Leilah Assumpção escreve peça sobre a experiência de ter tido rosto desfigurado por doença

No novo espetáculo, a dramaturga usa a dor para expor a alma nos palcos

por Ailton Magioli 04/07/2015 10:02

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Marco Ribas/Divulgação
Leilah Assumpção, de 72 anos, diz que 'o preço a pagar para não morrer é dar certo' (foto: Marco Ribas/Divulgação )

Do jeito que der. Até quando der. Ditas pelo casal de protagonistas vivido por Lavínia Pannunzio e Walter Breda no final do espetáculo, as frases dão a dimensão da profundidade do novo texto teatral de Leilah Assumpção, de 72 anos, que está de volta aos palcos após 'Ilustríssimo filho da senhora sua mãe', de 2008.

Em cartaz em São Paulo, Dias de felicidade é produto de uma autorreflexão da dramaturga paulista. Ela experimentou uma espécie de crise de identidade ao ter seu rosto transfigurado por uma infecção, agravada pela ocorrência de herpes no cérebro.

Foi depois de assistir à peça 'A pantera', de sua filha, Camila Appel, que também é blogueira (www.mortesemtabu), que Leilah decidiu escrever a peça autobiográfica como forma de, em suas palavras, purgar, fazer uma catarse.

Paulista de Botucatu, radicada na capital desde os 17 anos, onde foi estudar pedagogia, Leilah trabalhou como manequim durante cinco anos, período em que desfilou para Denner e Clodovil, os dois mais famosos estilistas de seu tempo.

Paralelamente, ela também estudava teatro com Eugênio Kusnet, Renata Pallottini e Miroel Silveira. Das passarelas para o palcos, portanto, foi só uma questão de tempo, com a participação nas montagens de Ópera dos três vinténs, de Brecht, e Vereda da salvação, de Jorge Andrade.

“Nunca fui atriz. Não tinha talento na área, não era aquilo que eu queria.” Na dramaturgia, estreou com Vejo um vulto na janela, me acudam que eu sou donzela, de 1964.

“É o golpe visto através de meninas e mulheres que vivem em um pensionato de estudantes”, diz a respeito de sua única peça, que também foi parar nas telas, sob a direção de Maria Letícia. “Gostei demais do filme, aquela coisa meio adolescente”, avalia Leilah, que também chegou a experimentar a TV, escrevendo novelas e minisséries.

“Achei muito desgastante. Gostei de minissérie. Já as novelas exigem talento especial, que eu não tenho. Não é só técnica, tem de ter algo inato para colocar o conflito em cada frase”, diz. São dela as novelas Venha ver o sol nascer (Record), que teve direção de Antunes Filho, Um sonho a mais (Globo) e a série Avenida Paulista, também da Globo. No teatro, é autora dos sucessos Fala baixo senão eu grito e Intimidade indecente, que está em cartaz há dois anos na vizinha Argentina.

HISTÓRIA DE AMOR No novo espetáculo, a dramaturga usa a dor para expor a alma nos palcos. A trama de Dias de felicidade gira em torno de uma banqueira que tem o rosto desfigurado após um acidente de automóvel. Ela encontra no ex-marido conforto quando está à beira do abismo. Mais do que a discussão sobre a beleza e a dor, a peça é uma história de amor. “Mas não há um happy end”, adverte a autora, lembrando que, no reencontro, o casal se vê por ângulos mais profundos. Mãe de filha única, a dramaturga se diz adepta do que classifica de “relação sanfona (abre e depois fecha)”. Após viver 20 anos sob o mesmo teto com o marido, há 15 ela adotou a nova relação, em que cada um vive em casa própria.

Depois de publicar duas antologias nas quais reuniu sua produção teatral, Leilah prepara um livro inédito. Trata-se de Momentos saborosos com pessoas amigas diferenciadas, no qual revela detalhes de relações de 40 anos.

“Conseguimos realizar projetos e sonhos, pelo menos em parte, além de ter responsabilidade social”, avalia sobre a própria turma de amigos. Segundo Leilah, na geração dela, quem não deu certo morreu nos porões da ditadura ou viciado em drogas.

“O preço a pagar para não morrer é dar certo”, diz, referindo-se à resistência à ditadura militar, período em que ela enfrentou a censura, tendo diversos textos proibidos ou submetidos a cortes. Na opinião da dramaturga, o teatro era muito mais vivo naquela época, porque a classe artística tinha inimigos em comum: a censura e a ditadura. “Por isso fazíamos um teatro mais forte, mais batalhado. Hoje, temos é quem não gosta de teatro.”

Segundo acredita, resta à classe teatral procurar novas formas de união e ser mais batalhadora. “O teatro tem de investir, por exemplo, na política e na economia. São questões importantes”, diz a dramaturga, salientando o fato de a corrupção ser “teatro do mais alto absurdo”. “É muito absurdo vindo à tona agora. Temos de escrever sobre isso.” Sobre a predominância do gênero musical na produção de artes cênicas, ela diz que deve ser produto de “uma certa agonia elevada ao cubo”.

Paralelamente à carreira como dramaturga, Leilah começou a fabricar peças em prata e banhadas a ouro, que classifica de “quase joias” ou “joias emocionais”. Em geral, ela doa as peças aos amigos, já que, segundo diz, a venda não paga o trabalho nem a emoção gasta na realização.

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