Linguagem criada por Rodrigo Pederneiras dialoga com as artes visuais e a música

Novos vocabulários renovaram a poética dos movimentos

por Walter Sebastião 02/08/2015 10:45

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José Luiz Pederneiras/corpo
Em Sem mim, coreografias se mesclam ao universo marítimo sugerido por redes e corpos tatuados, com forte impacto dramático (foto: José Luiz Pederneiras/corpo )

Os espetáculos do Corpo são lindos, mas as criações do grupo têm mais do que beleza, afirma Iracity Cardoso, diretora do Balé da Cidade de São Paulo. Ela acompanha a companhia mineira desde o início de sua trajetória e já dançou coreografias de Rodrigo Pederneiras.


“O que faz a força do Corpo é o Brasil e o Rodrigo Pederneiras, um grande criador”, afirma, observando que sua ligação com o coreógrafo vem desde a época em que ele era bailarino. Para Iracity, a linguagem da companhia vem do jeito de o brasileiro se movimentar – tratado de maneira cênica, com ritmo e sabor particulares. “É aí que está a marca forte do grupo”, afirma.

“Os corpos conversam com figurinos, cenários, trilhas e com a luz. Cada trabalho traz marca muito pessoal e acabamento apurado, produto de uma equipe forte e de muito talento. Isso colaborou para que outras companhias brasileiras procurassem a mesma qualidade de produç


“Acho muito bom ver um grupo independente, por mais que receba apoio dos governos, completar 40 anos. É uma história. A continuidade fez com que o trabalho deles crescesse e se desenvolvesse”, garante.

TRANSFORMAÇÃO O que move a poética do Grupo Corpo é um modo de pensar e fazer dança, explica a crítica e pesquisadora Helena Katz. “Todo o núcleo que cria as montagens foi ficando cada vez mais permeável ao que os corpos dos novos bailarinos traziam para a companhia. Ao longo de 40 anos pudemos acompanhar uma transformação, a contaminação dos trabalhos do Corpo por danças que não são de palco”, observa, citando hip-hop, dança de salão e as baladas da moçada. Helena comenta que, nos últimos anos, “os movimentos fluidos ficaram mais quebrados, mais vindos do chão, renovando a linguagem do grupo e agregando novos vocabulários”.


A crítica chama a atenção para a importância do trabalho continuado. “Artistas como Rodrigo Pederneiras, com carreira longa, vão marcando, demarcando e circunscrevendo o campo que se chama dança e o que cabe nesse lugar. Trabalhos assim permitem que outros possam continuar a pesquisa”, explica.

LINGUAGEM “A força do grupo está em sua linguagem coreográfica reconhecível”, afirma Cristiano Reis, diretor artístico da Companhia de Dança do Palácio das Artes. “Por mais que os trabalhos procurem quebrá-la, há uma linha que perpassa toda a carreira do Corpo. Trata-se do diálogo com as danças brasileiras e o corpo brasileiro, que mexe os quadris, tem bunda. Os russos não têm bunda”, compara, com bom humor. “O público se reconhece naquele corpo, naquela linguagem”, garante.
Para Cristiano, isso é resultado de uma equipe que trabalha junta há muito tempo, além da opção por elencos estáveis. “Os bailarinos captam a essência da proposta e têm a oportunidade de lapidá-la e refiná-la”, explica.

IMAGEM O aspecto visual da obra do grupo atrai o respeito de artistas plásticos. “As malhas, sugerindo corpos tatuados, e a rede, criando instalação em torno dos bailarinos, criaram imagem forte para a montagem inspirada em antigas canções de marinheiros”, observa o pintor e desenhista Mário Zavagli. Ele acompanha o Corpo desde o primeiro espetáculo da companhia.


“É extraordinária a unidade desse processo criativo que envolve várias pessoas, mas deixa a sensação de ter um único autor”, acrescenta Zavagli. Ele conta que não consegue separar figurino, cenário, luz, coreografia e trilha sonora. “Há grande coerência em toda a obra do Corpo”, resume, observando que as montagens partem de boas ideias desenvolvidas com intensidade por toda a equipe.


Mário Zavagli destaca o desenho cênico das coreografias de Sem mim. O sábio uso das passagens entre as cenas dá uma ideia de todo, sem fragmentação ou dispersão, observa. “Rodrigo Pederneiras tem uma percepção musical enorme, ele transforma sons em gestos. Bem cedo, decidiu que não queria contar histórias, mas construir relações entre corpos e músicas”.


Para o artista plástico, o grupo de dança mineiro contribuiu notavelmente para a música popular brasileira. “Canções hoje clássicas, como as de Maria Maria, não existiriam se não fosse o Corpo”, exemplifica, lembrando que CDs com trilhas para balé compostas por João Bosco, José Miguel Wisnik e Tom Zé estão entre os melhores desses artistas.

 

Ao longo de 40 anos, pudemos acompanhar uma transformação, a contaminação dos trabalhos do Corpo por danças que não são de palco” - Helena Katz, crítica

 

DEPOIMENTOS

 

Ana Botafogo
Diretora do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro


“O Corpo se firmou internacionalmente como o nosso maior grupo de dança, criando um selo de boa qualidade. As coreografias de Rodrigo Pederneiras são muito características dele, cada passo é como se fosse uma nota no corpo do bailarino. Elas cobram destreza e técnica, são produto de disciplina, rigor e ensaios impressionantes. Só assim se consegue tal grau de excelência. Leigos ou não, ao ver as apresentações do grupo saímos todos com vontade de dançar. Mas são coreografias difíceis, só quem é treinado por eles consegue fazê-las. A companhia também soube somar o lado artístico com boa administração e paixão pela dança”.

 

Hulda Bittencourt
Fundadora da Cisne Negro Companhia de Dança (SP)


“O Grupo Corpo é marca forte da dança brasileira. Tem uma linha de trabalho criada por eles, reconhecível por ser produto da opção de ter um coreógrafo residente, Rodrigo Pederneiras. Conseguir sobreviver por 40 anos fazendo trabalho de qualidade é uma vitória”.

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