Moradores contam história da cultura em regiões ''fora do centro'' de BH

Projeto Cotidianos culturais convida população da capital a contar sua experiência e expor sua relação com a cultura no lugar onde vivem; iniciativa deve derivar em registros multimídia

por Ana Clara Brant 30/06/2015 00:13

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Túlio Santos/EM/D.A. PRESS
Folia de reis Jesus Maria José se apresenta em encontro do Descentra Cultura nos bairros Regina e Lindeia (foto: Túlio Santos/EM/D.A. PRESS)
Estavam lá o grupo de folia de reis Jesus Maria José e alunos da Escola Estadual João Paulo I, que tiveram contato pela primeira vez com essa expressão do folclore. O comerciante aposentado Antônio Fonseca Campos, de 69 anos, também apareceu, para contar sua experiência no bairro onde vive desde 1973. Seu José da Luz,  de 75, ou José do Bloco, como é conhecido, por ter sido proprietário de uma casa de materiais de construção, achou que não deveria perder a roda de conversa.

O encontro que reuniu esses cidadãos moradores dos bairros Lindeia e Regina ocorreu na tarde de sexta, 26, no centro cultural local, e foi acompanhado pela reportagem do Estado de Minas. O convite feito à comunidade era para ir contar a sua própria história e seus costumes e estabelecer a relação entre eles e o lugar onde vivem. O resultado deve virar um livro, dentro do projeto Cotidianos culturais – Minhas histórias na literatura da vida em comunidades.

Essa é uma das ações promovidas pela iniciativa Descentra Cultura, que tem o objetivo de valorizar e promover manifestações culturais das regiões periféricas de Belo Horizonte.

No bate-papo de sexta-feira, seu Antônio Campos citou a “união” como a característica mais interessante de seu bairro. “Foi assim que conseguimos desvincular a (antiga) região de Ibirité e integrá-la a Belo Horizonte. Foi assim que conseguimos criar esse centro cultural e o posto de saúde. Acho muito importante essa iniciativa de a gente poder contar nossa própria história, para que as futuras gerações a conheçam também”, disse.

“Aqui, é como se fôssemos uma família. Todos se conhecem, ajudam uns aos outros. E ninguém faz distinção de ninguém”, afirmou seu José da Luz. Já para Adolfo dos Santos, embaixador e responsável pela folia de reis Jesus Maria José, o importante do Cotidianos culturais é que ele também promove a valorização de manifestações como a folia e o congado, por exemplo. “É uma cultura centenária, que, infelizmente, está se perdendo. A gente tem batalhado muito para que isso não ocorra. Você viu aqui a nossa apresentação no Centro? Crianças e jovens de uma escola que nunca tinham assistido a uma folia ficaram encantados, tirando fotos, filmando. É só ter acesso”, argumenta.

Promovida pela Fundação Municipal de Cultura (FMC), a iniciativa é coordenada pelo produtor cultural Ricardo Pinto de Paula. Ele diz que os 16 centros culturais de Belo Horizonte promoverão encontros dentro desse projeto. Grupos culturais, de terceira idade, escolas profissionalizantes, colégios, comunidades religiosas, representantes de projetos sociais, entre outros, têm participado das reuniões, já realizadas nos bairros Lindeia/Regina, no Barreiro, e Vila Fátima, na Regional Centro-Sul.

Amanhã e quinta-feira, estão previstas reuniões no Centro Cultural Vila Marçola, no Aglomerado da Serra. “É um projeto amplo mesmo. A ideia é ouvir o maior números de indivíduos, de todas as classes e idades, para que a gente possa construir essa memória. A história é feita todos os dias e por todas as pessoas, sem exceção”, afirma o coordenador. Os relatos terão registro num livro de memória comunitária e também em fotos, áudios e outras mídias. Está prevista uma exposição permanente sobre o projeto e o acesso público aos resultados, nas bibliotecas dos centros culturais de Belo Horizonte.

Pinto de Paula se diz satisfeito com o engajamento e a participação da população nos encontros promovidos até agora. “O que mais tem me comovido não é só o envolvimento, mas a fala espontânea das pessoas. Todos, seja uma criança, um adolescente, um adulto ou idoso têm interesse em contar, saber e preservar a própria história e também a das outras comunidades”, observa.

Mestres populares
Acaba de ser aberto pela Fundação Municipal de Cultura o edital para o 2º Prêmio Mestres da Cultura Popular de Belo Horizonte. Assim como na primeira edição, o intuito é reconhecer e valorizar a atuação dos mestres e mestras da cultura popular, responsáveis pela transmissão e perpetuação de tradições que compõem o patrimônio cultural imaterial da capital mineira. As inscrições podem ser feitas até 28 de agosto. Serão premiados até três mestres e cada um deles receberá  R$ 15 mil e um certificado alusivo ao título de mestre da cultura popular de Belo Horizonte. O edital está disponível no endereço eletrônico do Diário Oficial do Município (DOM): www.pbh.gov.br/dom.

Iniciativa valoriza os ‘fora do Centro’
A partir do próximo dia 6 de julho, a Fundação Municipal de Cultura recebe propostas para a segunda edição do Descentra Cultura. O projeto conta com R$ 2 milhões, provenientes do Fundo Municipal de Cultura. O Descentra financiará 100 projetos de até R$ 20 mil. “O edital propicia a solução de duas grandes lacunas que a Lei Municipal de Incentivo à Cultura produzia. Uma delas era que as propostas aprovadas, em sua grande maioria, estavam concentradas na Região Centro-Sul. A outra é que as ações de cultura também estavam concentradas nessa região”, aponta Leônidas Oliveira, presidente da FMC. “Não que ela não seja uma região importante, mas BH é uma cidade de 2,5 milhões de habitantes e temos várias iniciativas culturais por toda a capital que não têm como conseguir financiamento. A política pública de cultura tem essa obrigação de olhar o mercado e dar acesso a quem não tem”, afirma.

No primeiro Descentra foram contemplados 50 projetos que estão sendo executados desde o ano passado como o Circulação – Espetacular que lugar é esse?, da Regional Barreiro, o Boi do Além – Oficina e banda, da regional Noroeste, o Alicerçando a cultura – Projeto Cabana Cultural, e o Cotidianos culturais – Minhas histórias na literatura da vida em comunidades.

Para Oliveira, um dos pontos mais importantes do Descentra é proporcionar o crescimento e o estímulo da cadeia produtiva cultural. “À medida que você dá acesso à periferia, vai formando público, porque essas mesmas pessoas vão frequentar depois os espetáculos da Campanha de Popularização do Teatro ou os Concertos no Parque, por exemplo. Essa inclusão dos artistas e agentes de todas as regiões e esse equilíbrio dos recursos são essenciais para o desenvolvimento da cultura.”

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