Designers apostam na experimentação, desenvolvem linguagem pessoal e conquistam mercado

Criadores de Minas se destacam nesse disputado circuito

por Walter Sebastião 11/07/2015 11:00

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Acervo pessoal
O vaso 'fujão' criado por Anderson Horta (foto: Acervo pessoal )

Peças que deliberadamente procuram fugir de estéticas conhecidas, experimentando formas, materiais e texturas diferentes. Isso é design de autor. A dedicação a esse caminho cobra assumir riscos, revelam criadores que desenvolvem seu trabalho em Minas Gerais. O primeiro desafio é investir na produção, mesmo sem saber se há clientes interessados em comprá-la. Além disso, é preciso acompanhar atentamente todo o processo, às vezes complexo, para que o resultado não fuja ao projeto inicial. Outro risco: cabe ao próprio designer inventar formas de apresentar e negociar seu produto.
Quem escolheu esse caminho garante: ele traz muita satisfação pessoal, pois oferece amplo espaço à experimentação, possibilitando o desenvolvimento de uma linguagem pessoal. Produtos diferenciados chamam a atenção, o que contribui para a afirmação dos autores no circuito do design, muito disputado.


Localizar produtos assim e seus criadores exige muito “garimpo”, especialmente na internet. “Pesquise design mineiro e você vai encontrar todos nós”, garante Anderson Horta, de 32 anos. Formado em design, ele começou trabalhando para empresas. Como os projetos que exibia em seu blog chamaram a atenção, a partir de 2006 decidiu se dedicar a eles. “Vi que havia interesse, criei uma marca e passei a fazer trabalhos para ela”, recorda. O mineiro se vale de distribuidores, lojas e da venda direta para pôr produtos no mercado. Há peças em estoque, enquanto outras devem ser encomendadas.
“É o design inspirado em memórias afetivas, no comportamento das pessoas, valorizando a inovação com humor”, explica Anderson Horta. Ele já criou vaso com pernas, luvas de cozinha com aquela mãozinha que se vê no computador, tapete cuja forma sugere animal atropelado na estrada e até um pequeno móvel, chamado Cachorro Louco, que brinca com a agressividade de certos cães.


“Design também pode discutir o comportamento das pessoas e o contexto em que vivemos”, defende Horta. Para ele, a preocupação com tendências de mercado não é função do trabalho autoral. “O design brasileiro tem um potencial enorme, mas precisa fazer diferente”, defende. E critica o apego excessivo a tendências, o que acaba gerando cópias, “com pequenas alterações”, do que é exibido em feiras como a de Milão, na Itália.
Anderson não abriu loja on-line, mas valoriza o poder da internet. “Ela criou a possibilidade de vender para pessoas de qualquer parte do mundo. Design tem mercado fértil”, afirma. A dificuldade de encontrar produtos com esse perfil, explica, deve-se à pouca atenção dada à criação brasileira. “Ainda valorizamos demais o importado. Isso não é problema só de Minas Gerais”, adverte.

Acervo Pessoal
Daniela Karam foi ao Peru aprender com as artesãs de Ollataytambo (foto: Acervo Pessoal)

CULTURA
Daniela Karam tem 42 anos, é formada em publicidade, mas trabalhou durante duas décadas como designer gráfica. Há nove anos, ampliou sua vivência. Estampas criadas por ela ganharam várias aplicações: papel de parede, tecido para revestir móveis, papelaria e objetos domésticos. Uma de suas coleções, aliás, se chama Alfaiataria para Casa. O ponto de partida são as viagens dela para outros países.


Guatemala, Cuba, França, Portugal, Peru e Bolívia já inspiraram Daniela. “Adoro viajar. É o design com o viés da cultura”, explica. “Sigo meu estilo e meu instinto, não as tendências”. Ela fica feliz ao receber convites para aplicar sua linguagem em produtos industrializados. Os desafios não são poucos. As dores de cabeça vêm de fornecedores e do processo de fabricação. “A margem de erro é alta, há muita irregularidade. Isso ocorre mesmo quando executam um trabalho pela terceira vez. Temos muitos designers talentosos, mas precisamos alcançar maior regularidade de nosso processo industrial”, observa.


Daniela negocia diretamente com o consumidor em sua loja on-line. “Foi importante trabalhar com o atacado, fazer lançamentos em lojas físicas em São Paulo. Isso trouxe reconhecimento nacional, o que me deu base para permanecer em BH e vender para todo o Brasil”, explica. “Estou me dando o luxo de uma vida mais tranquila, sem a pressão de atender à demanda de mercado ou de lançar produtos freneticamente. Ganhei em qualidade, pois produção menor permite maior controle”, conta.

IDENTIDADE “A dedicação ao design autoral me deu identidade, uma cara no mercado”, garante o ourives mineiro Paulo Armando, de 45. Há duas décadas, ele trocou o curso de ciências da computação pela formação em design. Começou apresentando peças em galeria de arte. Optou por pequenas tiragens e peças únicas, até devido ao custo da matéria-prima. Tal escolha cobrou ousadia. “Investi todo o meu ouro em coleções autorais, às vezes sem ter clientes”, relembra. Concursos consolidaram o prestígio dele como criador.


Cunhado e irmão de profissionais dedicados à produção de joias, Paulo tem paixão por gemas brasileiras. “Minas Gerais talvez seja a província gemológica mais importante do planeta. Nossas pedras não são bonitas, são deslumbrantes”, afirma, citando turmalinas, águas-marinhas, esmeraldas e diamantes. “O topázio-imperial só é encontrado na região de Ouro Preto”, entusiasma-se, observando que esse material poderia ser mais usado por criadores brasileiros.


Com relação à linguagem que desenvolveu, Paulo Armando vai logo avisando: é cartesiano. “Gosto de simetrias, equilíbrios, geometrias e clareza. Há um background matemático no que faço, a formação em computação não desgrudou de mim”, acredita. Suas peças trazem a sedução pela art decô – estética da passagem do século 19 para o 20, fundamento da modernidade.


O designer e ourives lamenta que nossas vitrines exibam tantas peças massificadas, sem personalidade e com pouca inovação. Situação compreensível, pondera Paulo, citando a necessidade de vender e a pouca disposição do consumidor em arriscar. Joia é inevitavelmente ligada à moda, que segue tendências, constata.


“Seguir o mercado não combina com joia de autor. Trata-se de uma peça feita com material precioso, você não vai deixar de usá-la só porque o rosa saiu de moda”, conclui Paulo Armando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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