Biografia de Freddie Mercury mostra que artista inventou personagem para si mesmo

Escritora Laura Jackson traça o perfil de um homem que decidiu ser famoso e usou o estrelato para contornar suas decepções

por Ana Clara Brant 23/06/2015 08:00

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AFP
Freddie Mercury se apresenta como Queen em Paris, em 1984. No ano seguinte, a banda fez show antológico no Rock in Rio (foto: AFP)
Em setembro de 1946, nascia em Zanzibar, na Tanzânia, Farrokh Bulsara. Em julho de 1970, nascia Freddie Mercury, em Londres, Inglaterra, vocalista de uma das maiores bandas de rock da história, o Queen. Já aos 8 anos de idade, quando seus pais se mudaram para a Índia, os amigos batizaram o garoto de Freddie, e a família passou a chamá-lo assim.

O nome artístico foi o próprio cantor e compositor quem escolheu. Mercury ou Mercúrio, na mitologia romana, era o mensageiro dos deuses. “Ele se reinventou como Freddie Mercury, que representava glamour, fama e força, ao contrário de Farrokh Bulsara. Eu diria que o Mercury deu a Freddie a persona que ele precisava para permitir-lhe expressar tudo que tinha sido sufocado dentro dele desde a mais tenra idade”, afirma, em entrevista ao Estado de Minas, a escritora escocesa Laura Jackson, autora de 'Freddie Mercury – A biografia' (Record).


A publicação percorre a trajetória do ídolo desde o nascimento, passando pela mudança para a capital inglesa, as bandas das quais fez parte até o estouro do Queen, a carreira solo, seus relacionamentos hétero e homossexuais, suas extravagâncias, até sua morte, em decorrência de uma broncopneumonia acarretada pela Aids, em 24 de novembro 1991, aos 45 anos, um dia após ter anunciado publicamente ser portador da doença.


Jackson acompanha há 20 anos a vida de astros internacionais e já escreveu biografias de astros como Bono e Steven Tyler. Ela desenha a personalidade de Mercury como a de um homem que, quando explodia, chegava a arremessar objetos em funcionários de hotel, mas que também era capaz dos gestos mais generosos. “Ainda na década de 1970, quando suas festivas extravagâncias foram notórias, Freddie se destacou como um homem com uma voz majestosa e a sua poderosa presença de palco. Então, para mim, até ali, eu o via apenas como uma estrela notável. A diferença, agora, depois de ter escrito a sua biografia, é que descobri que existia uma figura extremamente complexa por trás daquela fachada. Ele não era um homem fácil. Ao mesmo tempo em que conseguia ser uma pessoa de coração mole, era também um tipo espontaneamente cruel e arrogante”, diz Laura.


A escritora, que colheu depoimentos de amigos próximos a ele, como Malcolm McLaren, Tim Rice, Richard Branson, Cliff Richard, Bruce Dickinson, Mike Moran, Wayne Eagling, Zandra Rhodes e Susannah York, acredita que uma das características mais impressionantes de Mercury era a sua autoconfiança. “Qualquer pessoa que alcança a fama precisa ter tenacidade, é claro, mas, com Freddie, ela foi mais profunda. Ele sabia que estava destinado a ser uma estrela e era incansável na tentativa de conquistar o reconhecimento de seu talento.”



SEXUALIDADE Um aspecto curioso revelado no livro é que muitos que conviveram com Freddie Mercury nunca desconfiaram de sua bissexualidade. O cantor foi casado durante anos com a vendedora de roupas britânica Mary Austin. Mesmo após a separação, ela continuou sendo o seu porto seguro e acabou herdando uma boa parte de seus bens quando ele morreu. “Mary se casou de novo, mas eles nunca deixaram de ser amigos. Sem dúvida, ela foi a figura feminina mais importante na vida do astro. E o interessante é que, mesmo com aqueles trejeitos femininos, Mercury era considerado extremamente sexy pelas mulheres”, escreve Laura na biografia.


Após a separação de Mary, Freddie incorporou o lema de todo roqueiro: sexo, drogas e rock n’ roll, dedicando-se a uma rotina desregrada e promíscua. “Freddie Mercury foi o ápice do sexo, drogas e rock, porém, acabou pagando um terrível preço por seu hedonismo. Ele levou sua doença com imensa coragem, mas foi dolorosamente vulnerável. Barbara Valentin (atriz de cinema alemã que se tornou sua grande amiga) me contou sobre ele vindo até ela e pedindo-lhe para levá-lo e cuidar dele. Freddie foi incrivelmente comovente”, diz a autora.


Apesar de ter tido dezenas de relacionamentos – o roqueiro adorava propagar que teve mais amantes do que a atriz Elizabeth Taylor – ele se dizia a pessoa mais solitária do mundo. No fim da vida, o dono da voz que eternizou canções como 'We are the champions' e 'Love of my life' tinha como companheiro seu ex-cabeleireiro Jim Hutton e teve uma mudança de comportamento significativa. Ele se tornou um homem sereno e maduro em vários aspectos, segundo os amigos. Laura Jackson cita uma passagem que demonstra o humor afiado que norteou o temperamento do cantor e compositor. Quando lhe perguntaram em certa ocasião como gostaria de ser lembrado, Freddie, disparou: “Ah, não sei. Quando eu estiver morto, quem vai se importar? Eu é que não”.


“Acredito que se ele estivesse ainda por aí, estaria fazendo uma música adaptada para refletir adequadamente a sua idade. Afinal, ele era uma figura de classe e inteligência. Freddie Mercury teria adaptado seu bom gosto de acordo com seus 68 anos. Se ele fosse assistir aos artistas de hoje na TV, certamente estaria gritando conselhos e apontando o melhor caminho a eles”, afirma Laura.

Divulgação
(foto: Divulgação)

 

"Ele não era um homem fácil. Ao mesmo tempo em que conseguia ser uma pessoa de coração mole, era também um tipo espontaneamente cruel e arrogante.”
Laura Jackson, biógrafa de Mercury

 

Freddie Mercury – A biografia
Editora Record (308 págs; R$ 45)
Autora: Laura Jackson
Tradução: Waldéa Barcellos

 THOMAS SAMSON/AFP
(foto: THOMAS SAMSON/AFP)
Queen vem ao Rio com novo vocalista

 

Depois de 30 anos, a realeza está de volta ao Rock in Rio. Em 1985, o Queen fez as 250 mil pessoas presentes ao festival cantarem seus vários clássicos, como 'Love of my life' e 'We are the champions'. Foi uma apresentação memorável, mas tensa, segundo relatos dos integrantes da banda, registrados no livro de Laura Jackson. Agora, o Queen volta a ser uma das principais atrações do Rock in Rio, apresentando-se no dia 18 de setembro.


O grupo vai ser liderado pelo cantor norte-americano Adam Lambert, de 33 anos, revelado no programa American idol, em 2009. “As músicas do Queen são difíceis de cantar. Muitas pessoas não conseguem interpretá-las no tom original, apesar do talento. Adam consegue fazer isso com muita facilidade e atingir notas agudas que nem Freddie alcançava em shows ao vivo”, declarou o guitarrista e um dos fundadores da banda britânica, Brian May. “Acho que Freddie olharia para esse cara (Lambert) e diria algo como, ‘humm, seu desgraçado. Você consegue fazer isso’”, brincou.


Já para a autora da biografia de Freddie Mercury, o vocalista original do Queen é insubstituível. “Em um mundo em que tantas estrelas da música são fabricadas, quase clones umas das outras, há algumas que são verdadeiramente únicas. Sem dúvida, Freddie foi uma delas. Na minha visão, é impossível para qualquer artista ocupar o seu lugar. Não importa o quanto ele seja bom e tenha talento”, opina.

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