Roteirista planeja desvendar a imagem de Chica da Silva

Pesquisadora paranaense que vive nos Estados Unidos já tem autorização para exumar o corpo da escrava. Há, porém, quem discorde. Professora da UFMG acha o projeto "uma bobagem"

por Ana Clara Brant 10/07/2015 09:10

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ILUSTRAÇÃO: LELIS E VALF
(foto: ILUSTRAÇÃO: LELIS E VALF)
Quem realmente foi Chica da Silva, a escrava que teve um relacionamento amoroso de anos com um dos homens mais ricos do século 18, o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira? Uma sedutora, uma rainha, uma bruxa ou uma heroína? E como ela era? Bonita, alta, magra, baixa? Para tentar responder a essas e a outras questões, a roteirista paranaense Rosi Young, que vive atualmente nos Estados Unidos, desenvolve o que classifica como um “documentário científico” chamado 'A rainha das Américas: a verdadeira história de Chica da Silva'.


O projeto prevê até a exumação dos corpos da escrava e do contratador, com a participação de uma equipe de cientistas plurinacional – o antropólogo forense norte-americano Anthony Falsetti; sua mulher, a artista forense brasileira Catyana Falsetti, que ficará a cargo da reconstrução facial e crânio-facial, e a antropóloga molecular neozelandesa Ann Horsburgh.

Liderada por Rosi Young, a equipe deve ir a Diamantina em novembro próximo para o início dos trabalhos. O principal objetivo é determinar altura e peso do casal e outros dados que permitam reconstruir holograficamente suas formas. No entendimento de Rosi, como os descendentes se “perderam no tempo” e Chica e João morreram há mais de 70 anos, são personagens cuja história é de domínio público.

No entanto, para fazer a exumação do corpo de Chica foi necessário obter autorização da Prefeitura de Diamantina e da Irmandade São Francisco de Assis, já que ela teria sido enterrada na igreja de mesmo nome. No caso do contratador, que nasceu em Mariana e foi criado em Portugal, a escritora diz ter em andamento negociações para ter acesso à sua sepultura, em Lisboa. “Esse trabalho só deve ser concluído em 2017, quando vamos lançar o documentário. A pesquisa vai ser respeitosa. Queremos apenas mostrar quem realmente foi essa mulher, que é um símbolo. Vamos tentar descobrir, se possível, a causa mortis do casal. A ideia é trazer João Fernandes para ser enterrado junto com sua amada”, afirma a escritora.

 

Passo a passo

1 - A exumação de Chica deve ocorrer em fevereiro de 2016 (mês do aniversário de sua morte).

2 - A autora do projeto acredita que o corpo de Chica da Silva foi enterrado junto com os de outras pessoas, incluindo uma irmã e uma filha. Todos deverão ser exumados para tentar identificar a da escrava.

3 - Os ossos masculinos serão separados dos femininos.

4 - A partir daí, será feito  exame de DNA mitocondrial. O material contido nas mitocôndrias (usinas de energia das células) é herdado apenas por via materna. Esse exame revela, portanto, a origem materna do indivíduo

5 - Se identificada Chica da Silva, será feito um trabalho para reconstruir sua face, por meio de fotografias do crânio e uma tomografia especializada. O rosto será posteriormente moldado em argila.

 

“BOBAGEM” Apesar de Rosi dizer que a repercussão de sua ideia tem sido extremamente positiva, há quem torça o nariz para a empreitada. Considerada a maior especialista em Chica da Silva, a historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Júnia Furtado acha “uma grande bobagem” exumar o corpo da escrava. No livro 'Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito', escrito a partir de uma minuciosa pesquisa em documentos históricos, Júnia afirma que não há certeza de que o corpo de Chica esteja enterrado na Igreja de São Francisco (Diamantina), já que, àquela época, os enterros costumavam ser coletivos, com diversos corpos sendo alocados numa mesma cova.

A professora conta que, durante sua pesquisa, encontrou um jornal do começo do século 20 em que o jornalista diamantinense Antônio Torres cita que o corpo de Chica foi encontrado muitos anos após seu falecimento, com a pele seca e negra, e atirado como resto de animal. O texto de Torres dizia: “Era como um saco de ossos que, ao menor movimento, chocalhavam sinistramente. O coveiro teve escrúpulos de guardá-lo em um lugar sagrado e atirou-o em grotas afastadas, como restos de animal selvagem. Rolado ao vento, produzia vibrações estranhas, que atemorizavam, semelhando gargalhadas de mofa. Os que passavam, mais corajosos, balbuciavam o insulto costumado: ‘Toma lá, quingongo (divindade ligada à profundeza da terra na religião banta)!’ Os demais passavam apressadamente e benziam-se ao ouvir o chocalhar dos ossos.”

“Nem dá para saber exatamente onde esses restos mortais estão. Se estiverem lá, estão junto com outros corpos. Acho tudo isso uma perda de tempo. O que posso dizer é que projetos como esses sempre encontram bobos para bancá-los e acreditar neles. Mas pesquisas históricas e científicas sérias, documentadas e que levam anos, não ganham tanto crédito. É lamentável”, afirma a pesquisadora.

Rosi Young diz que seu documentário deve contar com a participação das atrizes Ísis Valverde e Letícia Sabatella e terá Zezé Motta na direção. Zezé, que ganhou projeção quando interpretou Chica da Silva no filme de Cacá Diegues ('Xica da Silva', 1976), afirma não estar muito a par da iniciativa de Rosi. Diz apenas que recebeu o convite e que, a princípio, tudo que diz respeito à personagem lhe interessa. “Só estou um pouco preocupada com o subtítulo do projeto, 'A verdadeira história de Chica'. Pode parecer uma contradição na minha trajetória, já que fiz a Xica do Cacá e, agora, vão mostrar outra faceta dela. Até conversei com ele, e o Cacá me recomendou relaxar (risos). Ela é uma personagem tão mágica, tão fascinante que há sempre coisas a descobrir sobre essa figura.”

 

As várias facetas de Chica

 

A primeira vez que Chica da Silva apareceu como personagem histórica foi em 1868, cerca de 70 anos após sua morte, no livro 'Memórias do distrito diamantino', do jurista, professor e político Joaquim Felício dos Santos. Na obra, Francisca da Silva é retratada como “uma mulata que tinha as feições grosseiras, era alta, corpulenta, trazia a cabeça rapada e coberta com uma cabeleira anelada em cachos pendentes. Não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim, não possuía atrativo algum que pudesse justificar uma forte paixão”.

A descrição de Felício dos Santos – que se tornou representante legal dos herdeiros da escrava diamantinense no processo pela posse dos bens do contratador João Fernandes no Brasil – não foi baseada em nenhuma fonte histórica e, talvez, tenha sido influenciada pelo racismo da época. Ao longo dos anos, Chica virou filme, novela, peça de teatro, livro, samba-enredo, música e já foi retratada de diversas maneiras. Em boa parte das vezes, predominou a imagem da negra assanhada que seduziu o homem mais poderoso da Coroa no século 18.

Em 2003, Júnia Furtado lançou seu livro e trouxe uma nova visão sobre a escrava. Segundo seu estudo, Chica nasceu entre os anos de 1731 e 1735 e era filha da negra Maria da Costa com o português Antônio Caetano de Sá. Mesmo tendo sido escrava, ela levou uma vida próxima à das senhoras brancas da sociedade mineira de então. Com João Fernandes, que lhe deu a alforria, teve 13 filhos. Chica da Silva criou as nove filhas no melhor estabelecimento de ensino da região, acumulou pecúlio considerável, tornou-se proprietária de casa e chegou a possuir mais de 100 escravos.

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