Marco Antônio Guimarães e Samuel Rosa assinam as trilhas de Dança sinfônica e Suíte branca

Referência da música contemporânea e estreante que vem da escola da música pop contam como criaram as composições

por Mariana Peixoto 02/08/2015 10:54

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Leandro Couri/EM/D.A Press
Haroldo Ferretti, Lelo Zaneti, Henrique Portugal e Samuel Rosa, do Skank, acompanham o ensaio (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

São dois opostos que deverão se complementar. De um lado há um estreante que vem da escola da música pop. Do outro um veterano, nome de referência da música contemporânea brasileira. Além disso, é o compositor que mais trabalhou com o Corpo. Samuel Rosa e Marco Antônio Guimarães assistem, na próxima quarta-feira, à estreia de suas composições: Suíte branca (gravada pelo Skank) e Dança sinfônica (registrada pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e pelo Uakti), respectivamente.


Se o Corpo está completando 40 anos, a parceria com Guimarães tem pelo menos 27. Sua estreia foi em Uakti (1988), que ele classifica como “minha primeira tentativa de compor para dança”. Peça curta se comparada às que a sucederam, entre elas 21 (1992), um divisor de águas do Corpo. O Uakti gravou boa parte das composições para a dança assinada por Guimarães.


No caso de Dança sinfônica, Guimarães concebeu a peça na forma de uma suite. “Quando componho trilhas para o Corpo, procuro inicialmente por uma ‘abertura’ com ideia ou característica diferente para o início de cada balé. Para Dança sinfônica quis utilizar o belo efeito sonoro que é uma orquestra sinfônica afinando os instrumentos. A partir disso, fiz a ligação com um canto gregoriano e tem início o balé.”


Ele acompanhou a gravação da trilha, realizada no final de 2014 no Teatro Bradesco, em que a Filarmônica foi regida por Fabio Mechetti. “São várias danças (12 ao todo), com três, quatro minutos cada. É uma obra muito fragmentada. Algumas danças são baseadas em temas populares, outras em reminiscências de Bach, Vivaldi, o que remete a um passado barroco”, afirma o maestro.


Cada dança explora um naipe de instrumentos. Há uma em que predominam as maneiras, outra só com cordas, e ainda aquelas que destacam os metais ou as percussões. A Filarmônica gravou as partituras de Guimarães, que depois criou as “pontes” entre uma dança e outra. Estas foram gravadas pelo Uakti.


De acordo com Guimarães, a maneira de trabalhar com o Corpo, ao longo de tanto tempo, não mudou. “Como o grupo sempre me proporcionou total liberdade de criação, posso partir de um conceito inicial básico (como as figuras geométricas de 21) e seguir uma linha de desenvolvimento até chegar ao esboço de uma forma geral. Chegar a esse ponto é como se fechasse o contorno de um espaço imaginário onde todo o resto será inserido.”


Miguel Aun/Divulgação
Rodrigo Pederneiras, Marco Antonio Guimarães e Fabio Mechetti durante a gravação da trilha de Dança sinfônica, do Grupo Corpo, no Teatro Bradesco (foto: Miguel Aun/Divulgação)

Neófito na composição de trilhas, Samuel Rosa também fala sobre a total liberdade para criar Suite branca. “Como não tenho experiência nisso, imaginava que o compositor recebesse um tema, um nome, mas nada. Vi que a viagem tinha que ser nossa.” Suite branca foi gravada por ele e seus três companheiros no Skank, o tecladista Henrique Portugal, o baterista Haroldo Ferretti e o baixista Lelo Zaneti. “A gente tem muita experiência de estúdio e, como tínhamos acabado de gravar o Velocia (o disco foi lançado em junho de 2014), sabíamos que havia coisas que não serviam para o disco, para tocar em rádio, mas que caberiam bem numa trilha.”


Assim como Marco Antônio Guimarães, Samuel criou a trilha em cima de suítes. Ao longo de 30 minutos, a trilha tem sete delas. Quando a composição estava bem adiantada, ele chamou Paulo para escutá-la. “A partir da observação dele aprendemos como é que é. Ele disse que não teria bailarino para fazer tudo (o que a música propunha), que a gente deixaria os caras esgotados. Então tirei um pouco o pé do acelerador. Busquei mais a pausa, deixamos num clima mais tranquilo.”


Por ora ele só assistiu a uma parte dos ensaios, não viu a coreografia completa. “Tem um momento em que gravei com guitarras de timbres diferentes a mesma frase (do instrumento). A Cassi (Abranches, autora da coreografia) colocou uma bailarina leve dançando sozinha, como se fosse uma guitarra. É interessante ver onde as ideias se encontram e onde não. E música é para comunicar, então é curioso ver como o outro percebe a sua composição.”

 

Coreografia composta a quatro mãos


Helvécio Carlos

Pode parecer novidade na carreira do Corpo, mas essa não é a primeira vez que a companhia estreia um programa com coreografia de Rodrigo Pederneiras em parceria com outra coreógrafa. No final do anos 1980, Suzanne Linke esteve em Belo Horizonte para criar Mulheres. Mas, apesar da admiração do mineiro pela coreógrafa alemã, o resultado não foi o esperado. “Gosto muito. Mas não era a nossa praia, nosso jeito de fazer, nossa forma de compor. O trabalho se tornou uma peça à parte do nosso repertório”, observa Rodrigo.


Trinta anos depois, é a vez de Cassi Abranches, ex-bailarina da companhia, assinar com Rodrigo o programa comemorativo dos 40 anos do grupo. “Ela vem para contribuir totalmente”, aposta o coreógrafo, que não poupa elogios para a “loura”, como é chamada carinhosamente pelo sogro. “Cassi consegue chegar diretamente ao ponto sem dar voltas e com segurança. É a maior delícia trabalhar com ela, que é a mãe dos meus netos. Esse dividir não poderia ser melhor.”


Se o clima é de dever cumprido, os últimos meses foram de muito trabalho e concentração para a construção da coreografia. Cassi reconhece que o fato de ter dançado com o grupo foi um facilitador, pois sabe exatamente o que cada um dos bailarinos pode oferecer de melhor. A música composta por Samuel Rosa com execução do Skank caiu como uma luva no processo criativo. “Quando ouvi a primeira nota da guitarra do Samuel, vi que podia brincar com a história da gravidade”, conta, explicando que pesquisou teoria física e imagens para usar no processo criativo. Íntima da equipe, diz que o resultado é fruto de um esforço conjunto. “Contou muito a generosidade de Rodrigo, a disponibilidade dos bailarinos, o trabalho de duas grandes assistentes – Macau e Paulinha Cançado. Uma equipe fabulosa”.


Como a data tem um aspecto simbólico muito significativo, Rodrigo revela que o trabalho foi emocionante. “O que eu tinha na cabeça era memória em todos os sentidos. O balé tem um lado emocional muito forte”, diz ao se lembrar de sua trajetória. “Algumas são deliciosas outras mais tristes, pesadas. Obviamente, o público não vai perceber, mas receberá essas sensações com certa força.”


Rodrigo não fala em aposentadoria. Mas pensa, seriamente, em desacelerar o trabalho. “Tentei diminuir minhas viagens nas turnês internacionais. Mas não consegui. Quem sabe a partir de agora a loura faz uma estreia em um ano, eu em outro. Acho que vou estrear cada vez menos, ela cada vez mais.”

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