Cultura lidera campanhas de financiamento coletivo no Brasil

Parcela do público que adere ao financiamento de produtos culturais tem mais interesse em ver obras prontas do que nos brindes oferecidos pelo apoio

por Carolina Braga 06/07/2015 08:47

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Quinho
(foto: Quinho)
Guardadas as devidas proporções, é como comprar um apartamento na planta. Você conhece o projeto, se encanta pela proposta e investe nela. Tem lá suas garantias, claro, mas nunca se sabe se as expectativas serão inteiramente atendidas. A diferença entre quem sonha com um futuro canto para chamar de seu e quem aposta em um dos tantos embriões de CDs, shows, peças de teatro, filmes e livros que circulam pelos sites de crowdfunding (financiamento coletivo) é que as recompensas oferecidas pelo dinheiro aplicado estão longe de ser o propósito maior daqueles que bancam o projeto.


O que mais conta para quem aderiu à moda do financiamento coletivo (pelo lado de quem investe) é o desejo de ver a coisa acontecer. “Eu, pelo menos, apoio muito mais pela causa do que propriamente por causa das recompensas. (Avalio) Se o tema me afeta, se o considero importante”, afirma a jornalista e relações-públicas Sâmia Bachelane. “Nem sei quem são (os autores dos projetos que apoia). Não tenho contato”, conta o músico Maurício Cambraia Sanches. “Leio, dou uma olhada (nos projetos) e contribuo com aqueles que acho mais bacana.”

Quando pede apoio financeiro para viabilizar um projeto, o autor, em geral, relaciona um leque de “recompensas” aos seus pratrocinadores, de acordo com o montante investido por eles. Podem ser brindes como camisetas, canecas, cartazes assinados e/ou a facilidade de acesso à obra pronta.

Conhecido como Zé do Bêlo (diminutivo de cabelo), Maurício vive atualmente em João Pessoa, na Paraíba. Ele é de Porto Alegre e se transferiu para o Nordeste por causa de uma pesquisa que desenvolve a respeito das sonoridades daquela região. Nesse percurso, não fez nenhuma paradinha em Minas. Por isso, não tem ideia do que há de novo na música daqui e desconhece o ressurgimento do carnaval de rua de Belo Horizonte e nomes associados a ele, como Então, brilha.

No entanto, via plataforma Catarse.me, já apoiou a gravação do primeiro disco solo de um dos fundadores do bloco carnavalesco mineiro. Como recompensa, receberá agradecimentos no show de lançamento e a autorização para o download do álbum. “Nunca cuidei disso. Já apoiei sete ou oito projetos, sempre de música, e em alguns casos não recebi a recompensa”, diz.

PESQUISA O que vale é a causa e a solidariedade. De acordo com a pesquisa Retrato do financiamento coletivo no Brasil, promovida pelo Catarse.me, entre 2013 e 2014, três fatores definem a realização de um projeto: transparência, qualidade e, por fim, a recompensa. Entre as mais de 3 mil pessoas que responderam ao questionário disponibilizado em parceria com o Instituto Chorus, 53% admitiram que as recompensas são importantes para definir o montante de seu investimento, enquanto 72% valorizam a transparência.

“É muito chato abandonar, sumir. Tenho procurado deixar tudo muito claro. Os apoiadores têm meu contato via Fã Page do Facebook, meu e-mail. Qualquer coisa, estou aqui”, afirma o diretor goiano Tiago Vieira. Foi graças ao financiamento coletivo que ele conseguiu finalizar o curta-metragem Quando parei de me preocupar com canalhas.

O filme, protagonizado por Matheus Nachtergaele, estreou em maio passado, num evento paralelo ao Festival de Cannes. No próximo mês, deve ter sua primeira exibição no Brasil, em competição no Festival de Gramado. Até hoje o diretor ainda não conseguiu se organizar para entregar todas as recompensas prometidas durante a campanha de financiamento.

“Tenho que repassar camisetas e cartazes, que demandam uma grana a mais. Vou fazer com calma, mas não escondo nada. Mantenho meu canal aberto e sempre comunico tudo que está acontecendo”, afirma. Tiago assegura que o compromisso será cumprido ainda este ano. Ainda assim, na pele de apoiador de outras oito campanhas parecidas com a que ele lançou no primeiro semestre deste ano, diz que seu objetivo não é material. “Quando apoio, quero que o projeto aconteça”, frisa.

Sâmia Bachelane já incluiu o crowdfunding no orçamento mensal. Em geral, investe de R$ 20 a R$ 60. Mesmo que a recompensa não seja importante, reconhece que define o valor a partir do “brinde” oferecido. “Às vezes, por R$ 10 a mais você recebe uma lembrança daquilo”, diz.

Ela tem experiências em plataformas como Catarse, Variável 5, Vakinha, Kicante e outras. Pelo que conta, o compromisso e a pontualidade com as recompensas não são o forte deste modelo. Eis uma maturidade que ainda está por ser conquistada no Brasil. O crowdfunding já demonstrou a força que tem para o financiamento de iniciativas independentes no país. No campo da cultura, surge como uma alternativa ao estrangulamento das leis de incentivo. Mas é preciso melhorar a relação da pós-produção. “É claro que a gente apoia como uma forma de fortalecer o miúdo”, diz a profissional de comunicação.

Entre as tantas iniciativas em que embarcou, Sâmia revela nunca ter se decepcionado. “Fiquei triste por alguns não terem conseguido bater a meta”, afirma. Cada projeto listado numa plataforma de financiamento coletivo tem um piso estabelecido (a meta) para atingir. Caso esse valor não seja alcançado, o autor da proposta não recebe nada, e as doações feitas para ele são devolvidas.

 

Cultura lidera

 

O crowdfunding no Brasil começou em 2010. Uma das primeiras plataformas a surgir foi dedicada à produção de shows, a Queremos!. Hoje, apesar e o modelo de financiamento coletivo ter-se expandido para diversas áreas, iniciativas culturais são as mais populares e procuradas. Segundo a pesquisa Retrato do financiamento coletivo no Brasil, enquanto 52% dos entrevistados disseram ter interesse em fomentar propostas na área da cultura, 41% preferem as de viés social e 24%, temas ligados a empreendedorismo.

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