Professor doa à UFMG álbum raro de Dom Quixote

Livro traz desenhos de Portinari e versos de Drummond

por Walter Sebastião 28/06/2015 12:00

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Fotos: Beto Novaes/EM/D.A Press
Desenho de Candido Portinari inspirados na obra-prima de Cervantes (foto: Fotos: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Em 2014, o professor carioca José Carlos Sebe Bom Meihy, especialista em história oral e da arte, veio a Belo Horizonte participar de um seminário sobre a escritora Carolina de Jesus (1914-1977). Conheceu o Acervo de Escritores Mineiros, que funciona na Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e ficou encantado com o trabalho de coleta e pesquisa de documentos literários ali realizado. Decidiu, então, doar para o centro de estudos um item precioso: o microfilme dos manuscritos de Carolina. Aquelas cinco mil páginas traziam os diários da autora mineira, sete romances, quatro peças de teatro, poemas, letras de música, contos e crônicas – a maior parte inédita. Esse material transformou o acervo em referência para o estudo da obra da autora de Quarto de despejo. Aliás, é tão importante que foi digitalizado pelo Arquivo Público Mineiro.


Agora, o professor José Carlos faz outra doação para a UFMG: o álbum Dom Quixote, de Cervantes, com desenhos de Portinari e poemas de Carlos Drummond de Andrade. Trata-se do volume 12, com 50 exemplares especiais (da tiragem de 1 mil), devidamente assinados pelo artista plástico e pelo poeta. A edição de 1978 reúne desenhos feitos em 1956, momento em que Portinari, proibido pelos médicos de pintar devido à intoxicação com tintas, buscou no lápis de cor uma forma de continuar fazendo arte. Naquela época, o pintor foi proibido de entrar nos Estados Unidos para ver seu painel Guerra e Paz, pintado para a Organização das Nações Unidas (ONU) e instalado em Nova York. Detalhe: os textos de Drummond não fazem parte de nenhum livro do poeta.

“Já tinha decidido, há algum tempo, pela doação do álbum. Não fazia sentido manter uma obra assim parada na minha estante. Como Drummond é escritor mineiro, como também Carolina de Jesus, acho que o lugar dele é um acervo mineiro”, afirma José Carlos.

INUNDAÇÃO
Minas Gerais quase perdeu esse tesouro. A caixa- d’água do prédio do professor, no Rio de Janeiro, rompeu-se. Morador da cobertura, ele viu sua biblioteca atingida pela água. “No meio da tempestade, só pensava em salvar o Dom Quixote, inclusive porque havia prometido doá-lo à universidade”, conta ele, com bom humor. A obra tem valor afetivo: trata-se de um presente que José Carlos ganhou da esposa. Além de revelar o impacto da poesia concreta sobre Drummond, ela ainda traz o autógrafo do poeta.

“Doação de algo de que a gente gosta muito é como doação de órgão: vai um pedaço da gente, da minha história”, brinca José Carlos. “Dói, deixa um vazio, mas ele é preenchido por motivações importantes. Fiquei muito feliz. Estou bem de saúde, mas tenho de pensar no destino das minhas coisas como algo de valor cultural”, conclui. Antes de fazer a doação à UFMG, o professor consultou os dois filhos, pois não era sua intenção causar problemas patrimoniais à família.

Ainda não está definida a coleção da UFMG que receberá o álbum. A previsão é de que a doação seja formalizada em agosto, durante cerimônia com a presença de José Carlos e a exposição do álbum.

Amigos mineiros – o casal Constância Lima Duarte e Eduardo de Assis Duarte, que lecionam na Faculdade de Letras da UFMG – fizeram a intermediação entre o doador e a UFMG. Os dois agradecem o presente. “É um ato de generosidade com uma instituição cultural, algo ainda pouco comum no contexto brasileiro”, observa Constância. “Vejo nessa doação mais do que um ato, mas um gesto de alguém que consegue pensar o Brasil e a cultura brasileira para além de prazeres individuais e do patrimônio familiar”, conclui Eduardo de Assis Duarte.

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