Belo Horizonte

Instalações exploram diversas formas de escrita para criar ambientes que transformam a experiência vivida e propõem novos encontros

por Walter Sebastião 13/08/2015 08:58

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Eduardo Eckenfels/divulgação
'Quando atitudes (trans) formam', obra que faz alusão ao conhecimento, à história e dialoga com escritores (foto: Eduardo Eckenfels/divulgação)
“Hoje, nas artes, não se justificam pesquisas apenas criando formas. O que interessa são as atitudes que transformam. Um trabalho pode ser bem ou malfeito artesanalmente, mas, se não transformar o sujeito, não é arte”, afirma a mineira Shirley Paes Leme, de 60 anos, que abriu exposição na Galeria de Arte do Minas Tênis Clube. E, para demonstrar sua tese, apresenta duas instalações: 'Quando atitudes ‘trans’ formam', que dá nome à mostra e foi  concebida especialmente para o local, e Classe. Ambas são ambientes criados com intervenções de textos no espaço, objetos, esculturas, desenho, projeções e música. Trata-se, conta a artista, de momento radical de pesquisa que atravessa toda a obra realizada.

As duas instalações têm precedente na obra da artista. Shirley, valendo-se de resinas transparentes, criou, em sala do Museu Vale (ES), trabalho que sugeria uma invasão do mar ao local. Agora, na galeria do Minas, transforma janelas em lombadas de livros, paredes de vidro em vitrais, teto em páginas etc. Tudo para criar espaço que alude ao conhecimento, leitura, informação, história. Para a artista, emblemas de elementos que produzem transformação e fundam o pensamento. A mostra faz alusões ao literário, a bibliotecas, aos escritos etc., evocando, inclusive, escritores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, Adélia Prado, Clarice Lispector e Mario de Andrade, entre outros.

“Em um mundo já cheio de coisas, não faz sentido ficar criando mais e mais coisas. O mais interessante é ter atitude de transformação, evidenciar situações, frisar certas questões”, afirma, explicando sua opção. Os trabalhos expostos em Belo Horizonte evidenciam o processo de criação, discutem as vivências e reiteram a importância do contato direto entre as pessoas. Para valorizar o aspecto do encontro, Shirley vai convidar, até o final da exposição, artistas para conversas com o público no espaço. “A vida não tem sentido se não existe o outro, a troca, a transformação, boa ou ruim, que o encontro proporciona”, garante.

Shirley Paes Leme é escultora, desenhista, gravadora e foi professora na Universidade Federal de Uberlândia. Nasceu em Goiás, mas vive e trabalha em Uberlândia. Já morou, estudou, fez residência ou expôs nos Estados Unidos, Suíça e Alemanha. Já teve trabalhos em várias bienais (de São Paulo, de Havana, Suíça etc.), além de ter participado de coletivas em importantes espaços de arte, com destaque para uma grande mostra individual no Museu Vale, em Vitória, no ano passado.

Aplicando à vida pessoal o mesmo argumento que defende na arte, avisa que não diferencia sua produção artística e as atividades como professora. “Nos dois casos, são atividades de criar”, observa, destacando que vê a prática na sala de aula como algo de performance. A artista explica que as obras apresentadas remetem à sua formação, com traços conceituais de seus estudos nos EUA, mas também aspectos de sua trajetória pessoal, como o fato de ter vivido entre a cidade e a fazenda e ser uma leitora compulsiva. “De tudo que vivi, ficou um pouco”, brinca, citando o poema Resíduo, de Drummond.

Shirley Paes Leme vê continuidade e aprofundamento em seu percurso iniciado com 'Formas lúdicas no espaço' (1979), túnel feito com galhos no Parque do Sabiá, em Uberlândia. Outros trabalhos que dialogam com os expostos em BH são 'Inside out' (1986, EUA), 'Uno' (1990, Suíça), 'Cultura' (1999, São Paulo), 'Lumem vaga lumem' (2000, Havana), peças em que as pessoas podiam entrar (as três primeiras) ou trabalhos que articulam tecnologia e elementos da natureza.

 

MERCOSUL

Shirley Paes Leme está, pela segunda vez, entre os artistas selecionados para a 10ª Bienal do Mercosul, que acontece em Porto Alegre de 8 a 22 de outubro. O evento, em 2015, sob o título de Mensagens de uma nova América, tem curadoria de Gaudêncio Fidélis e vai ser criado a partir de obras de coleções públicas e privadas de vários países. Os mineiros no evento são: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, Amílcar de Castro, Décio Novielo, João Castilho, Manfredo de Souzanetto, Iole de Freitas, Laura Lima, Lygia Clark, Niura Bellavinha, Pablo Lobato, Paulo Nazareth e Willys de Castro.

 

'When attitudes (trans) form – Quando atitudes (trans) formam'
Instalações de Shirley Paes Leme, curadoria de Cauê Alves. Galeria de Arte do Minas Tênis Clube, Rua da Bahia, 2.244,Lourdes, (31) 3516-1000 . De terça a sábado, das 10h às 20h, e domingos e feriados, das 11h às 19h. Até 12 de outubro. Entrada Gratuita.

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